1 de nov de 2010

Inteligência e pneus de bicicletas esquecidos debaixo da ponte

Quem transita pela Ponte D. Pedro II, em São Félix, pode admirar a paisagem do Rio Paraguaçu e o reflexo das cidades-irmãs em suas águas. Ao contrário de outras pontes, onde moradores de rua e animais disputam espaço, embaixo deste local existe vida inteligente. Refúgio de muitos gatos e depósito de bicicletas em reparo, a borracharia de Zé Sapo se revela um local agradável para um papo-cabeça enquanto os reparos mecânicos são feitos.

Quando perguntado sobre o cotidiano da sua profissão, Zé Sapo responde que lida com o acaso todos os dias. Ele não se refere ao fluxo de clientes, mas aos próprios materiais com que labuta: nunca se sabe o que vai precisar e, ainda que tente estocar as peças básicas, é impossível desvendar, por exemplo, a cor que o cliente vai preferir pintar sua bicicleta.

Rastros na estrada da vida

Filho de uma sanfelista, charuteira e viúva que o sustentou com muito esforço, Zé Sapo conta que sua vida é cheia de altos e baixos, e a fome foi um desses picos. O apelido curioso que José Sales recebeu o acompanha desde a infância, quando era goleiro nas partidas de fim de semana. O campinho do bairro do Bariri, em São Félix, em dias chuvosos sempre alagava, e ele, enquanto defensor das redes, acabava tendo de permanecer mergulhado em uma grande poça de lama que se formava no campo de terra.

Ainda jovem, um vizinho que lidava com bicicletas chamou Sapo para trabalhar junto a ele em uma oficina: é então que ele tem seu primeiro contato com a atividade. A partir daí, Sapo decide abrir sua oficina em casa e oferecendo um atendimento de qualidade, o aumento da clientela foi notável. Devido às condições financeiras, Zé Sapo estudou até o quinto ano primário, quando largou lápis e caderno para trabalhar. Em 1974 ele retoma os estudos e se forma pelo Colégio Estadual da Cachoeira, tendo destaque por sua inteligência.

Homo Sapo ou Homo Sapiens?

Enquanto consertava uma jante empenada, Sapo conta o motivo de preservar nove gatos em sua oficina. “Como no Egito, acredito que os gatos são animais sagrados. Inclusive, o faraó Psamético perdeu a batalha de Pelusa para Cambises, pois ele lançou vários gatos à frente das tropas, o que barrou os soldados”, detalha seus motivos fundamentados na História. O que poucos sabem é que as mesmas mãos sujas de graxa são habilidosas com os números e as ciências exatas: o mecânico de bicicletas há 36 anos é também formado em Contabilidade. “Queria muito, mas não tive oportunidades e hoje permaneço nessa profissão”, relata com remorso.

Tratando-se do valor do seu ofício, Zé Sapo afirma que foi o que levantou a sua moral enquanto ser humano. “Tudo que eu possuí ao longo da minha vida eu devo a essa profissão. Foi com ela que sustentei meu lar e criei meus oito filhos, todos hoje donos de si”, conta. Após dezesseis anos com sua oficina embaixo da Ponte D. Pedro II, atualmente Zé Sapo ocupa a posição de mais famoso mecânico de bicicletas da região, e insiste para que jovens passem o ofício adiante. “Muito jovem hoje não quer essa vida, pois, realmente, não dá pra ficar rico. Mas nunca vai se acabar, o mundo vai continuar sempre precisando de profissionais nessa área e quem domina a técnica não morre de fome”.
Toni Caldas

4 comentários:

  1. E quanta lição pode-se tirar dos bastidores, do lado simples e indispensável da vida!

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  2. Ah! A foto é de um goiano, meu parceiro de reportagens e bebedeiras, Caiã Pires.

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  3. É esse 'tipo' de pessoa que fazem do nosso dia-a-dia ( não me lembro se ainda se usa esses tracinhos ! ), algo ímpar :)

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