29 de jan de 2015

Ninho

a aranha tece a teia
por assim ser seu caminho

tem humano que vive numa teia
mas ainda insiste em ser tão sozinho

em teia tentamos como aranha
um caminho reto, contrário ao da vida

múltiplo, espaçado, milimetricamente inpensado
e diferente de ambos
é o voo do passarinho

mais alto, mais reto, mais rápido
é o voo do homem
que corta o mundo visto da escotilha

tem humano que caminha voando
como um estranho dentro do próprio jatinho

Toni Caldas

21 de out de 2013

Sussurrando
Uma voz uma vez me disse
Que vinte anos se passaram

Que o melhor do dia não é a alvorada
Nem o final, nem a madrugada
É o transitar da noite pra ela e o som que nela exala

E que em vinte anos
Ela virá dizer isso a você
Sussurrando

Toni Caldas

22 de ago de 2013

Por um fio

Abriu a porta e saiu. No fim ela não soube muito bem como ou o que iria fazer agora que ele resolveu redescobrir a vida. Haroldo sempre foi preocupado com o trabalho, com as gruas para erguer, em que sentido girar as alavancas, quantas toneladas irá suportar um cabo de aço...

Trabalhava nas docas há trinta anos, mas nunca viu mesmo nenhuma sereia ou ser místico que lhe encantasse na vastidão azul que via da sua cabine todos os dias. No princípio se sentia o dono do mundo, do alto, vendo todos pequeninos. Àquela altura ele já não sabia se era mesmo tão grande assim e lamentava o bailar dos barcos ancorados.

O casamento foi no mesmo ano que ele arrumou o emprego nas docas. Moravam na em um sobrado de onde era possível se avistar o mar. Durante todos os dias ele em poucas ocasiões deixou de dizer a alguém que amava sua esposa cada dia mais. Mas vivia com um olhar trêmulo, silencioso, palpitando com os raios de sol frente ao horizonte, nos fundos de casa onde vivia.

Seu grande sonho era um filho. Infelizmente Elizete nunca conseguiu engravidar. Aquela seria para Haroldo a afirmação da sua continuidade. Ele sempre fez planos desde que casou. Pensava como iria ensinar-lhe todas as coisas que aprendeu, como iria rir com as suas primeiras palavras e o que aquele jovem iria achar dele quanto tivesse sua idade.

Desde então Haroldo sempre fugiu constantemente da ideia de que a velhice se aproximava. Criava um refúgio de juventude em si, uma fortaleza contra as conversas dos amigos de trabalho e de futebol que insistiam em reclamar da indisposição do corpo, da memória falha e principalmente do desprezo das mulheres. Haroldo não demonstrava, dizia que nada daquilo o afetava.

Mentia. No fundo temia todos os dias que Elizete o deixasse por um homem mais jovem. A última vez que a esposa o viu estava em frente ao espelho do banheiro, quieto, se olhando nos olhos sobre as sobrancelhas largas e desalinhadas. Descobriu um fio de cabelo branco na cabeça, saiu de casa, nunca mais deu notícias.

Toni Caldas

17 de jun de 2012

Da tarde em diante

Àquela hora já estava atrasado. Mesmo com os ponteiros de pulso adiantados, a demora era notável nos seus olhos baixos a procura de uma explicação. No canto do bar no Barbalho, esperava entre cigarros e cervejas, volta e meia observada pelo homem por trás do jornal da semana passada.

As lágrimas retidas nos olhos se omitiam nas mãos tremulas, que quase gritavam sua ansiedade e dor.
Os sapatos desbotados nada diziam sobre os caminhos por onde andou, mas os cabelos desgrenhados e a alça caída do vestido acusavam o desprezo.

De certo que ele costumava demorar, nunca telefonava e nem sequer pedia desculpas. Seus ouvidos eram sedentos de qualquer aviso, um alerta, mesmo uma mentira. Eram assim todas as tardes, antes de Ana decidir nunca mais chorar por homem algum...

Toni Caldas