30 de out de 2010

Amor exposto para consumo

A garota de mini-saia caminha pela sala à meia-luz. Sorrindo, carrega em uma das mãos uma bebida para o seu acompanhante da noite. No canto do salão, ao lado uma máquina que cobra por músicas que o cliente escolha para embalar a noite, dois homens permanecem sentados, um deles girando o copo de conhaque sobre a mesa, a conversar. Aproximo-me junto com meu colega de reportagem e busco sutilmente me envolver na discussão. “Mulher daqui não tem amor, não”, dizia Jonathan, que revelava também que entrou pela primeira vez em um bordel quando ainda tinha onze anos de idade.

“Nem sempre é assim, o carinho também existe”, discorda Netinho, funcionário da casa, que reforçava sua afirmação dizendo que já morou com muitas mulheres que conheceu naquele exato lugar, o bordel de Cabeluda, um dos mais conhecidos de Cachoeira. Os dois foram interrompidos por Voador, um moto-taxista sentado em outra mesa no salão, afirmando que “se sentir bem com o cliente é muito diferente de amar”. Assim se inicia nossa investigação sobre os bastidores do mundo meretrício, com abordagens libertinas e visitas noturnas constantes aos bordéis de Cachoeira

Sonho de meretrizes

Bordel, alcoice, prostíbulo, lupanar, castelo, curro, casa de tolerância, da luz vermelha, serralho, zona, inferninho, baixo meretrício, covil, pinga-plus, harém, ou simplesmente brega. “Pouco importa o nome dado por quem frequenta o espaço, o fundamental é um atendimento prazeroso que faça o cliente repetir sempre a dose”, revelava uma das funcionárias da casa ao homem sentado na mesa ao lado.

Mudamos de mesa e nos sentamos abaixo da imagem de Santa Bárbara sob uma luz avermelhada, a protetora espiritual da casa. Shirley* então se aproxima, acreditando que eu e meu companheiro somos clientes em busca de uma boa companhia. Após conhecer nossos reais interesses, a moça acabou se interessando em conversar conosco. De cabelos castanhos, saia rodada e blusa decotada, revelando a tatuagem em homenagem ao filho, a garota de 27 anos relata que a profissão atual não foi o que desejou para sua vida, mas tempos difíceis a forçaram a encarar o cenário, quase sempre nebuloso, da prostituição.

Em pouco tempo de um bate-papo agradável Amanda* se aproxima, a única garota da casa que acreditava que a dupla sóbria em meio ao salão lotado de homens a flertar e beber eram na verdade curiosos a fim de conhecer o espaço. Agora sentada, ocupando o lugar de Shirley, a jovem deixava fluir seus sentimentos. “Eu já fiquei de caso com um cliente, sim. Não é vergonha admitir, sempre tem aquele que trata melhor, agrada e por esse é que a gente se apega”. A garota de 23 anos demonstra sem mais sonhadora que Shirley, e por vezes chega a cogitar, com olhos cheios de esperança, a possibilidade de estudar e sustentar seus custos como garota de programa.

Sempre relatando com poucas palavras, Dona Cabeluda, como é conhecida a responsável por um dos tradicionais bordéis de Cachoeira, conta que muitas foram as garotas que passaram pelo local com suas diferentes histórias. “Gente de toda parte do país, se eu for contar aqui passamos a noite inteira conversando”, relata. Seguimos a orientação de Dona Cabeluda e fomos à busca de pistas sobre como a zona meretrícia de Cachoeira começou a ganhar fama na região.

Luxúria de longa data

Existe um dito popular que afirma que a mais antiga profissão do mundo seria a prostituição. Mas por mais que seja vista na atualidade como um ofício, o histórico da vida das meretrizes nunca foi isento de preconceitos, agressões, violência e marginalização. Em meio ao século XIX, viajantes que vinham do sertão baiano através da ferrovia para irem à Salvador aguardavam em diversos hotéis, bares e restaurantes de Cachoeira a chegada do antigo Vapor, para assim continuar viagem até o porto da capital. Com o grande fluxo de passageiros, o aquecimento da zona meretrícia local então se inicia.

Ao longo de todo cais era notória a presença de moradores de rua, vagabundos, magarefes, falsos babalorixás, comerciantes e também muitas prostitutas, que ocupavam as ruas estreitas e perigosas, formando um vasto palco de prazeres e epidemias que atendia aos viajantes necessitados de companhia. Salões de jogos de azar, bares famosos pela boemia, sobrados inteiros utilizados como prostíbulos, constituíam a dinâmica noturna do porto de Cachoeira.

Segundo o historiador Cacau Nascimento, a prática meretrícia vem de longa data na cidade. Muitas das prostitutas que transitavam na região vinham do sertão, e raras eram as mulheres nativas da cidade. “Embora tivesse um grande fluxo comercial, São Félix nunca teve zonas de prostituição. A cidade funcionava apenas para a produção e escoamento do fumo, já Cachoeira, uma cidade hoteleira e boêmia, manteve até cerca de sessenta anos uma tradição muito forte nesse sentido. Para se ter noção, a iniciação sexual dos jovens, por exemplo, era realizada nesses ambientes, onde belas mulheres atraiam inclusive homens de cidades vizinhas. Com a banalização do sexo essa prática hoje deixou de existir”, analisa.

Resquícios dos prostíbulos

Entre as décadas de 1940 e 1950, com o desenvolvimento urbano da cidade, as zonas meretrícias foram perdendo a sua característica original. “Todos esses becos que vão em direção ao porto, antes eram ocupados por sobrados alugados para a prática da prostituição. A partir de 1960, após alguns anos de avanço da urbanização, a zona portuária ganha então o caráter de espaço residencial, sendo ocupada por famílias inteiras”, diz Cacau.

Atualmente, apenas o último quarteirão do porto, conhecido pelos moradores mais antigos como “beco das ganhadeiras”, permanece como zona meretrícia com duas casas à disposição de clientes em busca de uma companhia. Por conta da sua carga histórica e dos conflitos gerados nas discussões de gênero dentro da própria cidade, o jornalista Jadson Ribeiro, em seu estudo intitulado “Corpos Periféricos”, se dispõe a observar as apresentações dos corpos no cotidiano das prostitutas ainda atuantes em Cachoeira. “Nesse trabalho eu busquei tratar da sexualidade, da estética do corpo, com o anseio de entender melhor como se dão os processos performáticos e as vivências sexo-afetivas dessas mulheres”, diz Jadson.

Por fim, conversando com um dos mais antigos e assíduos frequentadores da casa de Dona Cabeluda, pude compreender como os clientes do local apreciam a vida regada à prazeres e luxúria. “Brega não quer dizer sacanagem, nunca significou isso. É um estilo, uma filosofia que eu, cliente de carteirinha, não deixo de viver mesmo hoje sendo casado”, analisa profundamente Jonathan, que dizia naquela noite ter vindo apenas beber algumas cervejas, pois a companhia da noite anterior o deixou totalmente inválido.

Toni Caldas

14 comentários:

  1. Nunca um "brega" me despertou tanta curiosidade. Palmas de pé Tony, amei o estilo de escrever, meio conto meio jornalístico. Estou rindo até agora do "estilo de vida" do cabra casado, tadinha da mulher com tanta "invalidez"!

    ResponderExcluir
  2. Obrigado pelos adjetivos. Espero que cada vez mais surjam interessados em antender a um jornalismo que revele um mundo subjacente àquele que encontramos nos noticiários, onde a notícia se utilize de uma perspectiva subjetiva.

    ResponderExcluir
  3. Matéria muito bem escrita.
    O literalismo é indispensável no jornalismo...
    Siga na fé Tony

    ResponderExcluir
  4. Muito bom!
    sendo um assunto tão polemico e antigo, estamos adaptados a matérias tendenciosas, e a sua está livre de preconceitos e imposição de formas de como viver e etc.
    parabéns

    ResponderExcluir
  5. Gostei da narrativa! Envolvente,intrigante!
    Gostei do tema, das declarações e dos diferentes viés apresentados.
    Teve um momento que pensei ser Sherlock Holmes e seu companheiro Watson! (mas dessa vez quem narra é Holmes):D
    Parabéns pela reportagem!

    ResponderExcluir
  6. Tonho puro suuucesso =P
    Gostei demais..

    Apesar de viver em um 'mundo' distante do apresentado, me senti em casa!

    Beijos e parabéns!

    ResponderExcluir
  7. Eu acho que dá pra fazer uma peça de teatro alá Brecht ^^ Com muito poema e música, inclusive! Bom trabalho!

    ResponderExcluir
  8. Gostei, Toni. O brega de Cachoeira é muito famoso, já foi parar até no Programa do Jô. O interessante é que acima de tudo saibamos que essas mulheres são humanas e tem o seu outro lado da vida. Algumas delas são mães e é claro que além de exercer esse ofício na noite, durante a manhã exercem seu papel de educadoras. E como muitos pensam, não é porque os filhos são criados naquele meio, que vão dar para marginalidade. Conheço meninos que foram 'criados no brega' e que hoje têm uma vida estável e segura. Muitas mulheres estão ali porque não tiveram escolha e outras estão porque escolheram isso mesmo.
    Narrativa interessante. Faltou contar a origem do nome BREGA que é engraçada.
    Vou aguardar no Reverso!
    Abraços.

    ResponderExcluir
  9. Parabéns pelo texto.
    Tenho grande curiosidade pela cidade e qualquer reportagem que envolva-a me chama atenção.
    Talvez, dentro em breve eu possa estar morando nela e como estudante, possa participar de reportagens tão curiosas quanto a sua.

    ResponderExcluir
  10. Muito boa a matéria... a sua escrita também possui um estilo bastante individual, gostei. Parabéns! Porém, faço uma ressalva: "raras eram as mulheres nativas da cidade"... Não use a palavra "nativa", possui um tom pejorativo, linguagem de "colonizador", numa cidade grande por exemplo ninguém é chamado de nativo... No mais, muito bom o texto.

    ResponderExcluir
  11. Toni,
    Lenise e Lorena já escreveram basicamente tudo o que penso a respeito dessa matéria.

    Enfim, não pude deixar de comentar. Te espero no Montezuma!

    Att, Rafa.

    ResponderExcluir
  12. Muito bom o seu blog. Amei o texto. Obrigada por seguir-me.

    ResponderExcluir
  13. Parabéns Tony! A matéria é reflexo da sua dedicação. No aguardo de novas reportagens!

    ResponderExcluir