11 de nov de 2010

Conspiração soteropolitana


Fonemas da noite: batucada, brancos, babalorixás, boêmios, baianas, bochichos. Lá fora, flores murchas num fim de primavera, versos soltos e lembranças de veraneios afloram debruçados sobre uma janela azul que aponta para o mar. Caminhava numa quarta de cinzas, atirando o chaveiro ao alto e apanhando com a outra mão, enquanto fitava as estrelas do céu ainda em meio ao carnaval que ia embora.

A alegria salta de uma torre e espatifasse sobre o asfalto ardente da cidade, em plena Paralela. Na tela, a estética cinemanovista, reproduzida em um velho vídeo cassete, arriscava sujar o cabeçote da contemporaneidade por seu tempo de desuso. Sobre a balaustrada branca e salgada do Rio Vermelho, esquecida por um executivo, uma coca-cola perde o gás que ganha à atmosfera subindo lentamente pelo gargalo.

Expostos na mesma banca do São Joaquim estão bananas da terra, pombos brancos, carne de sertão, cestos de palha e saias de chita. Dois homens de terno branco e gravata borboleta degustam o tabaco da Bahia em uma charutaria do Pelourinho; sem perceber, eram observados por um moleque engraxate, risonho e sujo, através do impecavelmente limpo e translúcido vidro.

São muros pichados no Viaduto dos Rodoviários. Banhos de pipoca na colina sagrada do Bonfim. Pagodes embalando as lajes de Periperi. Americanas que douram os corpos no Porto da Barra. E em meio a madrugada de uma segunda-feira chuvosa, na floresta frígida e feroz da Avenida Sete, sete soldados pretos exterminam sete malandros pretos que fumam crack e caminham, atordoados, sob as marquises dos velhos casebres, aventurando mais uma nota na capa do A Tarde como sete mortos após mais um tombamento histórico na capital baiana...

Toni Caldas

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