3 de ago de 2010

Uma carta no domingo

Há mesmo dias em que não se espera nada da felicidade. Um beijo, um abraço, um afago, nada mesmo. Fazia dias que vinha trilhando vagaroso nessa péssima expectativa. Não conseguia encontrar ânimo em lugar algum. Busquei em todos os cantos empoeirados da casa um retalho de Hollywood, mas de novidade só encontrei uma agenda mofada com números de telefones (certamente já inexistentes) de amigos de uma banda do fim do fundamental e outros de quem já não lembrava mais.

Meu quarto parecia ser o melhor lugar do mundo; e eu deitado ali, com as veias abertas e o ar rarefeito. Ácaros e fungos eram os seres de estimação; prateleiras com livros de Química e História eram a moldura da minha janela de cortinas fechadas. A necessidade humana é um tremendo incômodo nessas horas de ócio; mas tinha que ir ao banheiro. No caminho pelo corredor frio e longínquo avistei sobre assoalho de madeira, próximo à porta, um pedaço de papel. Aproximando-me vi que não era um pedaço, mas um envelope de um remetente nada comum. "Quem será que ainda perde tempo escrevendo pra mim que quase nunca respondo cartas? Nunca ouviu falar em e-mail, neandertal digital?", dizia em murmúrios sonolentos.

Caminhei para o banheiro e deixei o papel em cima da bancada de mármore, junto a uma foto antiga com um amigo em uma viagem à Amsterdã em 95, sem ao menos ler o nome do remetente que me incomodava àquela hora da manhã com uma caligrafia arredondada. Voltei para o quarto para ler o envelope misterioso... "Quem diria!". Era uma antiga amiga. Aliás, uma das poucas que tinha, já que meu (mau) caráter e meus solinhos distorcidos na Stratocaster nunca me permitiram que nenhuma se aproximasse sem que eu não me atirasse nos braços após algumas doses de uísque, na esperança de passar mais uma noite pós-show bem acompanhado.

No relato contava-me dos seus filhos, do emprego, dos anseios, das angústias e dos desamores. Pintava uma tela de seus últimos dez anos de casada, com um grande amigo meu, por sinal. Falava das decepções com a família, que queria ir embora pra longe daquela paranóia, jogar tudo pro alto antes que despencasse em cima de sua cabeça. Não era uma carta; mais parecia um atestado de fracasso, de óbito, a prova de que eu precisava para compreender que minha vida de músico em fim de carreira (e de vida social) era ótima diante da dela.

A letra curvada, engraçada, que sempre me confundia na leitura das crônicas loucas que ela escrevia, me fazia agora viajar até o tempo de estudantes, quando no intervalo, afastando-me do casal, pois ela sofria com a rinite, eu fumava unzinho no fundo da quadra abandonada. Ela lá, recostada na outra velha trave da quadra, com seus sedosos e cacheados cabelos balançando ao vento, enquanto o seu futuro companheiro com o violão tocava pra ela Bus Stop, uma música que ela adorava (e eu também ouvi muito, enquanto viajei pelas estradas do Alabama, trabalhando para um jornal, junto a um grande cineasta, amigo de infância). Eu ali, sentado encima da outra trave, fitando a rara beleza daquela garota e convencendo-me de que era ela a primeira mulher que meus olhos conseguiam contemplar sem pensar em tê-la em minha cama (eu tinha 16, isso era totalmente aceitável).

Sem perceber, agora um sorriso surgia em minha face desprezada como a de um bêbado numa noite chuvosa, rasgando as amarras tristonhas que antes fadavam minhas rugas e barba grisalha a se mostrarem mais profundas e nostálgicas do que eram. Não por conta das recordações das paradas de sucesso que tocavam na minha memória, das excursões psicodélicas em meio a uma tarde de 87, dos concursos de Rock'n Roll que aconteciam naquele pavilhão do colégio, muito menos da juventude tão desejada pelos que hoje tem a minha idade. Era apenas um PS em letra reduzida onde parecia dizer pondo ali o seu coração embotado de mágoas: "Eu devia mesmo era ter escolhido você como sempre foi, simples e puro".

Toni Caldas

Um comentário:

  1. Interessantes esses textos que trazem a tona sentimentos de anti-heróis... Gstei muito.

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