6 de set de 2010

Dia mal-sonhado

Numa manhã pós-eleições, ele resolveu que viveria um dia falso. Estava cheio daquelas responsabilidades do mundo real, da dúvida do espírito, da filosofia do ser e estar, da fome e da sede humana por mais vida viva. Levantou sorridente, iludindo a fome que logo cedo corroia seu estômago, cobrando do físico o preço pela noite regada a várias doses de cachaça no boteco. Foi até outro espaço do barraco onde encontrou a mulher que dormia debaixo de um fino cobertor, sobre pedaços de papelão no chão de barro, e o filho pequeno, já acordado e com um bico em uma das mãos, a brincar com um caminhãozinho de madeira sem duas das quatro pequenas rodas de rolimã.

Fechou os olhos e logo solucionou com suas palavras mágicas – falácias tal qual tudo que existiria no universo do seu dia falso – pondo na mesa um banquete, vestindo sua mulher com um roupão de banho branco e felpudo, ofertando ao moleque, antes ranhento, os cobiçados brinquedos da Lego que não pode ter quando criança e soprou nos seus lábios o poder do riso infante.

Chegando a porta do barraco, avistou o astro rei a raiar. Abriu os braços e com sua fértil mente criou asas, grandes e brilhantes, com as quais tinha o poder de voar. E assim seguiu, planando sobre a favela em que se criou e logo chegando a uma das principais e mais movimentas ruas da cidade, com seu chão ainda tingido pela poluição dos panfletos do dia anterior. Do alto, derramou refeições, brinquedos e livros aos meninos de rua; cura aos dependentes largados pelas tantas vielas; carteiras de trabalhos assinadas para os que já cedo esperavam nos pontos de ônibus e filas por um emprego.

Bateu asas além dali e revoltou-se vendo os grandes latifúndios improdutivos espalhados pelo interior. Buscou os seus donos nos flats de luxo das maiores metrópoles, onde ateou fogo em todos, fazendo com que os burgueses, que ainda vestindo seus ternos de linho para mais um dia lucrativo, saltassem das suas sacadas com belos jardins desesperados em berros estridentes e caíssem como tijolos, espatifando-se sobre o asfalto em forma de poeira, para que assim, desaparecendo com um sopro do vento, seus corpos fétidos não atrapalhassem as crianças que, agora alimentadas em todos os sentidos, corriam livres com seus balões coloridos como em dia de feriado.

Fez questão de ir a cada canto do Brasil e deixar doses concentradas de alegria aos deficientes físicos que lamentavam pela vida dura; companhia e alguns trocados aos aposentados sentados nas praças a lançar migalhas aos pombos; orgulho e força aos povos afrodescentes e indígenas; sossego aos perseguidos pelos líderes do narcotráfico; acalento e coragem às mulheres que sofriam com a violência de seus maridos e justiça a todas as minorias desvalidas.

Voou então ao mais alto ponto do planeta para tentar contemplar o mundo por inteiro. Insatisfeito, rompeu, e foi ao espaço para avistar o imenso sorriso do planeta novo que criara. Mas o Sol, enquanto força maior e vital da Natureza, assim como fez com Ícaro, derreteu suas asas de sonhos, fazendo com que ele caísse, despedaçando-se pouco a pouco sob a força que o atraía de volta ao solo mortal de onde provinha.

O ex-herói espatifou-se ofegante sobre o colchão duro e velho do seu barraco, recompondo seus pedaços lentamente, parte por parte. Agora estava esclarecido de que ser livre era coisa muito séria. Desistiu de imaginar um dia falso, mas caminhou novamente para fila do desemprego, em busca de um salário de fome, com um sorriso no canto dos lábios, pois agora sabia que podia voar. No fim ele olhou o que fez, e viu que aquilo era bom...

Toni Caldas

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