14 de ago de 2010

Dezenove

"Em Brasília, 19 horas", anunciavam na rádio... Foi quando percebi que o dia já havia passado e eu mal levantei do sofá. Dezenove horas pensando na vida, nos amigos, nas viagens, nos risos, nos meus pais, no que deixei pra depois em minha vida. Senti a barba ríspida. Seria um sinal de despojo ou a velhice que se aproximava? "Deve ser um misto dos dois", imaginei, já que aquela amiga me afirmou convicta um dia, em uma carta, que eu era um "menino velho". O tempo do mundo me acompanhava há dezenove anos ou seria eu inserido nele? Pareciam bem mais que meros dezenove verões. Respirei eu fundo. Enumerei os amigos com quem podia contar naquele exato momento, uma noite de sábado, se eu sofresse um escorregão idiota e desse com a cabeça no chão, no meio da sala, sangrando sem parar; eram eles dezenove leais companheiros que ainda permaneciam ao meu lado, passando por tantas fases da minha vida.

Aquela parede branca da sala vazia diante de mim, por alguns minutos pareceu um plano pra que o filme de minha vida desenrolasse em altíssima velocidade. E como era rápido! Percebia que durante aquele tempo fiz muitas coisas, e que me esqueci de muitas delas; como aquele primeiro salto da ponte do Cais do Caijá, do qual, na infância, morria de medo quando era noite, por achar que era habitado por criaturas fantasmagóricas. "'Fantasmagóricas'... lembro da primeira vez que me deparei com essa palavra", murmurei solitário. Foi uma história de terror cheia de esqueletos que dançavam em salas escuras numa casa abandona, de um livro que ganhei de presente, e que minha mãe sempre lia para mim na varanda da casa onde vivi até os nove anos.

Pensei nas mulheres por quem me apaixonei; na musa que estava a admirar na semana que passou; nos pássaros que meu pai aprisionava em gaiolas e que eu, astuto, soltava com a ajuda de minha mãe quando ele saia à tardinha; naquela tarde de março na praia de Stella Maris, quando sentado à sombra de um coqueiral, junto com dois amigos, apreciava a espuma que se materializava entre as entre fendas das rochas negras; na viagem ao baixo-sul da Bahia, quando conheci uma imensa cachoeira, a maior que já vi, e suas gotas de vapor que formavam um imenso arco-íris, onde era impossível se ver o começo ou o fim; no dia nublado em que comprei meu primeiro livro de crônicas do "Bruxo do Cosme Velho", em um sebo na Ladeira da Barra, e na frase do prefácio amarelado do livro, que prometi tatuar em mim, quem sabe um dia.

Apanhei um livro de contos, pus no rádio um disco de Chico e, abrindo a janela, pude notar a brisa fria que soprava trazendo ao céu da cidade heróica mais uma noite estrelada. Senti como era ser o homem que sou...

Toni Caldas

6 de ago de 2010

Bilhetinho

Um singelo baquete sobre as nuvens do desejo
Uma bela, querida, o poder do despreso

No sentido do vento, o saber sagrado
Nas tardes quentes de agosto
O nascer, teu afago

Sabes tu que já sou nuvem assim, passageira
Em tua vida corrida, coisa assim tão faceira

Não te dedicos o mal, tampouco o bem das minhas saudades
Apenas entrego ao teu eu os tracejos de minhas mensagens

T
oni Caldas

Sem-água

Sangrei tinto, matoso, o mal das minhas saudade
Saudei vivo e destinto as manhãs de sua maldade

Não quero mais que manhã, vivo assim de bondade
Sua vida na minha reflete apenas caridade

Não tenho mais salvação, vivendo nessas fétidas flores
Consumindo o que me seduz, apenas flácidas dores

T
oni Caldas

3 de ago de 2010

Uma carta no domingo

Há mesmo dias em que não se espera nada da felicidade. Um beijo, um abraço, um afago, nada mesmo. Fazia dias que vinha trilhando vagaroso nessa péssima expectativa. Não conseguia encontrar ânimo em lugar algum. Busquei em todos os cantos empoeirados da casa um retalho de Hollywood, mas de novidade só encontrei uma agenda mofada com números de telefones (certamente já inexistentes) de amigos de uma banda do fim do fundamental e outros de quem já não lembrava mais.

Meu quarto parecia ser o melhor lugar do mundo; e eu deitado ali, com as veias abertas e o ar rarefeito. Ácaros e fungos eram os seres de estimação; prateleiras com livros de Química e História eram a moldura da minha janela de cortinas fechadas. A necessidade humana é um tremendo incômodo nessas horas de ócio; mas tinha que ir ao banheiro. No caminho pelo corredor frio e longínquo avistei sobre assoalho de madeira, próximo à porta, um pedaço de papel. Aproximando-me vi que não era um pedaço, mas um envelope de um remetente nada comum. "Quem será que ainda perde tempo escrevendo pra mim que quase nunca respondo cartas? Nunca ouviu falar em e-mail, neandertal digital?", dizia em murmúrios sonolentos.

Caminhei para o banheiro e deixei o papel em cima da bancada de mármore, junto a uma foto antiga com um amigo em uma viagem à Amsterdã em 95, sem ao menos ler o nome do remetente que me incomodava àquela hora da manhã com uma caligrafia arredondada. Voltei para o quarto para ler o envelope misterioso... "Quem diria!". Era uma antiga amiga. Aliás, uma das poucas que tinha, já que meu (mau) caráter e meus solinhos distorcidos na Stratocaster nunca me permitiram que nenhuma se aproximasse sem que eu não me atirasse nos braços após algumas doses de uísque, na esperança de passar mais uma noite pós-show bem acompanhado.

No relato contava-me dos seus filhos, do emprego, dos anseios, das angústias e dos desamores. Pintava uma tela de seus últimos dez anos de casada, com um grande amigo meu, por sinal. Falava das decepções com a família, que queria ir embora pra longe daquela paranóia, jogar tudo pro alto antes que despencasse em cima de sua cabeça. Não era uma carta; mais parecia um atestado de fracasso, de óbito, a prova de que eu precisava para compreender que minha vida de músico em fim de carreira (e de vida social) era ótima diante da dela.

A letra curvada, engraçada, que sempre me confundia na leitura das crônicas loucas que ela escrevia, me fazia agora viajar até o tempo de estudantes, quando no intervalo, afastando-me do casal, pois ela sofria com a rinite, eu fumava unzinho no fundo da quadra abandonada. Ela lá, recostada na outra velha trave da quadra, com seus sedosos e cacheados cabelos balançando ao vento, enquanto o seu futuro companheiro com o violão tocava pra ela Bus Stop, uma música que ela adorava (e eu também ouvi muito, enquanto viajei pelas estradas do Alabama, trabalhando para um jornal, junto a um grande cineasta, amigo de infância). Eu ali, sentado encima da outra trave, fitando a rara beleza daquela garota e convencendo-me de que era ela a primeira mulher que meus olhos conseguiam contemplar sem pensar em tê-la em minha cama (eu tinha 16, isso era totalmente aceitável).

Sem perceber, agora um sorriso surgia em minha face desprezada como a de um bêbado numa noite chuvosa, rasgando as amarras tristonhas que antes fadavam minhas rugas e barba grisalha a se mostrarem mais profundas e nostálgicas do que eram. Não por conta das recordações das paradas de sucesso que tocavam na minha memória, das excursões psicodélicas em meio a uma tarde de 87, dos concursos de Rock'n Roll que aconteciam naquele pavilhão do colégio, muito menos da juventude tão desejada pelos que hoje tem a minha idade. Era apenas um PS em letra reduzida onde parecia dizer pondo ali o seu coração embotado de mágoas: "Eu devia mesmo era ter escolhido você como sempre foi, simples e puro".

Toni Caldas