24 de dez de 2010

De lá pra cá por um polonês tupiniquim

Andar pelas ruas de Cachoeira possibilita se conhecer diversos espaços agradáveis, desde suas ruas arquitetônicas aos terreiros de Candomblé, museus e galerias. Mas alguns turistas fazem o trajeto inverso, e trazem para a cidade suas vivências, histórias e, por fim, sua vida.

É o caso de Michel Bogdanowicz, um polonês que há muitos anos se naturalizou brasileiro. O simpático senhor que vive com seu cigarro em mãos, admite não ter uma rotina. “Eu não tenho hábitos permanentes, o que faço depende da época que estou vivendo”, afirma.

Ele nasceu em Cracóvia, cidade situada ao sul da Polônia, no ano de 1947, um período em que seu país passava por uma revolução através das invasões das tropas russas que lutavam pela expansão do comunismo por toda Europa. Filho de Zbigniew Bogdanowicz e Madalena Bogdanowicz, desde cedo lidava com problemas comuns à realidade das crianças da época.

“Quando ia para a escola, apanhava por dizer o que ouvia em casa; ia para casa e meu pai rasgava o livro da escola e jogava pela janela, por não aceitar o que a escola ensinava. Nós crianças não sabíamos o que estava acontecendo, éramos novos demais para entender o problema que nos rodeava”, conta com remorso.

Fazendo as malas

Michel estudou na Academia de Minas e Metalurgia, na Polônia, formou-se e concluiu o seu mestrado na área de Engenharia Metalúrgica, aos 24 anos. Nos dois anos após sua formação na universidade ele aguardava seu visto ser liberado para que pudesse sair do seu país, enquanto presenciava milhares de pessoas serem assassinadas pelos russos.

“A burocracia de saída do país foi tão violenta que tinha até uma lei para ter livre passagem para um navio cargueiro, como eu cheguei ao Brasil. Você tinha que ter o visto, mas para ter o visto você tinha que ter passagem. E como você resolvia isso? Tinha que se pagar fortunas para o responsável pelo passaporte para se receber a passagem. Foi pela corrupção que eu e muitos outros conseguimos fugir, corrompendo as ditas ‘autoridades’”, relata.

Quando questionado sobre qual seria a visão dele a respeito do comunismo, Michel responde de imediato: “Péssima! Condeno não a idéia comunista, mas a realização de um regime extremamente fechado e violento, que valorizou denúncias anônimas sem fundamentos, provocando a morte de pessoas inocentes”. Quando se fala nas piores lembranças da Polônia, em primeiro lugar ele expõe a falta de liberdade em um regime rígido onde a individualidade era destruída.

“Nós não podíamos nos cumprimentar como ‘amigo’ ou ‘colega’, o correto era chamarmos uns aos outros de ‘camarada’, como os russos se cumprimentavam”.

Ele também afirma sentir muita falta das festas e dos amigos da Polônia, que em sua maioria fugiram na mesma época que ele, por volta de 1973, quando ele tinha apenas 26 anos, deixando sua cultura, sonhos, amigos e amores em sua terra natal. “Merda de cachorro na rua tinha cheiro de perfume francês!”.

Com seu humor irônico, Michel descreve a expectativa dos poloneses em relação ao ocidente. Segundo ele, o regime comunista foi tão rígido que, para eles, o mundo ocidental “era uma maravilha”. As dificuldades da vinda ao Brasil começaram na viagem: ele enfrentou cerca de um mês e meio em alto-mar. Michel ainda ressalva que tinha no bolso apenas cinco dólares e que gastou em uísque durante a viagem, certamente na inútil tentativa de aliviar a dor da partida.

Vivendo em terra brasilis

A partir das ligações com o irmão de sua mãe, Jorge Piotrowski, que durante seus primeiros quatro meses no Brasil o sustentou, Michel veio para São Paulo. “Depois me virei fazendo desenhos para uns amigos, dando aulas de física, matemática, sempre com o dicionário do lado, porque não falava o Português ainda corretamente”, diz ele. Como bem sucedido engenheiro metalúrgico, Bogdanowicz trabalhou na antiga AJAX, falida em 1978, que por certo tempo foi a maior empresa da América Latina no ramo da metalurgia, além da famosa Pagani Pinheiro, falida em 1989.

Antes de morar na Bahia, Michel passou trinta e dois anos em São Paulo, conhecendo e convivendo nos subúrbios, entre malandros e prostitutas, os quais mais tarde vieram a se tornar amigos seus, a ponto de freqüentar até casamentos de alguns deles.

“Na virada de ano [de 1973 para 1974], já no Brasil, estava eu chorando na esquina da Ipiranga com a São João e os amigos me ofereciam um ombro e algo para beber, sarar aquela falta que sentia da minha terra”, acrescenta.

Michel veio para a Bahia, em 1983, quando passou um ano em Salvador, trabalhando no Centro Industrial de Aratu, em uma fábrica de esquadrias de alumínio. O intuito de sua vinda foi levantar a empresa que passava por uma crise financeira. “Uma gratificação de cerca de 30 mil dólares, na época”, conta. Depois de receber seus honorários voltou para o sudeste, passou um ano no Rio de Janeiro, e logo em seguida retornou a São Paulo, onde morou até 2007.

Paixões, dores e família

“O Clube Alpino Paulista praticamente me salvou a vida”, diz Michel. O grupo era composto em sua maioria de estrangeiros ou descendentes diretos. Michel sempre escalou durante sua vida, e formou um grupo de alpinistas para retomar a prática do esporte.

A equipe teve feitos grandiosos, como a primeira subida do Pico da Neblina, no município de Santa Isabel do Rio Negro, Amazonas, em 1979. Em 1982 Michel, junto com seu grupo, organizou a primeira expedição brasileira oficial para o Himalaia. Também recebeu a medalha de amigo da Marinha Brasileira, quando apoiou o treinamento dos marinheiros que passavam todo o ano na base Comandante Ferraz, na Antártica.

Michel casou-se, em São Paulo, em 1979. Casamento esse que durou apenas um mês. Pouco tempo, admite, pois as desavenças eram totais. Casa-se novamente, em 1983, com uma baiana que conheceu em São Paulo e com ela teve o seu único filho, que aos dezoito anos sofreu um trágico acidente ao cair de uma cachoeira.

Quando perguntado sobre alguns de seus antigos companheiros da Polônia com os quais ainda teria contato, ele responde que raramente tem essa oportunidade. “Depois da morte do meu filho, há quatro anos, me afastei da vida”. O filho era o único laço de sangue que Michel teve após sua vinda da Polônia, o que desencadeou uma série de problemas emocionais.

Pausa para um café

Através da amizade com Damário da Cruz, nascia a idéia de se criar um sebo. Em 15 de março de 2008, após de três meses em reforma, um casarão na Rua 13 de maio se torna o Sebo Café com Arte. Nesta taberna existe um pouco de arte em tudo, desde quadros de artistas locais à peças antigas e livros raros.

Ultimamente o expresso da melhor qualidade vem sendo servido acompanhado de muito blues e jazz ao vivo, com as apresentações da banda Barba, Cabelo e Bigode, formada a partir de reuniões informais de amigos que se conheceram no próprio Café com Arte.

Michel ressalva que valeu a pena fundar um ponto de cultura mesmo em uma cidade onde a uma parcela da população não teve acesso à educação. “Na última contagem que fiz, tenho mais de dois mil livros vendidos em um ano e sete meses. E o pessoal diz que aqui ninguém lê, imagina?”.

Em um livro de registros de visitantes do local, mais de três mil pessoas, dos mais diferentes lugares, já assinaram. Assim, Michel comprova que seu investimento na leitura e nas artes é um grande passo para uma cidade que valorize mais a sua cultura.

Toni Caldas

2 comentários:

  1. Quando fomos a Cachoeira tivemos oportunidade de ir ao Ana Neri e conhecê-lo. Conversamos um pouco ficamos maravilhados com sua história de vida.

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