17 de jan de 2011

A arte como forma de re-pressão


A quem possa interessar… ou melhor, aos curadores e organizadores das artes plásticas da Bahia. Venho através desta carta manifestar meu profundo desapontamento com as pessoas que julgam o que é arte e o que não é. Legitimando o que melhor convém seus próprios entendimentos do que seja a arte contemporânea, ou melhor, reforçando antigos e os mesmos valores de sempre.

As premiações da Bienal não são nenhuma surpresa, entra ano e sai ano, os contemplados ou tem algum histórico de premiações em salões, ou são “novas promessas” da Escola de Belas Artes da Bahia. Fico me perguntando se o premiado é o artista ou a instituição, não precisa de muita análise para se perceber este lamentável fato. Os artistas passam a ter mais méritos que a própria obra. Falo da Bienal do Recôncavo, uma das principais instituições contemporâneas de divulgação das artes visuais do estado da Bahia. É mais que notório o descaso com a performance dentro de todo esse contexto.

Primeiro porque desde a criação da Bienal em 1991 até hoje não se conhece nenhuma “premiação máxima” para a performance, o que é de se estranhar muito que em todo esse tempo não se tenha nenhum trabalho digno desse destaque.

Segundo porque fico me questionando quais os critérios para avaliar um trabalho que não foi completamente realizado, pois um dos conceitos da performance é o inesperado e feito no momento presente, o que não se pode ser julgada por um vídeo que tem o objetivo apenas de descrevê-la, enfim são duvidas que gostaria que fossem publicamente esclarecidas.

Mas não para por aí, a mais indignante e escancarada falta de respeito com a performance esta mostrada no dia da abertura da Bienal, que coincide com o dia da premiação das obras, momento de vida máxima da performance, com seus artistas/obras se apresentando no mesmo momento da premiação, me passa a sensação de serem apenas entretenimento!

No momento ápice de poderem mostrar seus trabalhos vivos, toda a atenção das pessoas estão voltadas para saber quem são os premiados. É muito irônico, no lugar consagrado a arte, em que ela é a principal protagonista, não lhe darem a menor importância. É não perceber e entender a efemeridade da performance. Para mim, está claro o entendimento ainda arcaico dos curadores e organizadores de arte da Bahia, que continuam dando a devida atenção e importância a obras engessadas no tempo.

Faço toda essa critica depois de assistir perplexa a X Bienal, que aconteceu no dia 27/11/2010, onde essa insensibilidade da organização ficou, para mim, muito evidente. A performance intitulada “Estética da Via Crucis” da artista Roberta Nascimento, em especial, estava acontecendo e tinha momentos ápices enquanto a maioria das pessoas se encontravam no centro do Dannemann na solenidade de entrega dos prêmios, no meu ver, um grande absurdo, estar diante de uma obra de arte completamente contemporânea, ousada e cheia de força, que muito tem a acrescentar a Bienal e os ali presentes naquele momento não darem o mínimo de atenção a essa obra.

No decorrer da noite ouvi burburinhos por todos os lados, pessoas chocadas e tocadas pela obra. E para variar nenhum prêmio nem destaque para esse grande trabalho.
Li em uma matéria na Tribuna da Bahia, do dia 29/11/10, onde o titulo da matéria é “Vanguarda baiana faz festa da maioridade”, onde cita esse trabalho e o chama de “vanguarda liberta ou sutil” o jornalista Valdemir Santana, diz que a artista “foi um sopro de ousadia como poucas vezes se viu na cultura baiana”.

Mais uma vez, depois de analisar rapidamente as obras premiadas, pude perceber trabalhos interessantes que mereceram o prêmio e outros completamente arcaicos e sem nenhuma carga expressiva, trabalhos que me remetem a coisas antigas, enquanto o novo, não digo só pelo trabalho citado acima, mas por outras performances, fotografias e pinturas, parecem que não são avaliados pela sua força e sim pelos critérios que já citei no inicio desse texto.

Outro ponto que me intriga é o espaço inutilizado do lado de fora, a área aberta do Centro Cultural Dannemann, com grandes muros em branco. Nesse ano pude perceber apenas três trabalhos na parede, o que não equivale nem a 20% do espaço que poderia ser utilizado, foi uma agressão aos meus olhos que vive em pleno século XXI, carregado de imagens da arte urbana que se espalham pela cidade. De trabalhos em grande escala que se utiliza de muros para se expressarem. A Bienal por trazer os conceitos da arte no tempo presente não tem o direito de não contemplar esses trabalhos. O que pude perceber foram paredes mofadas pelo desuso e restos de trabalhos feitos em Bienais anteriores. É com urgência que essas paredes pedem para ganhar vida e contemplar essa categoria das artes plásticas/visuais.

Para não dizer de um trabalho de pintura que reconheci, da Bienal passada, só que agora seus quadros estavam dispostos em uma nova arrumação, dei uma boa risada e falei alto “só se vê na Bahia”.

São confissões desesperadas de uma apreciadora da arte, que percebe a contemporaneidade por nela viver e por não ter medo do que é novo, ou não esperá-lo ficar antigo para ver que é novo. Percebo, com um certo pesar, a dificuldade com que as artes plásticas/visuais tem de assumir a performance, sinto o cheiro do seu preconceito com essa linguagem, o querer defender ou isolar seu espaço dentro das artes no geral e diferenciar a performance das artes visuais, da performance do teatro, da dança e de outras que por ventura exista.

As artes plásticas/visuais têm a tendência a virar museu, ou pelo menos dentro dele ficar ainda por muito tempo, fechada em si mesma como um caramujo. Que medo é esse?! A arte é muito mais que suas diversas expressões artísticas isoladas (linguagens) e sim um campo de conexões onde tudo é bem vindo e vira material criativo, ao invés de propor separações vamos buscar as ampliações, parafraseando um velho e sábio capoeirista que dizia que a capoeira é tudo que a boca come o mesmo é válido para arte.

Espero que essa provocação doa onde tiver que doer, e mostre que tudo que fazemos é carregado de ideologia, e a Bienal do Recôncavo tem dito qual é a sua.

Maria Ginaldeti - apreciadora das Artes

3 comentários:

  1. Interessante! Sem dúvidas uma análise bastante reflexiva a respeito da arte... Algo que me chamou atenção durante algumas viagens foi ver a obra de Marepe (SAJ) numa exposição na Holanda relacionada ao México... Enfim, a arte é arte ou mercado? Arte pra ser arte tem que ser gratuita ou vender arte é certo? Não sei... são indagações que sempre vêm e nunca sei julgar o que realmente seria o coeso...

    Beijos TOni
    =*

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