20 de nov de 2009

Lamúrias ao crepúsculo

É fim de tarde aqui onde vivo. Mas não um fim de tarde agradável, sorridente, ao som de pássaros, caldas que quebram nas rochas e da brisa que sopra ao rosto. Não, é nostálgico. Há vertigem. Da minha janela vejo um mundo agitado. Mas cidade está quieta. Quieta em alegria, cada pessoa em seu universo de contas a quitar, filhos a educar, trabalho a cumprir, um mundo a se comprar. Faz uns dias, aquela que dizia me amar me trocou por um sujeito rico.

Inicialmente pensei: “Todo homem deveria ter um carro, ou nem precisava ter testículo”. Ora, como posso pensar isso, sou eu ou o carro quem ela ama? Em todo caso acho melhor seguir sozinho até encontrar alguma mulher que não goste de automóveis ou tenha um trauma tão grande com eles que prefira não imaginar eu dirigindo um. “Essa vanguarda me envergonha!”, recordo-me o trecho interessante de um livro que vinha lendo. Aquilo que eu adorava se tornou artigo de luxo na atualidade. Percebo em todos os lugares uma triste materialização dos sentimentos. Valores? A não ser aqueles que dizem respeito aos das cifras as pessoas hoje pouco se importam com eles. Sentir custa, prazer custa, amar custa, viver e até mesmo morrer custa.

Tudo custa muito, muito caro. Uma vida não vale tanto assim hoje em dia, com isso todos os valores morais despencam. Entendo hoje o quereres daquele miserável ali na esquina quando brada aos quatro ventos que seus amigos, sua família e tudo mais lhe trocaram por dinheiro. O que ele quer vai além de conforto físico, é algo que nos torna iguais em miséria, todos nós, afinal. É a carência de sentimentos, uma batalha por atenção para, não somente com ele, mas com tantos outros segregados. Abandonaram-lhe, assim como a mim. Eu me sinto um abandonado.

No tecido da nossa sociedade existem células mais importantes e menos importantes. As relações de interdependência são esquecidas no âmbito dos sentimentos, mas fortalecidas cada dia mais e mais no que diz respeito ao econômico. É lamentável saber que as pessoas se trancam em suas carências e riquezas e esquecem que compartilhar isso sem esperar nada em troca é tão mais interessante. Por quê? A pergunta não vai além de “Por quê?”. Viver isolado, buscando apenas aquilo que caiba no seu e exclusivamente seu sonho. Não é mais o “sentir”, é o “comprar” que está em pauta. Repense, reveja, vale à pena? Vale mesmo? Há lamúria ao crepúsculo, tão tosco, passageiro e tudo custa.

Toni Caldas

18 de nov de 2009

Vendendo a arte da contemplação...

Na terra do Carnaval imaterial, pode-se observar que o ritmo de vida dos habitantes não mudou muito nas últimas décadas, se comparado às outras cidades da Bahia. Em Maragogipe, a paz e a tranquilidade ainda reinam. Senhoras nas janelas sem medo da violência, crianças correndo nas ruas sem se preocupar com os carros, namorados nas praças à noite sob luz de antigas lamparinas, e o maravilhoso mar que banha o porto do Cajá a contemplar com sua brisa.

Andei por becos estreitos, ruas sem saída, conversei com alguns moradores para encontrar o que havia além do exótico daquele lugar. Ao passar por uma fachada rústica de um casarão antigo me impressionei com garrafas plásticas nos espaços como se servissem janelas. E eram mesmo! Olhando mais atentamente vi outros entalhes que me chamaram atenção. Era uma humilde e enorme galeria de arte e fui recebido com muito carisma e entusiasmo por Tai Guimarães, dono do espaço. Ele ficou muito feliz em saber que tinham cada vez mais pessoas visitando suas obras, pois esse segundo ele é seu maior prazer: transmitir a arte.

A galeria

Segui por todos os cômodos, conhecendo as idéias e obras do artista. A Galeria Antônio Guimarães, onde o próprio reside, é uma homenagem ao seu falecido pai. O título não foi mero acaso, Antônio Guimarães foi um ambientalista ativista e com ele seu filho aprendeu muito do que sabe hoje.

Na Galeria, o excêntrico artista desenvolve um curso em que leciona além da consciência ambiental a arte de dobrar papéis: o Origami, a arte milenar introduzida pelos monges. Ele diz que o trabalho envolve disciplina, memorização, criatividade; atividades que são indispensáveis para ele.

O principal produto dessas dobras de papel são os pássaros grou. Existe uma lenda que diz que ao dobrar mil desses singelos pássaros pode-se realizar um desejo almejado, e questiono isso ao artista. Tai me diz que se funcionasse desse modo ele já teria realizado vários desejos, não apenas um, e completa: "Existem lendas como essa, evidentemente, mas tem uma coisa que agente tem que perceber: A fissura de realizar seu desejo não é bem por aí. Tem que ter a paciência, e esperar que o desejo esta sendo realizado. Está sim! Mas se eu vou pegar o desejo realizado totalmente enquanto eu estiver vivo, eu não sei. Mas ele esta sendo realizado porque eu já tenho o poder de sair, de andar, de circular por onde imaginar. Isso para mim já é um desejo realizado, mas por completo mesmo eu não espero".

O artista

Tai Guimarães, considerado por muitos moradores da cidade uma figura pitoresca, é um artista voltado para o seu tempo. O planeta é uma preocupação na vida deste capricorniano que tem como ideal contribuir para que os indivíduos possam viver numa relação mais humanística com o ambiente natural e social criando assim possibilidades para um melhor desenvolvimento de suas potencialidades.

Nesta perspectiva, o lixo tornou-se o elemento primordial em sua criação artística. As sucatas que recolhe transformam-se em obras de arte que, além do objeto artístico, visam à natureza do lixo acumulado. Esta arte refletida na educação ambiental repensa o consumo e o descarte, ao mesmo tempo em que proporciona o reaproveitamento de resíduos, sugerindo-lhes novas formas.

Os objetos de Tai surgem pelo fazer do artista, vislumbra uma viagem de rumo imprevisto através de suas experiências óticas. Suas pinturas, esculturas, objetos, desenhos e colagens são como um suporte de materiais descartados, reutilizados, com o toque de uma linguagem plástica, da escritura simbólica de um artista que não se cansa de buscar, interpretar, reinterpretar novas formas e novos conceitos artísticos.

O estilo de suas obras se baseia no Dadaísmo, vanguarda européia do século XX, sendo a negação total da cultura, defendendo o absurdo, a incoerência, a desordem e o caos.

Tai diz que se baseia na desconstrução da arte seguindo um conceito de conscientização ambiental. "Minhas obras estão inacabadas, pois quando eu aplicar o material que eu tenho a mais aqui no ateliê, ela vai estar formada e vendável como uma obra de arte. Tudo isso aqui são rabiscos que eu fiz, como uma poesia rabiscada", diz.

"A arte há de ser comunicada e o seu reclame principal é chegar até o público, mostrar-se por inteira, desvendar-se, para que ambos participem do momento de sua recriação, sob os olhos indagadores de quem vê", explica Tai, citando Thomas Paine, o revolucionário da liberdade: "A arte transforma nossa sensibilidade e nossa relação com o mundo, ela é uma necessidade, pois nos provoca sensações e expressões mais diversas. Por isso a buscamos. Os objetos artísticos em sua complexibilidade encontram-se intimamente ligados nos contextos culturais, tornando-se necessário que se dialogue com a obra, enriquecendo dessa forma o contato com a arte e com o discurso do artista".

O ambientalista

A ocupação, e não preocupação, como o próprio enfatiza, com os problemas ambientais está presente nas atividades de Tai desde a década de oitenta. O artista não é contra a evolução, nem tão pouco contra as pessoas que aplicam determinados "vacilos" com a natureza: "Eu quero fazer minha parte, dizer que existe uma possibilidade de amenizar o impacto ambiental através da arte. Você não pode proibir ninguém!".

Ele conhece muito bem a região, não apenas por uma deliberação pessoal, mas porque é guia informal e leva turistas por grutas, cachoeiras e trilhas. Com amigos feitos nessas aventuras, Tai viajou, inclusive, para fora do Brasil.

Desde os doze anos ele saiu pelo mundo em devaneios. Assim conheceu vários países da Europa e da América Latina. Sempre viajando de barco com pessoas na grande maioria de nacionalidades diferentes à dele. Mas se o assunto é nacionalidade Tai é bem objetivo: "Eu sou turista, sou gringo, cara! Não tenho nacionalidade, no sentido de que eu chego, volto, saio...".

Além de todos seus atributos como artista, ambientalista e velejador, Tai também se mostra como mostra um praticante do cicloturismo, remo e caminhada. Com feitos inéditos como a travessia Maragogipe-Salvador feita a caiaque e o trejeto de bicicleta entre Salvador e Belo Horizonte.

Pergunto então, sem receios, qual é a sua idade, e ele responde: "Bem, eu não vou mentir pra você, eu já estou na casa dos 40. Como dizem, eu já sou um 'coroa'. Mas como o próprio conota com suas palavras, ele não se considera 'coroa'. Quem pega uma bicicleta e roda o mundo, quem rema quilômetros de caiaque e quem se aventura mundo à fora como eu faço não deve ser considerado um velho. Idade são só números".

O homem

Já entretido com os assuntos humanos, questões sociais e pessoais, pergunto ao peregrino se ele teria ídolos, e ele responde negativamente. A glorificação de Tai Guimarães segundo o próprio é apenas a arte em essência.

Relata também que frequenta o Pinho, um terreiro de Candomblé da região do Recôncavo que data de quase quatro séculos de existência. Tai explica que é admirador, mas por ter uma grande sensibilidade e visão, os membros do grupo querem que o artista seja alguma representação deles. Mas Tai não quer se apegar a nada, muito menos a religião. Até as técnicas de permacultura ele afirma já ter tentado se adaptar, mas tinha que se tornar um escravo do seu quintal. "A única coisa que eu me apego e que não me decepciona é a arte".

Em meio a isso pergunto a Tai sobre a relação 'bem e mal' e a beleza da vida, e ele explica: "Eu acredito numa força superior, que as pessoas podem determinar como Deus ou como quer que seja. Mas existe uma força, afinal ninguém está aqui a passeio. Se alguma coisa acontece em sua vida é porque teve que acontecer. Nós não somos só matéria. Se você está distante dessa força você fica do lado escuro do mundo. Eu sou, você é, todos somos energias. Essa energia é que nos dá vida. A beleza está fora da estética do ser humano, não está no corpo da pessoa. A beleza está no comportamento dela, no falar, como é que ela age diante de uma situação. Essa que é a beleza! Porque a estética não funciona, ela nos engana. Eu nunca vejo a estética de ninguém, eu vejo o coração, o lado interior".

Hesitei em sentar e anotar aquela tempestade de idéias que choveu sobre minha mente naquele instante, quando vi um caderno capa-dura com algumas brochuras e perguntei a Tai do que se tratava.

Contou-me que eram poesias e recitou algumas delas. Místicas palavras como quase tudo que havia ali, eu lhe indaguei porque não divulgava aqueles escritos e ele me conta cheio de sinceridade: "Fui punk, pichava as estradas. Hoje eu picho as telas, essa é minha poesia. As palavras escritas já não tem nada a dizer".

Toni Caldas

O banquete

Não tinha nem sabão na verdade para lavar o prato

Não tinha nem sal na verdade para temperar o prato

Não tinha nem comida na verdade para encher o prato

Não tinha nem prato na verdade para ser exato

Apenas a cabeça flutuava pelos cômodos da casa vazia

Sem pão, sem água, sem Deus, sem o Diabo

Não tinha nada mesmo de fato

Não tinha nem prato

Rony Bonn