29 de dez de 2009

Tempo

O pretérito é perfeito
Imperfeito
Mais-que-perfeito

O futuro é perfeito
Imperfeito
Mais-que-perfeito

E o presente?
Caberá a ele apenas o imperativo?

Toni Caldas

26 de dez de 2009

"Caretas, não..."

Ele é o ídolo dos malucos das estradas e dos postos de gasolina. Wilson da Silva, mais conhecido como Ventania, é registrado em Pariquera-Açu - São Paulo, porém nasceu em Clevelândia, estado do Paraná, no dia 21 de agosto de 1962. O leonino, cantor e andarilho cuja inspiração musical vem do movimento hippie, atualmente mora em São Thomé das Letras - Minas Gerais. Filho de uma maestrina e pianista, desde cedo estabeleceu um contato muito forte com a música. Uma das mais importantes influências musicais de Ventania, é o cantor e compositor Raul Seixas, o "Raulzito", marco histórico do rock nacional e da mistura com influências "alternativas". Mais tarde, em torno de 1980, Ventania começou a cantar e compor, caindo literalmente na estrada. Sua vida de shows resumia-se apenas nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná, em apresentações precárias. Os shows de Ventania eram - e de certo modo ainda são - literalmente "só para os loucos".

Em 2000, Ventania mudou-se para São Thomé das Letras, em Minas Gerais, onde passou a tocar no "Bar do 2". A partir dessa mudança que sua carreira começou a alavancar. Essa grande transformação, o levou a gravação de seu CD Ventania: Só Para Loucos. A disseminação de suas gravações, porém, foi impulsionada de sobremaneira pela Internet, através da troca de arquivos MP3 em programas P2P. Vale ressaltar que o trabalho de Ventania é completamente independente, não estando vinculado a nenhuma gravadora. Até mesmo a divulgação de seu trabalho é independente. Um exemplo disso foi a divulgação de suas músicas no sul de Minas Gerais, quando contou com a amizade e o apoio da Rádio Universitária AM 1570 KHz. E é justamente no meio do público jovem e universitário, que Ventania mais faz sucesso.

Segundo o próprio cantor, ele é separado e tem dezoito filhos. Ventania também defende a bandeira da legalização da maconha, tanto em letras quanto pessoalmente, em entrevistas e shows. As letras de suas canções são inspiradas em temas bastante caros em relação ao movimento hippie, como, por exemplo, a liberdade, que lhe permite pôr o pé na estrada, sem rumo, transportando-se com os meios disponíveis. Além disso, o uso de drogas, em especial, maconha e cogumelos alucinógenos, a contemplação da natureza e a idéia de "Paz e Amor", fazem parte das inspirações do cantor.

Quanto ao aspecto musical, suas composições são extremamente simples, minimalistas, chegando, por exemplo, a tocar músicas com apenas dois acordes, como é o caso de O Diabo é Careta. As gravações do CD foram feitas usando apenas voz e violão, embora nas apresentações ao vivo a Banda Hippie, que o acompanha, acrescente baixo e percussão. Sua voz rouca e seu estilo despojado fazem lembrar Richie Havens, tocando no lendário festival de Woodstock. Um outro paralelo, em termos de idéias e inspirações, é com o cantor "do mundo", Manu Chao. As influências são variadas, mas destacam-se Raul Seixas. Em entrevista, Ventania disse: "Ele [Raul] cantava pro Al Capone. Mas eu canto pro PC".

por
Toni Caldas

Baixe aqui o disco "Só para Loucos"
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21 de dez de 2009

Telhas Intergalácticas


Teto que me cobre
Que me move
Que se move
Acima de ti há outro que recobre
Além do outro não vejo o que se cobre
Além do outro não sei o que se habita nem o que move
Nem o que morre
E fico aqui contando cosmos: pensando, pensando, queimando...
Minha mente! Quem a sente?
E assim vou perfumando toda a casa
Toda ela se enche de mistério e medo
Céu, qual é teu segredo?
Há vida em ti?
Há morte em ti?
O que há, enfim?

Toni Caldas

16 de dez de 2009

Noite na taberna


Distraio-me e vejo aquelas magnânimas curvas nas quais transo em mil visões em meio a uma madrugada fria de novembro. Uma boca onde as dimensões do real e imaginário se concretizam com um simples, largo e singelo sorriso. Você se aproxima de mim achando ser apenas mais uma. Com cabelos sedosos cheirando de frutas doces em um vermelho dégradé como chamas incesantes. Tigresa... porque insiste em amarrar este tolo com estes olhos inocentes e profundos nos quais morro afogado, cheio de prazer e graça ao som do mais elegante tango?

Enquanto segura minha mão direita e me diz as mil impressões sutis e puras que tem de mim, percebo o quão vil sou eu ao imaginar tamanhas vertigens fantásticas, impetuosas e acima de tudo, epicenas com seu corpo escultural. Qual seria a sua forma nua? Recuso-me a imaginar. Por mais que o descubra em pequenas cenas do seu corpo creio estar enganado pelas lentes sujas dos meus óculos e por minha mente sem escrúpulos. Sei que você é o que é, existe e posso tocá-la. Só não sei no fim de tudo se as visões que tenho cabem a mim ou a este par de vidros embaçados. E à noite, aquela última dose de uísque e os cigarros me abraçam e acalentam com braços fortes como os seus, me fazendo lembrar de não te esquecer, enquanto outra chega silenciosamente e me adormece com um leve sopro.

por
Toni Caldas

15 de dez de 2009

Boas doses de machismo, óculos escuros e reflexão


Dentre as tantas invenções que o ser humano foi capaz de arquitetar, os óculos foram sem dúvida uma das mais geniais. Quem imaginaria John Lennon sem seus pequenos e redondos óculos ao lado de Yoko? Quem consegue visualizar Marcelo Nova, Cazuza, Bob Dylan ou Audrey Hepburn sem seus wayfarer tão populares na contemporaneidade da moda? Quem imagina o Jô sem suas curiosas armações? E o espalhafatoso Elton John, com sua coleção de mais de 4000 pares de lentes envolvidas por aramezinhos que valem milhões? Ray Charles, então, nem se fala, não é mesmo? O fato é que dentre todos esses estilos e eficácias que a criação nos trouxe, nada foi mais válido que os óculos escuros.

Quem seriamos sem essas lentes opacas que nós permitem observar sutilmente o mundo sem sermos observados? Afinal, nossos olhares é que nos denunciam na imensa maioria dos casos. Olhar aquela deusa com um biquine de uma polegada e meia de bruços bronzeando seus dotes de destoar a postura do mais sofisticado e célebre homem, seria possível? Quem de vocês, leitores, homens ou mulheres, nunca usaram deles para esse fim? Isso quando não somente os usam nessa intensão! Não se envergonhem, é natural.

É algo inegavelmente fantástico, uma das maiores invenções do mundo moderno! Como disfarçar a ausência do colírio ao chegar em casa naqueles momentos? Como fingir estar acordado no fundo da sala enquanto o professor fala mil babozeiras que você já está careca de saber? Como olhar quando se está ao lado da “amada” e passa aquela exuberância lhe mirando de cima-em-baixo e você não nega uma nesga de riso no canto da boca? E encobrir os olhos rochos depois da briga, noite passada no boteco por conta do jogo de futebol? E Matrix? Seria o mesmo sem aqueles seres equipados, com suas lentes representado o futuro? Raul teria criado um de seus maiores hits, criticando acidamente a alienação sem a influência desses pares armados de vidro escuro? E tantas, e tantas outras inúmeras situações embaraçosas em que nos metemos...?

Sejam elas de “prástico” ou de alta tecnologia Transition, compradas ali na esquina ou na mais sofisticada loja, reluzentes ou opacas, grandes ou pequenas, pretas, brancas, azuis, amarelas, vermelhas, estilo "casco de tartaruga" ou tipo "bezourão"... Viva as foscas lentes que nos servem!

por
Toni Caldas

1 de dez de 2009

A memória da cidade

Em plena melhor idade, aos 89 anos, cabelos alvos, voz doce, paciente e gozando e uma memória invejável, ela recebe suas visitas com imensa satisfação. Essa é a santoamarence Zilda Costa Paim, educadora, folclorista, pintora, ex-vereadora de sua cidade natal e historiadora, contudo se considera contadora de histórias por não possuir um diploma acadêmico. Foi casada por sete anos e marcou a história da cidade com o primeiro desquite de Santo Amaro, em 1951. Contudo, criou 23 filhos adotivos com muita dedicação. Pergunto então se após o seu desquite houve alguma repercussão na cidade, e ela me diz: Repercussão? Teve revolução! Hoje uma pessoa divorciada é comum, mas naquele tempo não existia, não. Minha mãe naquela época era viva e minha irmã resolveu até mudar-se do estado pra não ver uma irmã desquitada, por que uma mulher desquitada era uma mulher “falada”.

PAIXÃO A PERDER DE VISTA

Seu gosto por história começou quando encontrou no baú do pai um livro raro que havia pertencido ao Barão de Vila Viçosa. "Desde esse dia, fui tomando gosto por papel velho e fiquei maluca por isso”. Aguçou então a sua curiosidade pela história de Santo Amaro da Purificação. "Sempre tive curiosidade sobre as coisas da minha terra. Passei a vida inteira ouvindo sobre a história de outros lugares e sentia ciúme disso. Então comecei a recolher informações somente por garbo meu". Ela passou então a anotar e catalogar, acontecimentos dos cotidianos santamarenses. Ao falar da tradição da cidade, ela afirma que acabou: “Agora tudo tem como finalidade o dinheiro, perdeu a graça das festas.”

SEMEANDO O SABER

Tornou-se professora, profissão que exerceu por mais de cinqüenta anos. Já no início de sua carreira, convidava praticantes de maculelê e capoeira para apresentarem-se em suas salas de aula e ensinarem seus alunos, havendo sido avant-garde nesse sentido. Por essas aulas de folclore foi criticada, tendo de cancelá-las. Apesar do conservadorismo que enfrentou, foi diretora acadêmica por dezoite anos. Foi nesse cargo, para um desfile escolar, que realizou sua primeira pintura. Um quadro com a Prefeitura e a Igreja Matriz de Santo Amaro, hoje em exposição em Nova Iorque. Desde então, pintou mais de duzentas telas. “Eu sempre fui rebelde, vamos dizer assim. Eu não estudei história, não cursei faculdade de artes e entendi que devia fazer tudo ao meu molde, da minha maneira, e não tive estilo, desde criança foi assim”, conta.

Também não freqüentou a faculdade de história. Foi autodidata. O primeiro de seus seis livros foi sobre o maculelê, dança da qual é especialista de renome internacional. “Relicário Popular” foi editado com seus próprios fundos. Seu segundo livro, “Isto é Santo Amaro”, trata da história do município desde que passou a ser habitado pelo homem-branco, em meados do século XVI. Narra, também, episódios como a Independência da Bahia e o envolvimento dos santamarenses na Guerra do Paraguai.

VIRTUDES MARCANTES

Tem um invejável acervo sobre a história de Santo Amaro com documentos dos séculos XIX e XX, com um acervo de mais de mil fotografias e uma coleção de relatórios da prefeitura desde o ano de 1893. Ela conta que foi presenteada pela Enciclopédia Municipalista com um busto esculpido em bronze, com uma placa sendo homenageada por um quadro, vinda da França e um memorial na cidade foi batizado em sua homenagem.


Zilda foi a primeira mulher a ser vereadora na cidade de Santo Amaro da Purificação, reeleita por três vezes. Também foi presidente da Câmara entre 1980 e 1982, e diz que a maior lição que tirou da vida política foi a decepção e a supervalorização dos Veloso. Dona Zilda é uma espécie de museu vivo. Seu acervo recebe visitas diárias de curiosos sobre a história santamarense, a quem transmite seu conhecimento.

Quando se fala na vida, Zilda emocionada diz que olhando toda sua trajetória uma pergunta ficou: “Fui eu que fiz minha vida ou fez-me a vida o que sou?” Ao fim da verdadeira aula de história e resistência, no momento mais comovente da conversa ela diz: “Já pedi até esmola pra tentar montar uma sala com os meus arquivos, tenho mais de quatro mil fotos, registros da época da escravidão e até um passaporte de escrava. Atualmente, luto para ter meu acervo em um museu dedicado à história da cidade.”

por
Toni Caldas