11 de dez de 2010

Samba-enredo fraternal

Hoje entendendo, ainda que sem muita certeza, porque o destino fez com que meu pai deixasse seus vinis comigo quando saiu de minha vida. Revirando uma caixa antiga encontrei um velho disco que ele adorava. Com seu cigarro entre dedos ficava lendo o encarte, e com uma voz bem entoada, tentava acompanhar, ou melhor, imitar os vocais.

Escolhi uma faixa aleatoriamente. Era um disco de Adoniran Barbosa, sua última apresentação ao vivo, e ouvi Trem das Onze por horas. Lembrei das raras vezes que ele ficava em casa sentado no sofá fumando ao lado daquele cinzeiro de bronze e só se levantava pra mudar o lado do disco na velha radiola Panasonic. Quando era domingo, e seu irmão do meio chegava lá em casa, ele adorava ouvir Noel e suas lamúrias, Paulinho da Viola com sua voz mansa, Pixinguinha e seu choro, e até alguns sambas dos Novos Baianos.

Sinto-me triste a me ver largado no sofá, fumando e só me levantando pra mudar a música, tal como ele fazia enquanto meu filho brinca no chão da sala como eu. Em conversas com meu tio mais próximo ele conta histórias do tempo de jovem, quando eles saiam à noite e das desventuras, viajando pelo sertão da Bahia. A faixa então acaba, começa Já Fui Uma Brasa, uma das favoritas dele. Ainda recordo das cantorias tortas no banheiro com direito a solinho de violão e tudo.

Ele tinha tudo para ser um cara fantástico e narrar para mim histórias que eu teria orgulho de hoje contar ao meu moleque. Não é porque é meu pai, é por ser o homem quem era: inteligente, criativo e simpático conquistava as mulheres e quem mais quisesse com seu jeitão malandro, inquieto, irreverente... Pelo menos foi assim até um tempo atrás. O disco continua tocando, Despejo da Favela se inicia. Uma faixa que, não sei por que, ele sempre pulava quando ouvia esse disco.

Faz anos não o vejo como "meu pai", se tornou um esquecido, se isolou de tudo e todos como se fosse um clandestino em quem as pessoas já não confiam nenhum tipo de compromisso. "Saudades daqueles tempos, né velho?", o questionei inocentemente um dia, quando nos encontramos em um bar ao som de Cartola.

Ele não me dissera nada, ficou ali calado, girando o copo entre o indicador e o polegar com um sorriso singelo estampado e um olhar distante que parecia ser mudo. "É isso que me mata!", pensei. Ele não diz as coisas, nunca disse e talvez nunca diga. Vai ver por isso se afastou, vai ver por isso quero vê-lo, vai ver por isso ele é meu pai, vai ver por isso herdei os seus discos de antigos sambas: para falarem por ele.

Toni Caldas

12 comentários:

  1. A-DO-REI! Simplesmente... que texto massa Toni! =)
    Acho que sua expressividade no texto denota para mim uma vontade de continuar a ler mais e mais...

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  2. Massa, Toni!! Realmente emocionante, merecia até uma ampliação! rsrs
    Adorei, parabéns pela seleção na bienal!!

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  3. Curioso essa sensação que o texto provocou em alguns de "querer mais". Não sei, acho que o fim se deu de modo muito espontâneo, assim como todo o texto, já que ele contém um pouco da minha vida.

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  4. Vei, muito bom o texto! O texto flui de mansinho e ganha nossa total atenção.

    Quem procura acha.. Parabéns pela Bienal! :D

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  5. Acho que a graça está nesse "gostinho" do final. Talvez uma ampliação deixasse prolixo.

    Adorei. Muito bom!!!

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  6. Toni,

    Parabens pelo prêmio e pela crônica - ou melhor: pela crônica e pelo prêmio, já que este é decorrente daquela, muito justamente, aliás, considerando que se trata de um texto sensível e tocante sem ser escorregar para o sentimentalismo, além de bem escrito.

    Acho boa a ideia de se mexer os pauzinhos para viabilizar sua ida ao Rio. Coloco-me a disposição no que for possível e necessário.

    Você merece, meu caro!

    Grande abraço

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  7. Parabéns pelo reconhecimento e o prêmio! quem diria, hein? rsrs
    Aquele menino tímido q outro dia era um adolescente cheio de espinhas e tentado 'sara-las' estaria assim escrevendo como poeta q é e bem, escrevendo bem demais!
    Deus te abençoe e ilumine seus pensamentos a cada dia para que alcance o que aspira!
    Espero q seja alto... =)

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  8. Excelente Toni....meus parabéns....muito merecido!

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  9. Bravíssimo! Lucas Reis me indicou e admito, com louvores, que li e reli, me identifiquei e vi muito dos nossos pais aqui... parabens pela verve, continue!

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  10. Thialla Invenção24 de outubro de 2011 18:18

    A graça está no final! Fantástico.

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  11. Texto muito bom e muito sensível. Parabéns!

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