1 de fev de 2011

Jujubas de uva

Brilhante sob a pequena luz das vitrines. Refletido nos olhos da jovem, lá estava o par de sapatos, para os quais a esperança de ajudar a mãe, perdeu espaço nos sonhos da jovem nas últimas semanas. Não pensou duas vezes: entrou na loja, pediu o número 36 e nem mesmo experimentou. Apanhou a sacola cintilante e acenando com um gesto enojado, deixou a loja e correu para apanhar o coletivo, que logo iria passar.

Os olhos se voltavam para os lados e apreciavam apaixonados um belo automóvel, onde um rico homem quase exalava o seu ar fétido e arrogante, sentindo ali que nada no mundo poderia atentá-lo. A inveja amargava a boca. Do que adiantava saciar a sede de ter nas mãos o par de sapatos, se logo na semana seguinte a nova festa a obrigava a comprar um novo? Tomando os olhos em arranque para um moleque carregando seu baleiro, ela compra então um pacote de jujubas.

Ao longe o coletivo se mostra e toda sua insatisfação de ter que dividir o pouco espaço com outras pessoas, parece se aproximar cada vez mais junto com ele. Apanha o ônibus em arranque e se irrita com a falta de um acento. Tira do pacote uma jujuba de uva e leva-lhe a boca, lembrando da infância, quando, cercada pela publicidade voraz, os sonhos já lhe escravizavam.

Com o olhar fixo em uma das janelas, viu queimando os colchões de mendigos embaixo de um viaduto qualquer. Mas em nada lhe afetava a cena nem mesmo os olhares das mulheres e crianças magras ao ver que o fogo consumia o que aquelas pessoas podiam chamar de cama – e por que não, lar? A jujuba de uva lhe bastava, nada poderia desfazer aquele seu doce instante.

As cenas seguiram ao longo do percurso. Mais fome podia ser notada na face de velhos; mais descaso no homem que fumava crack em um beco escuro; mais farrapos vestiam as crianças no sinal cheirando cola. Contudo, a jujuba de uva lhe adoçava a vida e o egoísmo envolvia sua alma, aquecia contra a frieza do mundo sempre que percebia o sorriso franco e puro da modelo na sacola de suas compras.

Desviou os olhos para trás e não acreditou no que viu. Erra um duro golpe ver nas mãos da mulher sentada uma bolsa em couro legítimo, com seus entalhes dourados chamando toda atenção para o que de mais importante havia nela: a marca da sua grife. Existem coisas para as quais nem uma jujuba de uva consegue evitar que se desvie a atenção.

Toni Caldas

5 comentários:

  1. Amei o texto Tony, não porque reconheça que a tendência de nós mulheres decorrermos nesse grau de egoísmo futil da protagonista é quase que cotidiano, mas porque por vezes "jujubas" e "marcas" adoçam nosso mundo de forma que não percebemos nossa atenção desviando do foco que deveria. Perfeito em detalhes, memorável!

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  2. Muito bom o txt, ainda mais hj que é dia do publicitário!!
    Desde de criança começa a "lavagem cerebral", não que eu seja contra a publicidade, longe disso, mas a forma como é feita é extremamente em prol do alimento do capitalismo. E nenhuma jujuba de uva é capaz de desviar o olhar de uma jovem, que é induzida a sonhar com marcas que trazem a "felicidade", para uma roupa, ou no caso sacola de griff!

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  3. A data em nada influenciou. Mas tá valendo a ótima colocação, Jonas.

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  4. Bom texto.
    Parabens Toni!
    Moni

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  5. "Existem coisas que o dinheiro não compra..."

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