25 de dez de 2010

Um menino morreu

Um dia conturbado de uma grande capital qualquer. O trânsito de pessoas alvoroçadas, entrando e saindo das lojas, como se caçassem uma peça única sob as montanhas de produtos não-recomendados para menores de três anos; em menos de um mês quase tudo aquilo que Dona Carmem comprou estaria fazendo companhia aos urubus um lixão qualquer, queimando e emitindo mil gases venenosos, bem perto dali.

Naquele mesmo instante, em uma avenida não muito distante daquele centro de consumo, um homem usando um capacete escuro e pilotando uma motocicleta em altíssima velocidade sobre o asfalto quente, foge com uma arma na cintura, após tirar a vida do pai da pequena Joana. Tudo motivado por um celular ultrapassado e dez reais que comprariam a boneca da garotinha que ainda acreditava no bom velhinho.

Próximo dali ficava um ponto de ônibus, onde todos os dias trabalhadores se dobravam para tomar um ônibus até o tão disputado trabalho. O cafezinho amargo comprado na esquina era o café da manhã nada completo de Seu Josias. Porém nesse dia ele continuou sendo amargo, nada de mais doce ou mesmo um pão para acompanhá-lo por ser uma data especial.

O coletivo se aproxima e correria e o empurra-empurra então começa. Marcos é o mais veloz. Esguio, consegue agarrar o corrimão da pequena escada e com um solavanco tomar o ônibus já exclamando os votos de felicidade a todos pela data especial. De passageiro em passageiro ele leva suas balinhas, que prometem curar o resfriado, prevenir a rouquidão, acabar com a tosse seca e, por mais um pouco, quase são anunciadas como cura pra infelicidade dos dias duros.

José, ainda pagando as balinhas que comprava, recebe uma ligação de sua esposa, que certamente naquele minuto havia acabado de realizar um aborto, o terceiro desde que se casaram. O porteiro de antemão afrouxa a gravata e respira fundo, parece saber que uma notícia vai ter que lhe descer garganta abaixo. Maria, sem rodeios, anuncia naturalmente a grande tragédia da humanidade: “Morto. Não precisei abortar. Nosso filho, o pequeno Jesus, já veio ao mundo sem vida”.

Toni Caldas

24 de dez de 2010

De lá pra cá por um polonês tupiniquim

Andar pelas ruas de Cachoeira possibilita se conhecer diversos espaços agradáveis, desde suas ruas arquitetônicas aos terreiros de Candomblé, museus e galerias. Mas alguns turistas fazem o trajeto inverso, e trazem para a cidade suas vivências, histórias e, por fim, sua vida.

É o caso de Michel Bogdanowicz, um polonês que há muitos anos se naturalizou brasileiro. O simpático senhor que vive com seu cigarro em mãos, admite não ter uma rotina. “Eu não tenho hábitos permanentes, o que faço depende da época que estou vivendo”, afirma.

Ele nasceu em Cracóvia, cidade situada ao sul da Polônia, no ano de 1947, um período em que seu país passava por uma revolução através das invasões das tropas russas que lutavam pela expansão do comunismo por toda Europa. Filho de Zbigniew Bogdanowicz e Madalena Bogdanowicz, desde cedo lidava com problemas comuns à realidade das crianças da época.

“Quando ia para a escola, apanhava por dizer o que ouvia em casa; ia para casa e meu pai rasgava o livro da escola e jogava pela janela, por não aceitar o que a escola ensinava. Nós crianças não sabíamos o que estava acontecendo, éramos novos demais para entender o problema que nos rodeava”, conta com remorso.

Fazendo as malas

Michel estudou na Academia de Minas e Metalurgia, na Polônia, formou-se e concluiu o seu mestrado na área de Engenharia Metalúrgica, aos 24 anos. Nos dois anos após sua formação na universidade ele aguardava seu visto ser liberado para que pudesse sair do seu país, enquanto presenciava milhares de pessoas serem assassinadas pelos russos.

“A burocracia de saída do país foi tão violenta que tinha até uma lei para ter livre passagem para um navio cargueiro, como eu cheguei ao Brasil. Você tinha que ter o visto, mas para ter o visto você tinha que ter passagem. E como você resolvia isso? Tinha que se pagar fortunas para o responsável pelo passaporte para se receber a passagem. Foi pela corrupção que eu e muitos outros conseguimos fugir, corrompendo as ditas ‘autoridades’”, relata.

Quando questionado sobre qual seria a visão dele a respeito do comunismo, Michel responde de imediato: “Péssima! Condeno não a idéia comunista, mas a realização de um regime extremamente fechado e violento, que valorizou denúncias anônimas sem fundamentos, provocando a morte de pessoas inocentes”. Quando se fala nas piores lembranças da Polônia, em primeiro lugar ele expõe a falta de liberdade em um regime rígido onde a individualidade era destruída.

“Nós não podíamos nos cumprimentar como ‘amigo’ ou ‘colega’, o correto era chamarmos uns aos outros de ‘camarada’, como os russos se cumprimentavam”.

Ele também afirma sentir muita falta das festas e dos amigos da Polônia, que em sua maioria fugiram na mesma época que ele, por volta de 1973, quando ele tinha apenas 26 anos, deixando sua cultura, sonhos, amigos e amores em sua terra natal. “Merda de cachorro na rua tinha cheiro de perfume francês!”.

Com seu humor irônico, Michel descreve a expectativa dos poloneses em relação ao ocidente. Segundo ele, o regime comunista foi tão rígido que, para eles, o mundo ocidental “era uma maravilha”. As dificuldades da vinda ao Brasil começaram na viagem: ele enfrentou cerca de um mês e meio em alto-mar. Michel ainda ressalva que tinha no bolso apenas cinco dólares e que gastou em uísque durante a viagem, certamente na inútil tentativa de aliviar a dor da partida.

Vivendo em terra brasilis

A partir das ligações com o irmão de sua mãe, Jorge Piotrowski, que durante seus primeiros quatro meses no Brasil o sustentou, Michel veio para São Paulo. “Depois me virei fazendo desenhos para uns amigos, dando aulas de física, matemática, sempre com o dicionário do lado, porque não falava o Português ainda corretamente”, diz ele. Como bem sucedido engenheiro metalúrgico, Bogdanowicz trabalhou na antiga AJAX, falida em 1978, que por certo tempo foi a maior empresa da América Latina no ramo da metalurgia, além da famosa Pagani Pinheiro, falida em 1989.

Antes de morar na Bahia, Michel passou trinta e dois anos em São Paulo, conhecendo e convivendo nos subúrbios, entre malandros e prostitutas, os quais mais tarde vieram a se tornar amigos seus, a ponto de freqüentar até casamentos de alguns deles.

“Na virada de ano [de 1973 para 1974], já no Brasil, estava eu chorando na esquina da Ipiranga com a São João e os amigos me ofereciam um ombro e algo para beber, sarar aquela falta que sentia da minha terra”, acrescenta.

Michel veio para a Bahia, em 1983, quando passou um ano em Salvador, trabalhando no Centro Industrial de Aratu, em uma fábrica de esquadrias de alumínio. O intuito de sua vinda foi levantar a empresa que passava por uma crise financeira. “Uma gratificação de cerca de 30 mil dólares, na época”, conta. Depois de receber seus honorários voltou para o sudeste, passou um ano no Rio de Janeiro, e logo em seguida retornou a São Paulo, onde morou até 2007.

Paixões, dores e família

“O Clube Alpino Paulista praticamente me salvou a vida”, diz Michel. O grupo era composto em sua maioria de estrangeiros ou descendentes diretos. Michel sempre escalou durante sua vida, e formou um grupo de alpinistas para retomar a prática do esporte.

A equipe teve feitos grandiosos, como a primeira subida do Pico da Neblina, no município de Santa Isabel do Rio Negro, Amazonas, em 1979. Em 1982 Michel, junto com seu grupo, organizou a primeira expedição brasileira oficial para o Himalaia. Também recebeu a medalha de amigo da Marinha Brasileira, quando apoiou o treinamento dos marinheiros que passavam todo o ano na base Comandante Ferraz, na Antártica.

Michel casou-se, em São Paulo, em 1979. Casamento esse que durou apenas um mês. Pouco tempo, admite, pois as desavenças eram totais. Casa-se novamente, em 1983, com uma baiana que conheceu em São Paulo e com ela teve o seu único filho, que aos dezoito anos sofreu um trágico acidente ao cair de uma cachoeira.

Quando perguntado sobre alguns de seus antigos companheiros da Polônia com os quais ainda teria contato, ele responde que raramente tem essa oportunidade. “Depois da morte do meu filho, há quatro anos, me afastei da vida”. O filho era o único laço de sangue que Michel teve após sua vinda da Polônia, o que desencadeou uma série de problemas emocionais.

Pausa para um café

Através da amizade com Damário da Cruz, nascia a idéia de se criar um sebo. Em 15 de março de 2008, após de três meses em reforma, um casarão na Rua 13 de maio se torna o Sebo Café com Arte. Nesta taberna existe um pouco de arte em tudo, desde quadros de artistas locais à peças antigas e livros raros.

Ultimamente o expresso da melhor qualidade vem sendo servido acompanhado de muito blues e jazz ao vivo, com as apresentações da banda Barba, Cabelo e Bigode, formada a partir de reuniões informais de amigos que se conheceram no próprio Café com Arte.

Michel ressalva que valeu a pena fundar um ponto de cultura mesmo em uma cidade onde a uma parcela da população não teve acesso à educação. “Na última contagem que fiz, tenho mais de dois mil livros vendidos em um ano e sete meses. E o pessoal diz que aqui ninguém lê, imagina?”.

Em um livro de registros de visitantes do local, mais de três mil pessoas, dos mais diferentes lugares, já assinaram. Assim, Michel comprova que seu investimento na leitura e nas artes é um grande passo para uma cidade que valorize mais a sua cultura.

Toni Caldas

15 de dez de 2010

Comidinhas e bebidinhas

Não tinha tatuagem, brinco na orelha, usava uma aliança na mão esquerda, não bebia, não fumava, adorava ambientes silenciosos, vivia com a escova de dente na pasta de couro sempre cheia de livros que carregava e odiava almoçar em restaurantes de comida caseira, por não confiar na higiene. Nada que acusasse o seu passado de desventuras.

A face calma e languida daquele velho não dizia muito, apenas transmitia uma estranha paz a quem o via, andando pelas ruas, sempre em cima da calçada, com medo de ser atropelado. Não desconfiaria nem o mais safo e sagaz investigador que aquele homem sempre de camisa sem dobras ou manchas, óculos de armações delicadas, com os sapatos bem lustrados e um belo relógio no pulso, já foi um dia um tremendo bicho-grilo, desses de beira-de-estrada, pedindo trocados pra voltar pra casa.

Perdido longe dali estavam os seus feitos, anotados em papéis velhos e desbotados, embolorados dentro de livros que não leu por completo, ou mesmo vagando em sua memória, por tantas vezes falha. Eram raras às vezes em que nós conversamos sobre assuntos que não se tratavam de Literatura ou Cinema, e dessa vez ele sentou à porta do bar junto a mim e um grupo de amigas.

– Não sabe o que me aconteceu hoje. – disse o velho, coçando sutilmente a cabeça, como sempre fazia – Vinha num ônibus da capital e saltei em um ponto na estrada que as pessoas daqui dizem ser um perigo à noite, é mole? Eu tive sorte que um casal com um filho pequeno resolveu me dar uma carona até minha casa.

Todos à porta do bar se calaram. Pareceu estranho que aquele intelectual tão venerado por todos ali presente se mostrasse, nu, humano diante de nós, meros marinheiros no mar das letras; arte que ele hoje domina com maestria.

Eu era o único presente que conhecia com detalhes as suas divagações alucinógenas no Raso da Catarina, e como isso o despertou para um novo método de criação, do qual hoje ele se utiliza para a criação de seus personagens e enredos; da sua viagem à Lagarto-SE, onde depois de muitas cervejas com amigos à viajar de carona pelos sertões da Bahia, quando surgiu uma das mais brilhantes idéias que já teve em toda vida; do grupo de exploradores que ele criou, e mais tarde veio a se tornar uma empresa em sociedade com um grande amigo da Chapada Diamantina; das tristezas que tomaram sua antiga casa à beira-mar quando seu querido pai faleceu em um trágico acidente de trânsito.

– Lembrando as aventuras das estradas? – perguntei.

– É... Testando o anjo-da-guarda. Ainda tá trabalhando muito bem, por sinal – e riu como nunca havia o visto gargalhar.

Um sorriso aberto, sincero, como se naquele instante a juventude lhe embriagasse a alma em um lampejo. Pensei então como a vida é interessante: ainda existia algo engraçado ou mesmo atraente para um ser tão experiente e genial como aquele sentado com as pernas cruzadas, ouvindo o que tínhamos a dizer.

O velho levantou-se da cadeira e saiu, logo após o meu último gole de cerveja, caminhando por cima da calçada, desaparecendo na esquina de uma rua qualquer, solitário e sorrateiro como um homem qualquer.

Toni Caldas

11 de dez de 2010

Samba-enredo fraternal

Hoje entendendo, ainda que sem muita certeza, porque o destino fez com que meu pai deixasse seus vinis comigo quando saiu de minha vida. Revirando uma caixa antiga encontrei um velho disco que ele adorava. Com seu cigarro entre dedos ficava lendo o encarte, e com uma voz bem entoada, tentava acompanhar, ou melhor, imitar os vocais.

Escolhi uma faixa aleatoriamente. Era um disco de Adoniran Barbosa, sua última apresentação ao vivo, e ouvi Trem das Onze por horas. Lembrei das raras vezes que ele ficava em casa sentado no sofá fumando ao lado daquele cinzeiro de bronze e só se levantava pra mudar o lado do disco na velha radiola Panasonic. Quando era domingo, e seu irmão do meio chegava lá em casa, ele adorava ouvir Noel e suas lamúrias, Paulinho da Viola com sua voz mansa, Pixinguinha e seu choro, e até alguns sambas dos Novos Baianos.

Sinto-me triste a me ver largado no sofá, fumando e só me levantando pra mudar a música, tal como ele fazia enquanto meu filho brinca no chão da sala como eu. Em conversas com meu tio mais próximo ele conta histórias do tempo de jovem, quando eles saiam à noite e das desventuras, viajando pelo sertão da Bahia. A faixa então acaba, começa Já Fui Uma Brasa, uma das favoritas dele. Ainda recordo das cantorias tortas no banheiro com direito a solinho de violão e tudo.

Ele tinha tudo para ser um cara fantástico e narrar para mim histórias que eu teria orgulho de hoje contar ao meu moleque. Não é porque é meu pai, é por ser o homem quem era: inteligente, criativo e simpático conquistava as mulheres e quem mais quisesse com seu jeitão malandro, inquieto, irreverente... Pelo menos foi assim até um tempo atrás. O disco continua tocando, Despejo da Favela se inicia. Uma faixa que, não sei por que, ele sempre pulava quando ouvia esse disco.

Faz anos não o vejo como "meu pai", se tornou um esquecido, se isolou de tudo e todos como se fosse um clandestino em quem as pessoas já não confiam nenhum tipo de compromisso. "Saudades daqueles tempos, né velho?", o questionei inocentemente um dia, quando nos encontramos em um bar ao som de Cartola.

Ele não me dissera nada, ficou ali calado, girando o copo entre o indicador e o polegar com um sorriso singelo estampado e um olhar distante que parecia ser mudo. "É isso que me mata!", pensei. Ele não diz as coisas, nunca disse e talvez nunca diga. Vai ver por isso se afastou, vai ver por isso quero vê-lo, vai ver por isso ele é meu pai, vai ver por isso herdei os seus discos de antigos sambas: para falarem por ele.

Toni Caldas