25 de dez de 2010

Um menino morreu

Um dia conturbado de uma grande capital qualquer. O trânsito de pessoas alvoroçadas, entrando e saindo das lojas, como se caçassem uma peça única sob as montanhas de produtos não-recomendados para menores de três anos; em menos de um mês quase tudo aquilo que Dona Carmem comprou estaria fazendo companhia aos urubus um lixão qualquer, queimando e emitindo mil gases venenosos, bem perto dali.

Naquele mesmo instante, em uma avenida não muito distante daquele centro de consumo, um homem usando um capacete escuro e pilotando uma motocicleta em altíssima velocidade sobre o asfalto quente, foge com uma arma na cintura, após tirar a vida do pai da pequena Joana. Tudo motivado por um celular ultrapassado e dez reais que comprariam a boneca da garotinha que ainda acreditava no bom velhinho.

Próximo dali ficava um ponto de ônibus, onde todos os dias trabalhadores se dobravam para tomar um ônibus até o tão disputado trabalho. O cafezinho amargo comprado na esquina era o café da manhã nada completo de Seu Josias. Porém nesse dia ele continuou sendo amargo, nada de mais doce ou mesmo um pão para acompanhá-lo por ser uma data especial.

O coletivo se aproxima e correria e o empurra-empurra então começa. Marcos é o mais veloz. Esguio, consegue agarrar o corrimão da pequena escada e com um solavanco tomar o ônibus já exclamando os votos de felicidade a todos pela data especial. De passageiro em passageiro ele leva suas balinhas, que prometem curar o resfriado, prevenir a rouquidão, acabar com a tosse seca e, por mais um pouco, quase são anunciadas como cura pra infelicidade dos dias duros.

José, ainda pagando as balinhas que comprava, recebe uma ligação de sua esposa, que certamente naquele minuto havia acabado de realizar um aborto, o terceiro desde que se casaram. O porteiro de antemão afrouxa a gravata e respira fundo, parece saber que uma notícia vai ter que lhe descer garganta abaixo. Maria, sem rodeios, anuncia naturalmente a grande tragédia da humanidade: “Morto. Não precisei abortar. Nosso filho, o pequeno Jesus, já veio ao mundo sem vida”.

Toni Caldas

4 comentários:

  1. Nossa... que forte o texto. Gostei. Faz com que eu reflita muitas coisas a respeito do Natal, fim de ano e afins... É complicado pensar no Natal hoje... é difícil extrair das centenas de pessoas que conheço o sentido real deste dia.
    O que me parece é que hoje tornou-se sinônimo de cerveja, comilança, presentes caros e nada mais...

    Moço, obrigada pela leitura!
    Beijos no coração, e... não sei se posso, mas Feliz Natal! =) =D

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  2. As vezes em tempo de Natal, as pessoas só tem tempo para olhar os enfeites e barulaques
    Passei aqui lendo. Vim lhe desejar um Tempo agradável, Harmonioso e com Sabedoria. Nenhuma pessoa indicou-me ou chamou-me aqui. Gostei do que vi e li. Por isso, estou lhe convidando a visitar o meu blog. Muito Simplório por sinal. Mas, dinâmico e autêntico. E se possivel, seguirmos juntos por eles. Estarei lá, muito grato esperando por você. Um abraço e fique com DEUS.

    http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

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  3. Sabe que gosto das suas descrições em textos?
    Sãos boas de se ler e recriar na mente.

    Beijoo, Toni!

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  4. Parabéns por saber orquestrar os momentos de leveza com o peso que a estória pede! Bom mesmo.

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