19 de fev de 2011

Felicidade, cervejinha e carnaval

Logo após viajar no fascinante mundo do artista plástico Tai Guimarães, segui para uma estreita rua próxima ao cais da cidade onde ouvi falar de uma senhora de idade avançada e com uma animação fora do comum. Fiquei muito curioso com o que me aguardava. Entrei na pequena avenida que dava para um prédio ao fundo, mais parecido com um cortiço das narrativas de Aluízio Azevedo.

Uma figuraça apareceu à porta com um sorriso largo e perguntei onde morava Dona Rosa. Ela respondeu que estava falando com a própria, a lenda viva, e me acolhendo em sua humilde casa conversamos bastante sobre a cidade de Maragojipe antes de começar falar sobre ela. Dona Rosa ficou muito intrigada em saber sobre como cheguei até ela. “Faz tempo que ninguém vem aqui me entrevistar. Geralmente só na época de Carnaval que isso acontece”, disse com um riso singelo e uma feição de surpresa.

O relato dela não é mero acaso. Dona Rosa “Carapeba”, como é conhecida pelos moradores da cidade, é uma marca do Carnaval de Maragojipe, que já é tombado pelo Patrimônio Artístico e Histórico com o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade.

Liberdade sem preço

Maragojipana, “nascida, criada e carimbada”, como a própria descreve, Rosália de Araújo nasceu em 27 de setembro de 1916 e assim como as jovens da época trabalhou na empresa Suerdieck de charutos que tinha uma de suas sedes na cidade.

Prezando pela sua liberdade, ela foi noiva um bom tempo da sua juventude, mas abriu mão por não ter ao lado do companheiro a liberdade que queria. Relata em particular que inclusive, fugiu do casamento com desculpas um tanto esfarrapadas, mas jamais se arrependeu de não casar.

A família de Dona Rosa ainda reside na cidade, mas hoje ela mora com a filha de criação, Anísia Araújo. Contradizendo a lógica natural da vida, o improvável aconteceu nesta família: dos quinze irmãos, hoje apenas dois estão vivos, dentre eles Dona Rosa, a mais velha.

Sagrado mês de fevereiro

Quando o assunto é o Carnaval Dona Rosa se levanta da cadeira para relatar: “O Carnaval representa tudo, tudo na vida! É a alegria, a coisa que eu mais gosto”. A felicidade e a disposição são mesmo suas marcas registradas. Uma alma cheia de juventude aflora dentro dessa simpática senhora todos os dias. Um hábito que torna ela ainda mais impar é o costume de pintar os cabelos de várias cores no período carnavalesco. “Por enquanto tá suspenso, mas todo carnaval eu pinto!”. Ela diz também que a tradição tem dois propósitos básicos: enfeitar e “dar na língua do povo”.

Quando lembra os antigos fevereiros, conta com nostalgia que nunca é como antigamente, conta que era mais vivo, mais alegre. Contudo o Carnaval de Maragojipe ainda persiste e é um dos maiores da Bahia, famoso por manter a tradição das marchinhas que tocam em alto-falantes em cada esquina e fantasias inusitadas semelhantes à festa veneziana.

A foliã mais antiga da cidade diz que gosta de todas as músicas que embalam a multidão de travestidos durante o mês de fevereiro, mas entre tantas existe uma que ela diz ter sido escrita pra ela: “Você pensa que cachaça é água, cachaça não é água não... Essa letra serve pra todo mundo, não é mesmo meu filho?”, diz, rindo calorosamente. A velha e boa cervejinha, como a própria costuma chamar, é apreciada por ela até hoje, e não esconde isso de ninguém. “Que mal faz uma loirinha, não é?”

Alegria que contagia

A fama da alegria de Dona Rosa Carapeba não se resume entre os moradores da cidade. Alguns jornalistas que foram à cidade para cobrir os festejos carnavalescos foram bater à porta de do Rosa para entrevista-lá, e isso de fato repercutiu.

Quando lhe pergunto se já foi reconhecida fora de Maragojipe ela me afirma e diz que não foram poucas vezes. “Uma vez eu estava em Salvador, dentro do Elevador Lacerda, e uma menina virou pra mãe e disse: ‘Mamãe, é aquela moça da televisão, é ela! ’. Isso me deixa muito feliz. Onde eu passo deixo meu rastro de alegria!”.

Não é somente a alegria de Dona Rosa que está em excelente estado. A memória desta simpática figura também é invejável e ela revela seu segredo: “Minha memória é muito boa, sim. Lembro de todo mundo que eu um dia conheci. Se você pro exemplo vier aqui de outra vez eu vou lembrar muito bem. A dica é não se preocupar com besteira. Quem muito esquenta a cabeça com essas coisas pequenas se esquece das boas da vida.”

Enquanto encerrava a conversa descontraída e aprendia tantas lições com aquela verdadeira aula de vivência, minha curiosidade não se conteve em perguntar a Dona Rosa o que significava aquela folha que ela tinha atrás da orelha.

“Todo dia de manhã quando vou ao quintal eu tiro essa folha e ponho atrás da orelha. É uma folha de guiné.” Ainda sem entender o motivo lhe questionei o motivo do hábito. Dona Rosa me responde com uma das mãos sobre meu ombro, quase sussurrando, que era o seu amuleto para espantar o mau-olhado, e que esse é um dos ingredientes da receita para viver tantos anos cheia de alegria.

Toni Caldas

2 comentários:

  1. Nossa q legal, Tony, a sua matéria. Engraçado como a gente deixa passar coisas de grande relevância em nossa volta. Eu morrei por vinte anos em Maragogipe e ñ conhecia a Dona Rosa “Carapeba”. Vou observar mais o q rola a minha volta. Viva Ítalo Calvino,com suas Cidades Invisíveis, rsrs. Abraços

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  2. Quem não conhece "Rosa Carapeba" ? Sempre quando a vejo sento para bater uma proza, é tanta coisa que aprendo, ela me reporta a uma Maragogipe que eu não conheci.
    Muito legal a tua matéria,Rosa tem muito mais conhecimento do que certos doutores que andamos lendo.

    Abraços, sucesso !

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