29 de nov de 2010

Andanças, danças e mudanças

Calor. Mormaço insuportável que derretia a mente, fazendo-a escorrer pelos olhos, ouvidos e narinas. Debruçava o rosto sobre o braço esquerdo apoiado na mesa suja. O dia ainda precisava de cerca de quatorze horas pra se por fim, e ela já não aguentava esperar ali, sob o sol castigante, pelo amado homem. Lá fora a banda arrastava uma multidão de famintos, todos sedentos de línguas, bundas e muita cerveja.

Os pierrôs molhados de suor, colombinas desbotando em meio ao nó-humano ao som dos metais em sopro incessante. O embalo arrastava casais, bêbados, policiais e malandros que se faziam iguais perante os pés da pequena capela no alto da colina. Quem eram aquelas criaturas mascaradas? Quem são agora que estão mascarados?

Deus e o Diabo presentes, uma coisa só, contemplando ambos suas invenções em uma harmonia que nem mesmo os celestiais cogitaram existir. Grandes cabeças, fantasias, cotovelos que abriam caminho, gritos e gargalhadas que rasgavam a madrugada da cidade e aquela, que já não aguentava esperar ali, sob o sol castigante, pelo amado homem, seguiu o cortejo...

Toni Caldas

11 de nov de 2010

Conspiração soteropolitana


Fonemas da noite: batucada, brancos, babalorixás, boêmios, baianas, bochichos. Lá fora, flores murchas num fim de primavera, versos soltos e lembranças de veraneios afloram debruçados sobre uma janela azul que aponta para o mar. Caminhava numa quarta de cinzas, atirando o chaveiro ao alto e apanhando com a outra mão, enquanto fitava as estrelas do céu ainda em meio ao carnaval que ia embora.

A alegria salta de uma torre e espatifasse sobre o asfalto ardente da cidade, em plena Paralela. Na tela, a estética cinemanovista, reproduzida em um velho vídeo cassete, arriscava sujar o cabeçote da contemporaneidade por seu tempo de desuso. Sobre a balaustrada branca e salgada do Rio Vermelho, esquecida por um executivo, uma coca-cola perde o gás que ganha à atmosfera subindo lentamente pelo gargalo.

Expostos na mesma banca do São Joaquim estão bananas da terra, pombos brancos, carne de sertão, cestos de palha e saias de chita. Dois homens de terno branco e gravata borboleta degustam o tabaco da Bahia em uma charutaria do Pelourinho; sem perceber, eram observados por um moleque engraxate, risonho e sujo, através do impecavelmente limpo e translúcido vidro.

São muros pichados no Viaduto dos Rodoviários. Banhos de pipoca na colina sagrada do Bonfim. Pagodes embalando as lajes de Periperi. Americanas que douram os corpos no Porto da Barra. E em meio a madrugada de uma segunda-feira chuvosa, na floresta frígida e feroz da Avenida Sete, sete soldados pretos exterminam sete malandros pretos que fumam crack e caminham, atordoados, sob as marquises dos velhos casebres, aventurando mais uma nota na capa do A Tarde como sete mortos após mais um tombamento histórico na capital baiana...

Toni Caldas

1 de nov de 2010

Inteligência e pneus de bicicletas esquecidos debaixo da ponte

Quem transita pela Ponte D. Pedro II, em São Félix, pode admirar a paisagem do Rio Paraguaçu e o reflexo das cidades-irmãs em suas águas. Ao contrário de outras pontes, onde moradores de rua e animais disputam espaço, embaixo deste local existe vida inteligente. Refúgio de muitos gatos e depósito de bicicletas em reparo, a borracharia de Zé Sapo se revela um local agradável para um papo-cabeça enquanto os reparos mecânicos são feitos.

Quando perguntado sobre o cotidiano da sua profissão, Zé Sapo responde que lida com o acaso todos os dias. Ele não se refere ao fluxo de clientes, mas aos próprios materiais com que labuta: nunca se sabe o que vai precisar e, ainda que tente estocar as peças básicas, é impossível desvendar, por exemplo, a cor que o cliente vai preferir pintar sua bicicleta.

Rastros na estrada da vida

Filho de uma sanfelista, charuteira e viúva que o sustentou com muito esforço, Zé Sapo conta que sua vida é cheia de altos e baixos, e a fome foi um desses picos. O apelido curioso que José Sales recebeu o acompanha desde a infância, quando era goleiro nas partidas de fim de semana. O campinho do bairro do Bariri, em São Félix, em dias chuvosos sempre alagava, e ele, enquanto defensor das redes, acabava tendo de permanecer mergulhado em uma grande poça de lama que se formava no campo de terra.

Ainda jovem, um vizinho que lidava com bicicletas chamou Sapo para trabalhar junto a ele em uma oficina: é então que ele tem seu primeiro contato com a atividade. A partir daí, Sapo decide abrir sua oficina em casa e oferecendo um atendimento de qualidade, o aumento da clientela foi notável. Devido às condições financeiras, Zé Sapo estudou até o quinto ano primário, quando largou lápis e caderno para trabalhar. Em 1974 ele retoma os estudos e se forma pelo Colégio Estadual da Cachoeira, tendo destaque por sua inteligência.

Homo Sapo ou Homo Sapiens?

Enquanto consertava uma jante empenada, Sapo conta o motivo de preservar nove gatos em sua oficina. “Como no Egito, acredito que os gatos são animais sagrados. Inclusive, o faraó Psamético perdeu a batalha de Pelusa para Cambises, pois ele lançou vários gatos à frente das tropas, o que barrou os soldados”, detalha seus motivos fundamentados na História. O que poucos sabem é que as mesmas mãos sujas de graxa são habilidosas com os números e as ciências exatas: o mecânico de bicicletas há 36 anos é também formado em Contabilidade. “Queria muito, mas não tive oportunidades e hoje permaneço nessa profissão”, relata com remorso.

Tratando-se do valor do seu ofício, Zé Sapo afirma que foi o que levantou a sua moral enquanto ser humano. “Tudo que eu possuí ao longo da minha vida eu devo a essa profissão. Foi com ela que sustentei meu lar e criei meus oito filhos, todos hoje donos de si”, conta. Após dezesseis anos com sua oficina embaixo da Ponte D. Pedro II, atualmente Zé Sapo ocupa a posição de mais famoso mecânico de bicicletas da região, e insiste para que jovens passem o ofício adiante. “Muito jovem hoje não quer essa vida, pois, realmente, não dá pra ficar rico. Mas nunca vai se acabar, o mundo vai continuar sempre precisando de profissionais nessa área e quem domina a técnica não morre de fome”.
Toni Caldas