16 de fev de 2011

Cores da favela

Preto, branco, preto, branco, preto... Seguiam os passos da garotinha sob a longa calçada ladrilhada em pedras portuguesas. Àquela hora ela podia caminhar tranquilamente por ali, a grande maioria estava ocupada demais, enfurnada em uma sala com ar condicionado. Enquanto voltava da escola com sua pequena boneca, criava uma fantasia de belas cores e sorrisos onde só havia uma criança faminta debaixo de um saco brilhante de lixo.

Chega então à entrada da favela onde mora e se depara com tropas armadas que subiam e desciam as vielas trajando fardas pretas, que mais lembravam aquele filme de terror sangrento que assistiu numa madrugada chuvosa, sem que a mãe percebesse. Fechou os olhos e desejou com toda sua força que os desparos parassem de ressoar. Em sua imaginação nada daquilo agora existia. Todos os homens maus haviam deixado às ruas da favela.

O vermelho vil que escorria pelos degraus da escadaria, agora estavam estampados em bandeirolas que cortavam o céu azul quase sem nuvens. Podia sentir o perfume amarelo das flores, entregues a mão-cheia pelos homens agora trajando vestes leves e brancas. Ouviu sorrisos rosados onde gritos cinzentos antes fizeram morada. Percebeu que na aquarela da vida existem mais cores que traduzem a felicidade do que a tristesa.

Satisfeita, pode caminhar em saltos despojados. Agora tinha o encanto, a graça e a pureza vívidos e pulsantes em seu mundo de matizes. Todos voltaram a ser criança e podiam caminhar junto a ela sobre aquela calçada, agora multicolorida.

Toni Caldas

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