15 de dez de 2010

Comidinhas e bebidinhas

Não tinha tatuagem, brinco na orelha, usava uma aliança na mão esquerda, não bebia, não fumava, adorava ambientes silenciosos, vivia com a escova de dente na pasta de couro sempre cheia de livros que carregava e odiava almoçar em restaurantes de comida caseira, por não confiar na higiene. Nada que acusasse o seu passado de desventuras.

A face calma e languida daquele velho não dizia muito, apenas transmitia uma estranha paz a quem o via, andando pelas ruas, sempre em cima da calçada, com medo de ser atropelado. Não desconfiaria nem o mais safo e sagaz investigador que aquele homem sempre de camisa sem dobras ou manchas, óculos de armações delicadas, com os sapatos bem lustrados e um belo relógio no pulso, já foi um dia um tremendo bicho-grilo, desses de beira-de-estrada, pedindo trocados pra voltar pra casa.

Perdido longe dali estavam os seus feitos, anotados em papéis velhos e desbotados, embolorados dentro de livros que não leu por completo, ou mesmo vagando em sua memória, por tantas vezes falha. Eram raras às vezes em que nós conversamos sobre assuntos que não se tratavam de Literatura ou Cinema, e dessa vez ele sentou à porta do bar junto a mim e um grupo de amigas.

– Não sabe o que me aconteceu hoje. – disse o velho, coçando sutilmente a cabeça, como sempre fazia – Vinha num ônibus da capital e saltei em um ponto na estrada que as pessoas daqui dizem ser um perigo à noite, é mole? Eu tive sorte que um casal com um filho pequeno resolveu me dar uma carona até minha casa.

Todos à porta do bar se calaram. Pareceu estranho que aquele intelectual tão venerado por todos ali presente se mostrasse, nu, humano diante de nós, meros marinheiros no mar das letras; arte que ele hoje domina com maestria.

Eu era o único presente que conhecia com detalhes as suas divagações alucinógenas no Raso da Catarina, e como isso o despertou para um novo método de criação, do qual hoje ele se utiliza para a criação de seus personagens e enredos; da sua viagem à Lagarto-SE, onde depois de muitas cervejas com amigos à viajar de carona pelos sertões da Bahia, quando surgiu uma das mais brilhantes idéias que já teve em toda vida; do grupo de exploradores que ele criou, e mais tarde veio a se tornar uma empresa em sociedade com um grande amigo da Chapada Diamantina; das tristezas que tomaram sua antiga casa à beira-mar quando seu querido pai faleceu em um trágico acidente de trânsito.

– Lembrando as aventuras das estradas? – perguntei.

– É... Testando o anjo-da-guarda. Ainda tá trabalhando muito bem, por sinal – e riu como nunca havia o visto gargalhar.

Um sorriso aberto, sincero, como se naquele instante a juventude lhe embriagasse a alma em um lampejo. Pensei então como a vida é interessante: ainda existia algo engraçado ou mesmo atraente para um ser tão experiente e genial como aquele sentado com as pernas cruzadas, ouvindo o que tínhamos a dizer.

O velho levantou-se da cadeira e saiu, logo após o meu último gole de cerveja, caminhando por cima da calçada, desaparecendo na esquina de uma rua qualquer, solitário e sorrateiro como um homem qualquer.

Toni Caldas

2 comentários:

  1. Muito bom a forma descritiva da historia!!
    E q figura enigmatica esse cidadão rs!!
    muito bom!!

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  2. Não se impressione se essa figura um dia for seu professor na UFRB; já tive aulas com ele e foram facinantes.

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