22 de jun de 2010

Uma noite inacabada

Escolheu a melhor caneta, àquela qual o prumo se fazia firme e impiedoso sobre o velho e embolorado papel, a fim de imprimir suas angústias de uma noite de sofrimento. A voz singela e quase rouca de um cantor espanhol no rádio, reverbava entre as quatro paredes do humilde e vazio quarto de pensão. Enquanto o pobre jornalista se contentava com as migalhas que a vida profissional tinha lhe deixado, buscava se afogar e uma garrafa de rum barato. Mas o que era aquele sentimento que o obrigava a embriagar-se, tal como o barro que despenca de uma encosta num dia chuvoso recobre e arrasta o velho barraco de madeira? A resposta estava no impulso que partia dos insanos que o rodeavam quase todas as noites, e que era mais possante que sua consciência sã.

Acabando todo seu estoque de veneno, cambaleante, saiu e caminhou pelas ruas de pedras imponentes e casarões sombrios, onde gemidos fantasmagóricos à noite se confundiam com os ventos que circulavam sinuosos, entre os cômodos abandonados. O medo e a escuridão do seu espírito o acompanhavam, até o momento em que, avançando por grossos portões de uma daquelas residências tenebrosas e passando por um jardim tomado por gatunos quase selvagens que grunhiam a cada passo seu, ele via que seu temor se esvair, sendo agora apenas bobagens.

Talvez por sua embriaguez total os avejões da razão tivessem ido assombrar um outro ser desprovido de devaneios. As estátuas dos ogros, sólidas e graves, tal como as das catedrais góticas parisienses guardavam aquele lugar. Eram paredes cheias de musgos e ácaros, e se podia ouvir o cantar contínuo e longínquo de um pássaro noturno - era uma coruja enorme! - junto aos pingos d’água que despencavam. Percebia lentamente que o terreno não era um lugar qualquer. Era o esconderijo do deus pagão. O silêncio então reinou por segundos. Mas era tarde para voltar atrás, e ao pisar naquele sótão o pobre diabo foi recebido pela aurora de mais um dia, que enfim o libertara da noite perene...

Queimado como Ícaro, o velho jornalista era agora um monte de migalhas humanas, estraçalhado em cinzas, que soprado pela brisa do alvorecer ouvia o som longínquo que rasgava o silêncio, contínuo, e sincrônico, e cada vez mais alto, e mais... Não era nada de mais, como num ato mecânico eu esticava meu braço e batia com um tatear impreciso sobre o despertador.

Acordei, lavei o rosto, e quase morto de desgosto descobri que era só mais um dos meus loucos sonhos que misturavam os contos que lia sempre antes de dormir, meus medos secretos, desejos mais intensos, e um jogo de cenas talvez avistado em outra vida, ou num outro próprio sonho. Escolhi então a melhor caneta, àquela qual meu prumo se faz firme e impiedoso sobre o velho e embolorado papel, a fim de imprimir minhas angústias de uma noite de sofrimento. A voz singela e quase rouca de um cantor espanhol no rádio, reverbava entre as quatro paredes do humilde e vazio quarto de pensão...

Toni Caldas

6 comentários:

  1. Faz tempo que não comento por aqui.
    Mas, só estou passando pra dizer que sempre leio o que escreves.
    Gosto do jeito que você lida com as palavras e você sabe disso.
    Parabéns! -mais uma vez-

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  2. E agora, eu escolho a melhor caneta, àquela qual meu prumo se faz firme e impiedoso sobre o velho e embolorado papel, a fim de imprimir (...)

    Mentirinha, peguei caneta nenhuma. Computador, né?! kkk

    Ta massa, Toni :)

    Beeijos

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  3. Não compreendo o por que de sempre unir o Jornalismo e o álcool.

    O caminho do sonho: do Jardim Grande de Cachoeira à 25!! +

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  4. Obrigado pelos adjetivos. E respondendo à imcompreensão de Marília: o jornalismo pra mim se liga com muitas coisa fora da normatização cotidiana. Mas esse personagem - é isso que ele é - podia ser um bancário, gari, advogado... o álcool está entranhado na cultura ocidental. Sou completamente favorável a García Marques quando ele dispõe às portas de bar como o celeiro do verdadeiro jornalismo ( sei que você já cansou de ouvir isso).

    O caminho do sonho na verdade não tem relação alguma com Cachoeira, apesar de alguns elementos serem familiares, confesso.

    Os sonhos do meu personagem - que aliás já escreveu outros contos dele como esse aqui no blog - quase sempre se passam em cenas mescladas, nada muito fixo metafisicamente falando.

    Mas não se aveche não, Dori! Adoro essas traduções indecorosas que eu exponho nas respostas dos meus escritos catastróficos...

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  5. Tô avechada não, moço.
    Sei que não é especificamente Cachoeira. Foi uma INTERPRETAÇÃO dos seus escritos, não que deva corresponder. :D

    Mas o personagem é um jornalista! Vc quem disse: "Enquanto o pobre jornalista se contentava com as migalhas que a vida profissional tinha lhe deixado(...)"

    Relação alcool / Jornalismo = Um post antigo do meu blog. :D

    Até a próxima visita, Elano.

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  6. LUCIANA REIS MACEDO3 de janeiro de 2011 13:58

    Adorei esse blog !

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