27 de fev de 2010

Mar Grande


Anoiteceu, João!

A noite, Seu João
é fria, é noite...

Nela, a labuta, lá bruta
continua...

Monalisa Melo

25 de fev de 2010

Crônica da boa noite: um poema antes de dormir

Não guardo livros no quarto de dormir. Dois motivos principais norteiam essa minha implicância: primeiro o bolor que o papel conserva me transmite incômodos à respiração, que como em todo alérgico, entope o nariz, causa espirros, dificulta o sono; o segundo motivo é menos biológico e bem mais filosófico, ao dormir na companhia de teoria, teses, epistemes, métodos e filosofias, a mente não descansa, o músculo cerebral não relaxa, o corpo não se acomoda: não adormeço. Entretanto, felizmente há uma cômoda e elegante exceção, apenas consigo dormir tranquilamente quando leio antes de deitar, pelo menos um poema. Essas letras, contrariando aquelas, acompanham minha noite com sonhos, rimas, reflexões, amores e boniteza.

Os filósofos e suas questões, não que me desagradem, ao contrário, os admiro com respeito, rigor e transpiração, mas lê-los ao dormir atiça minha parca concentração, dificultando a entrada no estado de sono, aquele que você sente se distanciando de si e ao mesmo tempo entrando no próprio corpo. Já os poetas e suas criaturas deixam-me em elegia e contemplação, de tal modo que o sono passa a não importar mais, porém ao mesmo tempo em que a alegria invade o espírito e mesmo que a poesia proponha uma reflexão, sua forma por se confundir com seu conteúdo basta-me para proporcionar a tranqüilidade da quietude necessária ao sono.

Ler um poema é uma questão de extrema necessidade antes de deitar para dormir. Palavras sim, sei, não mais que apenas palavras, mas em forma de poesia; elas, somente elas, desnudam musas, filmam lugares jamais habitados, beijam bocas distantes, fazem os cílios tocarem bicos de seios como se fossem mamadeiras, enverdessem a seca, cavalgam entre anjos negros com azas de anil, carregam para si o agigantamento dos pequenos, enriquecem os pobres, desprezam os poderosos... “Estou quase a sonhar que durmo, preciso acordar para ver se te esqueço”.

Às vezes ao acordar durante a noite para urinar, beber água, ou apreciar o sono de meus filhos, ando pelo quarto cuidadosamente, mas acabo tropeçando nas flores que me traz Florbela Espanca, caio inevitavelmente nos braços brancos e içados à frente de Carlos Drummond de Andrade, viro para o outro lado e lá está Augusto, que tem anjos até no nome; levanto-me com o apoio da pessoa de Fernando a declarar seu grande amor a quem está de seu lado esquerdo: Walt Whitman, ao lado direito do português, Borges diz a Neruda que não o ama com a mesma precisão, mas repete que viver não é preciso; mais à frente, próximo à porta do banheiro, Arthur Rimbaud dança como se fosse um saltimbanco, procurando agradar Leminsk e provocar Rilke, Cecília Meireles dá motivos de sobra para acabar com a pendenga e me obriga a virar para o outro lado, onde encontro Victor Hugo sentado no colo de Adélia Prado, ela fala das árvores do mundo, mas é o ouvinte desse diálogo que me fixa a visão: Vinicius de Moraes que ao perceber meu olhar, canta às mulheres procurando acalmá-las pelo sumiço eterno de Zé da Luz, anunciado por Chico Pedroza; Machado de Assis que me parece ser afeiçoado a uma boa prosa, para meu espanto, aparece e solicita que eu diga a Djavan que antes de seu coração ser uma ilha a centenas de milhas daqui, os olhos de Capitu já adquiriam importância maior que as estrelas por estarem ao alcance das mãos; Brecht alerta que o quarto já não é tão escuro, enquanto Torquato afirma, “pra mim chega”; contudo, quando o bem-te-vi que mora no coqueiro, avisa que o dia chegou, é Patativa quem me acalma com sua voz de passarinho; insisto em permanecer na festa, mas o toque mecânico de algum aparelho eletrônico determina que não é a filosofia e nem a poesia e sim o dia que chegou e, portanto, preciso levantar sem poetas ou filósofos para encarar o cotidiano, não o de Chico Buarque: o meu.

por
Deribaldo Santos - escritor e colaborador da revista Corsário

18 de fev de 2010

O filho da mãe

Do mesmo criador do Projeto Figuraça - difundido anteriormente na série "Caça aos Dantescos" - O filho da mãe conta a trama de uma mulher que se encontra algemada na monotonia dos dias decide tomar uma atitude que acaba prejudicando si mesma. O curta lançado em 2003 foi selecionado para o 9º Festival Brasileiro de Cinema Universitário. O trabalho é uma produção independente realizada pela Cavalo do Cão Filmes, que tem à frente o video-artísta baiano Daniel Lisboa.


Ficha técnica:

Direção, Roteiro, Fotografia e Edição: Daniel Lisboa; Elenco: Cibele Lisboa, Henrique Costa, Gardel Filho, Rogério da Gloria, Bruno, Diego Lisboa e Eduardo Oliveira; Trilha Sonora: Gilberto Monte

17 de fev de 2010

Fixação

Cada pulsar é único. Um bater do seu coração jamais poderá ser capturado por mim. Não há recipientes nem mesmo dimensões que possam medi-lo. Enquanto aguardo outro movimento do sangue que corre em seu corpo, folhas caem, estações transmutam, a poeira se torna acúmulo sobre os antigos móveis e livros amarelados, insetos infestam minha casa. O tempo indiscreto me força a permanecer estagnado sob um jardim suspenso de flores murchas. Fecho os olhos, mas através das pálpebras lisas a luz penetra tentando me fazer lembrar que o tempo é vagaroso. A chuva, as vozes, o ar rarefeito e tudo mais compilam em um concerto. Pássaros voam em círculos. Agora pararam no ar, posso ver suas sombras no chão e só por isso já sei que são negros e que amam a noite híbrida e escura como eles, livres seres a bailar. Sinais, antenas e ondas se misturam à orquestra estridente e me provocam com seus ecos de luz enquanto meus pêlos congelam diante do rígido frio de uma nevasca. Agora é verão, o gelo derreteu, o calor é insuportável e meu corpo imóvel. Mas não vou abrir os olhos enquanto o próximo pulsar não acontecer...

por
Toni Caldas

Photogênios - II

























por
Dirceu Matos - fotógrafo e colaborador da revista Corsário.

11 de fev de 2010

“Oba-oba” sem razão...

Celebremos! "Estamos em tempo de comemoração!”. O muro de Berlim foi abaixo e o mundo inteiro festejou. “Vinte anos sem aquela terrível barreira! Mais uma vitória da humanidade sobre as injustiças!”. Ânimos acalmados? Ok, vejamos agora um pequeno detalhe em toda essa festança: Ao que tudo indica, as pessoas se esqueceram, se omitiram conscientemente ou nem mesmo sabem de uma coisa, uma grande e extensa coisa, por assim dizer: a existência do não menos brutal “muro americano”.

Por que será que todo mundo – literalmente – fica indiferente a esse vergonhoso muro? Não sabia da existência dele? Pois bem, depois da divisão das duas Coréias, do muro alemão e do betão na Palestina, chegou a vez dos Estados Unidos da América aprovar no senado a construção de um muro ao longo da sua fronteira com o México, para assim poder deter a imigração ilegal – informação idosa, mas válida, pois este ato teve resolução e aprovação no ano de 2006. Mais um excelente exemplo de como a “américa” – e com “a” minúsculo – olha para nós Americanos – esses sim merecem um maiúsculo. ("Perdoe-me, ó sacra Gramática!")

De qualquer ponto em que se esteja em Tijuana se vê o paredão metálico de cinco metros de altura. O mesmo acontece em Mexicali, Sonoita, Nogales, Agua Prieta, Ciudad Juarez, Ojimaga, Ciudad Acuña, Piedras Negras, Nuevo Laredo, Reynosa e Matamortos. Ao todo são mais de três mil quilômetros de chapas de ferro e cimento, postes com luzes, câmeras e sensores eletrônicos. Do outro lado, o mundo livre.

Segundo um estudo da Universidade de Houston, entre 94 e 98 pelo menos 1200 imigrantes morreram na tentativa de cruzar a fronteira e despistar a maldita “migra”. Muito menor, por exemplo, foi o número de pessoas mortas tentando atravessar o não menos monstruoso muro de Berlim - pouco mais de 800 em cerca – e com muita “cerca” – de 30 anos. E você, o que acha? Continua tão contente pela queda do muro germânico? Busque então saber o que os alemães do lado socialista acham disso e como eles vivem atualmente. Adianto que igualdade por lá também continua sendo um belo e distante conto-de-fadas.

por
Toni Caldas
( Devido a falhas no sistema, posto novamente este texto - originalmente postado em novembro/09 - no intúito de abrir espaço para um debate ainda presente no cenário mundial)

9 de fev de 2010

Cotas: questão estrutural ou conjuntural?


Discussões dento de campos de visão unilaterais sobre as chamadas Políticas de Ação Afirmativa são travadas todos os dias por membros da sociedade brasileira. Existem diversos questionamentos, entre eles os que mais se destacam são: o ferimento do direito constitucional da igualdade - que diz que todos são iguais perante a lei, a subordinação de negros e índios a uma política que reafirma a sua suposta inferioridade e o confronto de afirmações entre os que dizem que as cotas são medidas fixas e os que exigem que elas sejam temporáreas - tendo assim um praso para que se encerrem, certamente visualizando o avanço na educação, em um perído de médio/longo praso, promovendo assim a maior igualdade, de fato.

O que me faz usar o termo "unilaterais" no começo desse texto é o fato de uma grande maioria não observar que enquanto as cotas se estabelecem cada vez mais, a educação pública de base no Brasil vai de mal a pior. Índices revelam uma queda nas taxas de analfabetismo e um relativo aumento no número de crianças nas escolas. Mas o que é ensinado a esses jovens? Será mesmo que a educação que é destinada a estes forma efetivamente cidadãos capazes de formular idéias e opniões além das que lhe são impostas ou estamos diante - e porque não dentro - de um celeiro de analfabetos funcionais que continuam enxugando gelo?

Esse olhar "multilateral" é o que me faz refletir que necessitamos de "vacinas" contra a pandemia que assola a educação básica no Brasil, e não apenas "curativos". As políticas afirmativas devem - ou pelo menos deveriam - caminhar lado a lado com o avanço na educação pública. Não sou contra as cotas sociais - contudo, não apoio de modo algum as raciais - mas creio que a medida, do modo que está sendo tomada, progride em um sentido que se desliga completamente da essência da idéia de igualdade promovida por essa iniciativa. Para não nos limitarmos as minhas opiniões, resolvi postar uma nota bastante interessante que li esta semana escrita por um especialista baiano respeitado no assunto, com quem concordo plenamente.

por
Toni Caldas

8 de fev de 2010

"Abre o jogo, Malu!"

Ela foi repórter do caderno de política do Jornal da Bahia e do A Tarde, assessora de imprensa da Rede Sarah de Hospitais em Salvador e da Reitoria da UFBA, professora das faculdades Jorge Amado, FTC e FIB. É ainda comentarista freelancer de cultura noticiosa da Rádio Metrópole e colunista freelancer do A Tarde, pesquisadora associada em direitos humanos e gênero do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero/Anis, sediada em Brasília, e aos 45 anos, mãe de dois filhos é consagrada como uma das maiores jornalistas da Bahia. Estamos falando de Malu Fontes. A genial, inquieta e polêmica comunicadora diz: "Sou jornalista por escolha". Isso porque abandonou o curso de medicina para se dedicar a sua paixão pelo jornalismo. Hoje ela é graduada em jornalismo, mestre e doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Facom-UFBA e atual professora adjunta da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia - a mesma onde trilhou sua carreira acadêmica. Em entrevista exclusiva, Malu fala sobre suas preferências nas artes, religiosidade, o ensino de jornalismo em Salvador e a polêmica quanto ao diploma dos desses profissionais, o webjornalismo feito atualmente e as expectativas para o futuro dessa vertente, sua visão sobre o conteúdo crítico feito sobre arte em Salvador, o que há de melhor e pior na televisão atual, escândalos da política nacional e, claro, a indiferença do Carnaval de Salvador.

Quero começar a entrevista com uma análise sua sobre o ensino de jornalismo em Salvador. Suas deficiências, seus triunfos, seus vícios, o que pode ser melhorado, etc.

Em virtude da explosão das redes de ensino privado em todo o país nos últimos anos, vários cursos de jornalismo foram abertos e é fato que não havia professores de excelência em número suficiente para dar conta dessa demanda de professores que surgiu. Do mesmo modo, muitos dos alunos que acorreram para esses cursos não o fizeram movidos exatamente pelo talento, pelo interesse em ser jornalista, sob o ponto de vista do desejo de traduzir o mundo, de transformar fatos em notícia. Muitos o fizeram movidos pelo glamour que o cinema, os meios de comunicação, a literatura, de certo modo sempre associaram ao jornalismo e aos jornalistas. Os profissionais de imprensa da televisão, apresentadores famosos, jornalistas que vivem na fronteira entre a carreira e aparições como celebridades, como ocorre com Ana Paula Padrão, o casal Fátima Bernardes e William Bonner, Glória Maria, entre outros… Muita gente escolheu e escolhe fazer jornalismo pensando em se tornar famoso, celebridade, em ser apresentador de TV, viver em festas de gente famosa, quando, na realidade, sobretudo no Nordeste, em Salvador mais ainda, a realidade dos profissionais de imprensa, com raras exceções, não tem nada de glamour. O mercado é exíguo, os salários são péssimos. Depois do boom de cursos, o que se vê hoje é a maioria deles em processo de decadência, com muitas faculdades há vários semestres não recebendo o número mínimo de alunos para uma turma sequer. É difícil apontar os vícios e virtudes de instituições que a gente conhece só de nome, mas acho que a principal dificuldade é o número insuficiente de professores de fato competentes e bem formados para dar conta do número imenso de cursos que foram abertos. Tudo sempre pode ser melhorado, mas agora que o Supremo decretou o fim da obrigatoriedade do diploma, qual faculdade particular vai se dispor a investir ainda mais para tornar seus cursos, já esvaziados antes mesmo dessa mudança, mais qualificados? O que deve acontecer é que apenas pouquíssimos cursos, além do da UFBA, devem sobreviver. Ficarão os melhores, mais estruturados e esses não mais terão turmas grandes.

E, por falar no ensino de Jornalismo, não posso deixar de citar a decisão do Supremo Tribunal Federal, que no dia 17 de junho deste ano, derrubou a exigência do diploma. Você acha que o canudo é fundamental ou é apenas um resquício da ditadura militar? O que pensa da afirmação do ministro Carlos Ayres Britto, que disse que bastam “olho clínico” e “intimidade com a palavra” para ser um jornalista? Que importância tem a formação acadêmica?

Uma coisa é o papel burocrático do diploma, ao qual sou favorável, mas sempre admiti flexibilidade, sem fundamentalismos, como é a tese daqueles que queriam impedir que até mesmo um fotógrafo que não tivesse diploma trabalhasse em redações, que profissionais de outras áreas não pudessem ser articulistas, colunistas, comentaristas. Outra coisa é a importância da formação, do investimento intelectual em uma carreira construída a partir de uma grade curricular específica de uma graduação. Não se deve confundir o diploma com talento e garantia de boa formação. Mas a boa formação e a construção da carreira numa faculdade eu considero fundamental para um jornalista que vai atuar nos veículos de imprensa, fazer a cobertura da vida da cidade, do país. A formação acadêmica é essencial, pois produzir informação é uma atividade específica. Sempre digo aos meus alunos que a vida não produz notícias, produz fatos, fenômenos, acontecimentos e que transformá-los em notícia exige uma técnica específica, um talento para a construção de uma narrativa que não é literária nem linear, descritiva. O discurso jornalístico não é uma mera descrição do mundo, é um modo específico de narrar os fatos. Nesse aspecto, considero as pessoas que passam por um curso de jornalismo as mais habilitadas para produzir informação. Canudo, para mim, é um papel, apenas. A questão mais importante não é o canudo, mas o simbolismo que ele pode conter. Digo pode porque há quem saia de um curso de jornalismo com um canudo na mão, mas é completamente desprovido de capacidade de narrar bem o mundo. Costumo dizer que há gente que passa pela faculdade, mas não consegue fazer com que a faculdade passe por si.

Quem faz o melhor webjornalismo no Brasil? Gostaria que você citasse quem, na sua visão, produz bom webjornalismo. Aqui em Salvador, no geral, ainda somos vítimas da mera transposição do papel para os bits ou há alguma menção honrosa? Ainda restarão jornais e revistas táteis? Como deve ser um bom jornalismo on-line?

Acho que os bons profissionais da TV, do impresso, de jornais e revistas ou vindos desse universo, são os melhores da web. Se você me perguntar quem eu admiro, jornalista, que despontou diretamente na web, que não veio de outros suportes, não sei, não conheço nenhum. Leio com prazer na web as mesmas pessoas que já respeitava antes. É difícil citar nomes, sob pena de ser injusta. Adoro Bob Fernandes, Ricardo Noblat e muitos jornalistas do impresso, como os da Folha, do Globo, que mantêm blogs.

Barack Obama tem Facebook e você tem Twitter. Para quem pode desfrutar da Internet, ela abre muitos caminhos para informações que antes estavam pouco acessíveis. Um oceano de cultura a poucos cliques. Quero uma análise sobre esse fenômeno e um exercício de futurologia: o que ainda podemos esperar da Internet?

Impossível apontar expectativas para a Internet, pois é da natureza do fenômeno não ter limites. Os jovens viciados em tecnologia a cada dia surpreendem com fenômenos que se tornam avalanches no mundo. Literalmente há tudo a esperar da Internet e dos usos que se fará dela. Certamente nossos modos de sociabilidade vão ser cada vez mais radicalmente alterados, e não digo isso com nenhuma melancolia. Não tenho nenhuma resistência a mudanças, acho que tenho um nível praticamente ilimitado de adaptação ao que é novo e tenho alergia de conservadorismo, estagnação. A Internet faz parte da minha vida tanto como almoçar, ter amigos, dormir, ler jornal, livros, revistas. Não vivo sem e não me considero uma dependente tecnológica. Apenas gosto muito de informação e das possibilidades que encontro na Internet. Paradoxalmente, tenho desprezo pelas pessoas que parecem viver em função dela. Conheço pessoas que não têm vida social, redes de relacionamento afetivo reais e vivem brincando de serem felizes e descoladas na Internet, com nenhum equilíbrio emocional, do ponto de vista afetivo, sem uma rede de apoio formada por gente de carne e osso que possa ser encontrada pra um café, um cinema. Há pessoas que parecem viver como se o Orkut, o Facebook, o Twitter fossem uma dimensão da vida, e a mais importante. É como se dá também com muita gente em relação à televisão. Gosto de quem vê a vida na TV, mas acho doentio quem vê a vida pela TV.

Como este blog trata basicamente de assuntos ligados às artes, quero saber: existe bom jornalismo cultural em nossa terra? Qual sua visão sobre o conteúdo crítico feito sobre arte em Salvador?

Como pode haver bom jornalismo cultural se vivemos numa cidade, hoje, com uma monocultura, um axé/pagode de uma nota só, com um dos piores sistemas educacionais do país? Sem um leitor com alguma formação cultural, sem a formação de público, de platéia, quem faz jornalismo cultural em profundidade vai falar para meia dúzia de pessoas. O que predomina no cenário cultural de Salvador é a cultura do apelo sexual, a musicalidade que remete aos instintos mais primitivos, com todo um conjunto de artistas que fazem diferente sendo condenado praticamente a guetos, a públicos reduzidos. Aqui se vive uma cultura cotidiana do carnaval. O nosso cenário cultural é o pior possível. O que predomina é uma cobertura cultural ligeira, realiseira, oca, descartável, de consumo imediato.

Ainda na seara das artes, o que você consome? Quais suas preferências nas artes plásticas, na música, na literatura e no cinema? Qual o significado da arte, caso haja, para você?

Sou eclética, gosto de muita coisa e costumo dizer que meu gosto é meio vira-lata, meio verso do Kid Abelha: "eu tenho pressa, tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim". Minhas listas são infindáveis. Tenho um pouco de preguiça com grande parte do que se produz hoje em nome das artes plásticas contemporâneas. Essa coisa pós-moderna de dizer que tudo é arte pode ser muito bacana sob o ponto de vista multiculturalista e antropológico. Do ponto de vista artístico, é uma desgraça! Sou metida a besta em meus sonhos de consumo artísticos. Daria um rim para ter em casa qualquer coisa de Fernando Botero. Em Salvador, adoro Bel Borba, as esculturas de Tati Moreno, as gordinhas de Eliana Kérstesz e as cores de Maria Adair. E, óbvio, acho um deslumbre o traço de Carybé, as fotografias de Mário Cravo Jr. Em cinema, tenho náuseas do cinemão hollywoodiano mainstream, ágil demais e tão barulhento que não se deixa ver. Sou fascinada por Almodóvar, Tarantino, Lars Von Trier, Gus Van Sant, Iñárritu, além dos classicões, como Bergman, Fellini, Visconti, Scolla, entre outros. Gosto muito do cinema asiático e de filmes de arte de um modo quase geral. Gosto muito de documentários nacionais e do novo cinema argentino. Na literatura, de muita coisa. Bernardo Carvalho, Daniel Galera, Milton Hatoum, Pedro Juan Gutierrez, Guilermo Arriaga, Rubem Fonseca, Inês Pedrosa, Antônio Lobo Antunes, Saramago, Eduardo Agualusa, Efraim Medina Reiz, Mia Couto, Rosa Montero e de mais uma arca de Noé de gente. Hors concours são Clarice Lispector, Virgínia Woolf e Jorge Luis Borges. Música? Outra arca de Noé. Costumo brincar que não moro numa casa, mas num depósito de CDs, DVDs, revistas e livros, pois minha casa é pequenininha e não tarda faltará lugar para mim, ocupado por objetos de desejo cultural. Hoje, agora, os primeiros que me vêm à cabeça são Maria Gadú, John Mayer, Moby, Nouvelle Vague, Vanessa da Mata, Trash Pour 4, Fernanda Takai, Lenine, Jorge Drexler. Odeio axé, samba, pagode, sertanejo, arrocha e companhia. Dos novíssimos baianos, gosto apenas e imensamente de Daniela [Mercury] e Carlinhos Brown. E para a trilha sonora da vida, Caetano. Não concebo a vida sem música e informação. Arte? Para mim, é tudo aquilo que alguém faz, mostra e diz que emociona, desperta pulsões e fala por muitos.

A televisão é um aparelho eletrônico desprezado por muitos pseudo-intelectuais, que a julgam como um brinquedo das massas. Claro que há muita bobagem sendo transmitida, mas há muita coisa boa também. Sou um amante da televisão e fico ao lado de Arlindo Machado. E você, o que acha desse meio? Vivemos o Império do Grotesco, como disse Muniz Sodré? O que tem de pior e de melhor na nossa televisão?

Adoro televisão. E quando digo televisão não digo o conteúdo da televisão, mas o veículo em si como elemento de ressonância, formação ou deformação de gostos. Sou movida pela curiosidade e acho a televisão brasileira, para o bem o para o mal, uma espécie de aleph da sociedade. Há coisas abomináveis, mediocridade a dar com o pau, coisas deliciosas de ver, enfim, tudo o que se tem na realidade do país. Acho, sim, que o país tem a televisão que merece e, para mim, a TV é uma janela privilegiada, entre muitas outras, claro, para se observar a realidade brasileira. Acho de um pedantismo que dá dó esse povo que empina o nariz, fede a bolor e arrota que não vê TV. Não ver TV não deixa ninguém mais inteligente. Do mesmo modo que quem a vê não é sinônimo automático de alienado ou aculturado. Há quem pense que vejo TV por obrigação, porque escrevo sobre. Ao contrário, escrevo sobre porque vejo. Não sou crítica de TV, não vivo de escrever sobre TV. Minha profissão é professora de jornalistas. Escrevo sobre TV porque tenho prazer em vê-la e mais ainda em tentar descrever alguns dos seus conteúdos, sobretudo os mais nonsense. E que fique claro, conteúdos muitas vezes produzidos pelo mundo das ruas e não nos estúdios. Vejo TV com o mesmo interesse com o qual leio revistas, livros, ouço música ou vejo filmes. Sou um ser do meu tempo, me relaciono criticamente com tudo o que consumo e não gosto de nada incondicionalmente nem tampouco acriticamente. Gostar incondicionalmente, só da Mafalda, a personagem dos quadrinhos.

Política nacional: Você acha que o Congresso Nacional ainda pode ser chamado de “A Casa do Povo”? Depois de tantos episódios lamentáveis, podemos confiar nesses homens? O Presidencialismo ainda serve para o Brasil? Não seria a hora de tentarmos o Parlamentarismo, por exemplo?

Acho a cena política brasileira deplorável, mas ao contrário do que diz o senso comum, acho que essa cachorrada toda representa, sim, a média do comportamento hipócrita do brasileiro. O brasileiro médio é corrupto e corruptor, quer se dar bem sem esforço e escolhe gente muito parecida com ele. Ninguém surge no Congresso de geração espontânea. O Brasil inteiro manda para Brasília, para as Assembléias Legislativas, para as Câmaras de Vereadores, um monte de representantes culturalmente estúpidos, descomprometidos e que, nas eleições, dizem meia dúzia de frases feitas que a claque adora ouvir. O problema da representação política não é o sistema de governo, é o caráter do povo, das classes dominantes e de seus representantes. Não acredito nessa tese do povo bom e honesto que elege, enganado, monstros corruptos. Povo e representantes são farinha do mesmo saco de falta de caráter, educação, formação.

O que é o Carnaval de Salvador? É uma vitrine para as celebridades? É a mais fabulosa festa de rua do mundo? O Carnaval é do povo mesmo ou dos camarotes? Camille Paglia esteve aqui e adorou. Para ela, Madonna já era, só dá Daniela Mercury.

É uma festa popular onde o povo é mero coadjuvante para dar consistência ao mercado do axé, movido por engrenagens poderosas e muito bem azeitadas por interesses políticos privados em consonância com os poderosos políticos de plantão. A visão do estrangeiro não pode ser lida fora do contexto do estranho que desembarca no cenário exótico. Quanto a Daniela, para além e aquém de Camille, acho-a uma artista extraordinária entre tantos medíocres.

Por fim, quero saber sua relação com Deus. Ele existe, não existe ou tanto faz? Se existe, que imagem tem dele? Deus é o mais fantástico mito produzido pelo homem?

Deus é uma invenção humana, para lidar com o medo da morte. Quando o assunto é Deus, meu oráculo é Nietzsche. Mas percebo cada vez mais que minha sinceridade sobre a religião é insultante diante da média das pessoas. Em respeito à sensibilidade muitas vezes hipócrita dos religiosos, e por preguiça de lidar com isso, nunca discuto religião. Acho idiotizante o modo como as pessoas lidam com a existência de Deus e me espanta o quanto dizem coisas que estão há anos-luz do que praticam. Odeio essa idéia nefasta e maniqueísta de pecado/perdão divino, do erro e do acerto.

por
Toni Caldas
(Agradeço ao jornalista Sandro Caldas - graduado pelo Centro Universitário FIB - que sedeu a oportunidade ao Sinal Verde de divulgar esta entrevista. Sandro é músico, tendo gravado um disco com 5 canções em 1998, trabalha atualmente na Rádio Metrópole - mesma onde Malu Fontes é comentarista - fazendo parte da equipe do site www.radiometropole.com.br. As letras, poemas e músicas de Sandro Caldas podem ser acessadas no endereço recantodasletras.uol.com.br/autores/sandrocaldas).

Caça aos Dantescos - V

Pelas quase inexploradas matas tropicais da orla marítima, em meio às colinas onde habitam as últimas raposas de Salvador, encontramos o homem que ninguém viu! O Sinal Verde através do Projeto Figuraça tem a glória de apresentar: Naco Salles - O Telepata. Dotado de uma inteligência suprema, capaz de enxergar com os olhos alheios e de captar as mais distantes frequências de rádio, o Telepata nos presenteou com algumas horas de sua associação. Não deixe de ver esse maravilhoso diálogo com o letrante mútuo, auster do mundo, lastidante! Curioso, não?







Curtiu? Bem... Finalizamos assim a nossa série Figuraça, no Sinal Verde.
Ainda assim, não deixem de acompanhar, comentar e, acima de tudo, divulgar nosso projeto.

7 de fev de 2010

O afogamento do preconceito

Nesse dia de Iemanjá, um notícia triste e preconceituosa foi transtimita através do Terra TV Conta-se o caso de um rapaz que participou um dia antes de um trabalho espiritual com o Santo Daime e morreu afogado, dando a entender que isso aconteceu porque ele participou do ritual de doutrina amazônica que usa o chá ayahuasca. Contudo, eles não contam que o álcool é muito mais perigoso e .considerado o fator mais importante na causa de afogamento secundário (causado por patologia ou incidente associado que o precipita)". Em outro link encontrei: Afogamentos matam tanto quanto câncer”.

Toda essa discussão na mídia, no entanto, vem à tona mais uma vez para boicotar a nova resolução da Conad (Conselho Nacional Anti Drogas) que legitima estudo de pesquisadores que deu parecer favorável em 2006 ao uso ritual da ayahuasca no Brasil. A Revista Veja desta semana foi mais direta - ou seria “direita”? - e, mais uma vez, ridiculariza o Santo Daime, com seu preconceito nojento e gratuito. Vejam a nota publicada na página 41:

“LIBERADO oficialmente pelo governo brasileiro o consumo do santo daime, o chá lisérgico que faz a cabeça do pessoal da nova era com a promessa de abrir a seus seguidores as portas do autoconhecimento. O daime causa alucinações pesadíssimas, provocadas pela dimetiltriptamina, substância presente no cipó da ayauasca, planta que serve de base ao daime e é venerada por seus entuasiastas. O governo diz que autorizou o pessoal a ficar viajandão para respeitar a liberdade religiosa. Cabe a pergunta: se alguém criasse uma religião batizada, digamos, Santo Pirlimpimpim, baseada em aspirações mágicas da cocaína, o Planalto também oficializaria o consumo?”

Penso que a liberdade de culto e religião é um direito humano, protegida pela constituição federal. Por isso, sugiro que todos enviem cartas de indignação para a coluna “Leitor” da revista, acrescentando o nome, endereço, RG e telefone: veja@abril.com.br. (Mais informações: Resolução N. 1 – CONAD – 25 de Janeiro de 2010 e Relatório Final do Grupo Multidisciplinar de Trabalho (GMT) Ayahuasca – 23 de novembro 2006).

Vamos! Avante, 64 já passou! Não devemos ficar calados perante a medíocridade de uma Imprensa tendenciosa à acusar tudo e todos que não rezam na sua cartilha como se fossem criminosos e culpados pelos males da nação.

por
Toni Caldas

Photogênios




















por
Valéria Simões - fotógrafa, graduada em Artes Plásticas pela UFBA.