26 de jun de 2010

Mais que mulher

Ela vinha, loira, deslumbrante, em passos ágeis e esguios por entre as veredas dos coqueiros sinuosos e verdejantes do meu quintal. Vinha, negra, mística, volumosa, dançante, galopando em sílabas, lambendo minha face áspera, degustando do tempero que a maresia de uma praia qualquer, fruto do meu imaginário, provocara.

Vindo, me dava de beber do néctar cravoso que brotava gotejante de tua boca, falante em saborosas e ultramorfológicas sintaxes perfeitas. Voltando, vestia sua sedosa e alva capa, soltava ao vento pagão seus cabelos, pintava de azul anil os olhos de cristal, selava as fivelas das sandálias áureas que envolviam seus pés repletos de segredo que agora caminham pra longe de mim...

Toni Caldas

22 de jun de 2010

Uma noite inacabada

Escolheu a melhor caneta, àquela qual o prumo se fazia firme e impiedoso sobre o velho e embolorado papel, a fim de imprimir suas angústias de uma noite de sofrimento. A voz singela e quase rouca de um cantor espanhol no rádio, reverbava entre as quatro paredes do humilde e vazio quarto de pensão. Enquanto o pobre jornalista se contentava com as migalhas que a vida profissional tinha lhe deixado, buscava se afogar e uma garrafa de rum barato. Mas o que era aquele sentimento que o obrigava a embriagar-se, tal como o barro que despenca de uma encosta num dia chuvoso recobre e arrasta o velho barraco de madeira? A resposta estava no impulso que partia dos insanos que o rodeavam quase todas as noites, e que era mais possante que sua consciência sã.

Acabando todo seu estoque de veneno, cambaleante, saiu e caminhou pelas ruas de pedras imponentes e casarões sombrios, onde gemidos fantasmagóricos à noite se confundiam com os ventos que circulavam sinuosos, entre os cômodos abandonados. O medo e a escuridão do seu espírito o acompanhavam, até o momento em que, avançando por grossos portões de uma daquelas residências tenebrosas e passando por um jardim tomado por gatunos quase selvagens que grunhiam a cada passo seu, ele via que seu temor se esvair, sendo agora apenas bobagens.

Talvez por sua embriaguez total os avejões da razão tivessem ido assombrar um outro ser desprovido de devaneios. As estátuas dos ogros, sólidas e graves, tal como as das catedrais góticas parisienses guardavam aquele lugar. Eram paredes cheias de musgos e ácaros, e se podia ouvir o cantar contínuo e longínquo de um pássaro noturno - era uma coruja enorme! - junto aos pingos d’água que despencavam. Percebia lentamente que o terreno não era um lugar qualquer. Era o esconderijo do deus pagão. O silêncio então reinou por segundos. Mas era tarde para voltar atrás, e ao pisar naquele sótão o pobre diabo foi recebido pela aurora de mais um dia, que enfim o libertara da noite perene...

Queimado como Ícaro, o velho jornalista era agora um monte de migalhas humanas, estraçalhado em cinzas, que soprado pela brisa do alvorecer ouvia o som longínquo que rasgava o silêncio, contínuo, e sincrônico, e cada vez mais alto, e mais... Não era nada de mais, como num ato mecânico eu esticava meu braço e batia com um tatear impreciso sobre o despertador.

Acordei, lavei o rosto, e quase morto de desgosto descobri que era só mais um dos meus loucos sonhos que misturavam os contos que lia sempre antes de dormir, meus medos secretos, desejos mais intensos, e um jogo de cenas talvez avistado em outra vida, ou num outro próprio sonho. Escolhi então a melhor caneta, àquela qual meu prumo se faz firme e impiedoso sobre o velho e embolorado papel, a fim de imprimir minhas angústias de uma noite de sofrimento. A voz singela e quase rouca de um cantor espanhol no rádio, reverbava entre as quatro paredes do humilde e vazio quarto de pensão...

Toni Caldas

2 de jun de 2010

Poetas do Recôncavo - IV

Sou um homem.
Portanto,
mais que palavra.

Não pronuncio
o sentimento
apenas como palavra.

O que foi dito
ao entardecer
não se confirma
na madrugada.

O que foi visto
no sonho
não se confronta
com a realidade.

Sou um homem.
Portanto,
uma surpresa.

Damário da Cruz