1 de dez de 2009

A memória da cidade

Em plena melhor idade, aos 89 anos, cabelos alvos, voz doce, paciente e gozando e uma memória invejável, ela recebe suas visitas com imensa satisfação. Essa é a santoamarence Zilda Costa Paim, educadora, folclorista, pintora, ex-vereadora de sua cidade natal e historiadora, contudo se considera contadora de histórias por não possuir um diploma acadêmico. Foi casada por sete anos e marcou a história da cidade com o primeiro desquite de Santo Amaro, em 1951. Contudo, criou 23 filhos adotivos com muita dedicação. Pergunto então se após o seu desquite houve alguma repercussão na cidade, e ela me diz: Repercussão? Teve revolução! Hoje uma pessoa divorciada é comum, mas naquele tempo não existia, não. Minha mãe naquela época era viva e minha irmã resolveu até mudar-se do estado pra não ver uma irmã desquitada, por que uma mulher desquitada era uma mulher “falada”.

PAIXÃO A PERDER DE VISTA

Seu gosto por história começou quando encontrou no baú do pai um livro raro que havia pertencido ao Barão de Vila Viçosa. "Desde esse dia, fui tomando gosto por papel velho e fiquei maluca por isso”. Aguçou então a sua curiosidade pela história de Santo Amaro da Purificação. "Sempre tive curiosidade sobre as coisas da minha terra. Passei a vida inteira ouvindo sobre a história de outros lugares e sentia ciúme disso. Então comecei a recolher informações somente por garbo meu". Ela passou então a anotar e catalogar, acontecimentos dos cotidianos santamarenses. Ao falar da tradição da cidade, ela afirma que acabou: “Agora tudo tem como finalidade o dinheiro, perdeu a graça das festas.”

SEMEANDO O SABER

Tornou-se professora, profissão que exerceu por mais de cinqüenta anos. Já no início de sua carreira, convidava praticantes de maculelê e capoeira para apresentarem-se em suas salas de aula e ensinarem seus alunos, havendo sido avant-garde nesse sentido. Por essas aulas de folclore foi criticada, tendo de cancelá-las. Apesar do conservadorismo que enfrentou, foi diretora acadêmica por dezoite anos. Foi nesse cargo, para um desfile escolar, que realizou sua primeira pintura. Um quadro com a Prefeitura e a Igreja Matriz de Santo Amaro, hoje em exposição em Nova Iorque. Desde então, pintou mais de duzentas telas. “Eu sempre fui rebelde, vamos dizer assim. Eu não estudei história, não cursei faculdade de artes e entendi que devia fazer tudo ao meu molde, da minha maneira, e não tive estilo, desde criança foi assim”, conta.

Também não freqüentou a faculdade de história. Foi autodidata. O primeiro de seus seis livros foi sobre o maculelê, dança da qual é especialista de renome internacional. “Relicário Popular” foi editado com seus próprios fundos. Seu segundo livro, “Isto é Santo Amaro”, trata da história do município desde que passou a ser habitado pelo homem-branco, em meados do século XVI. Narra, também, episódios como a Independência da Bahia e o envolvimento dos santamarenses na Guerra do Paraguai.

VIRTUDES MARCANTES

Tem um invejável acervo sobre a história de Santo Amaro com documentos dos séculos XIX e XX, com um acervo de mais de mil fotografias e uma coleção de relatórios da prefeitura desde o ano de 1893. Ela conta que foi presenteada pela Enciclopédia Municipalista com um busto esculpido em bronze, com uma placa sendo homenageada por um quadro, vinda da França e um memorial na cidade foi batizado em sua homenagem.


Zilda foi a primeira mulher a ser vereadora na cidade de Santo Amaro da Purificação, reeleita por três vezes. Também foi presidente da Câmara entre 1980 e 1982, e diz que a maior lição que tirou da vida política foi a decepção e a supervalorização dos Veloso. Dona Zilda é uma espécie de museu vivo. Seu acervo recebe visitas diárias de curiosos sobre a história santamarense, a quem transmite seu conhecimento.

Quando se fala na vida, Zilda emocionada diz que olhando toda sua trajetória uma pergunta ficou: “Fui eu que fiz minha vida ou fez-me a vida o que sou?” Ao fim da verdadeira aula de história e resistência, no momento mais comovente da conversa ela diz: “Já pedi até esmola pra tentar montar uma sala com os meus arquivos, tenho mais de quatro mil fotos, registros da época da escravidão e até um passaporte de escrava. Atualmente, luto para ter meu acervo em um museu dedicado à história da cidade.”

por
Toni Caldas

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