5 de mar de 2010

"Pai, perdoa-lhes. Eles não sabem o que fazem, dizem, ouvem, dançam..."

Presente desde as lajes nas periferias até os flats dos luxuosos condomínios de Salvador e em quase todos os mini-trios nas malas dos carros da cidade, o apelo imperativo das bandas de pagode baiano para que "pererecas" vão e venham, "fios" sejam enfiados, "tchecas" ralem ao som percussivo e de péssima qualidade musical, "canhões" se sintam redimidos diante de corpos olimpianos e "patinhas" sejam estendidas, vem ecoando cada vez mais e em maior potência.

Contudo, os grupos que fazem esse "som" dizem que na verdade tudo é um retrato da realidade do pagode. Será? Será que todos que freqüentam as festas onde esse "estilo de vida" predomina estão mesmo a fim de sexo, drogas, – se levarmos em conta que o álcool e substâncias de grande poder alucinógeno como a cocaína, reinam nesse meio – azaração, nenhum compromisso em entender a mensagem das músicas – diga-se de passagem, banal – e muita violência? Se for basicamente isso, estamos indo de mal a pior na música e na sociedade baiana.

E as crianças? São obrigadas a ouvir isso onde quer que estejam, e, mesmo sem saber do que se trata, banalizam seus corpos com danças e gestos corporais nada convencionais à idade. O que será das fábulas com uma "música" que põe a Chapeuzinho Vermelho e o Lobo-Mau em uma crise existencial? Digo isso, pois uma prima de quatro anos chegou a mim para tentar compreender o que seria o vilão ou a pobre garotinha do conto de fadas depois de ouvir repetidas vezes o novo hit do pagode baiano. Compreendem? O caso é sério! Falar em censura é um absurdo, falar em falta de qualidade é uma ofensa a cultura popular, pautar então uma classificação, nem pensar!

O ás que grupos como esses sempre tem nas mangas é dizer que bandas internacionais passam mensagens do mesmo nível "baixarístico" e não são alvo de críticas. Mas convenhamos: quantas pessoas vão a fundo para traduzir essas letras? É muito mais explicito fazer um xingamento no bom português do que em outro idioma praticamente desconhecido pela imensa parcela do povo brasileiro como o inglês.

Podem me tachar de antipático, careta, velhaco, até mesmo preconceituoso, – mesmo sendo um uso impróprio, pois remete a alguém que desconhece algo e fundamenta um conceito – mas para mim esse tipo de pagode de nada vale, se não acabar com a nossa juventude que segue em massa comendo alpiste e dizendo "amém". Poupem-nos de desculpas esfarrapadas, pecadores musicais!

por
Toni Caldas

2 comentários:

  1. Pertinente demais seu texto, caro colega!
    Que todos reflitam sobre isso. Faria bem a todos os ouvidos, principalMENTE!

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  2. Quem mais sofre são as crianças. Lastimável!
    O ritmo é forte, a percussão por mais que seja repetitiva é, de certa forma, envolvente. Pode ser, mais ficar instigando a vulgaridade nas letras, isto é demais, ou.. de menos. "Ela é toda boa" tinha uma letra até legalzinha e fez muito sucesso. Se também fez seu sucesso de verão e ficou na boca do pessoal, por que não continuar nesta linha.

    Preservai nossas crianças!!!

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