24 de mar de 2011

Dois minutos, por favor?

Diante dos meus pés, pingos da chuva e minhas lágrimas frias tomam conta da calçada. Gota à gota a cinzenta poeira do mundo toma um tom escuro, mórbido. Outras conversas, outros debates tomam corpo. Falas-tortas, sérias, gargalhadas pomposas dos intelectuais, doutores das verdades. Que são eles? Discutem entre o fascismo e stalinismo e sem perceber, se afogam no cinismo.

Referências, reverências, nomes e renomes. Paralelas personalidades, embates sem reais combates. A mesa dos cineastas permanece calma; a dos sociólogos discute o “tá comigo ou tá sem migo”?

Há tempos sentia falta de toda essa baboseira, balbúrdia de pós-graduados. Lembo que minha mãe anda nada conformada com minhas contas, minha namorada então não se conforma com meu sentimento de culpa em me embriagar e me considera um hipócrita.

Marx e a América Latina: Ora, que debate promissor! Chegaremos onde todos tem suas razões e os fracos não tem vez. Cristãos comunistas? Faz-me rir! Um comitê central descentralizado e pobre em riqueza de novidades. Dogmáticos até a alma.

Séries de ideias, sons, imagens, doses e um tanto mais. Ratos que levam, da taberna para as tocas, as migalhas de intelectualismo. Lá dentro há docas, preâmbulos de navegantes sem navio ou terra à vista. Sem rasuras o náufrago dentro da garrafa, lança cartas aos céus, mar e sombra, Guarda-chuvas de memória. Escroto, catarro, e políticas sociais: palavras nada convenientes para encontros formais entre economistas e políticos.

Contudo, o aviãozinho de papel atravessa o salão; nele está repouso e despreocupado o único louco que se arrisca a voar em meio ao hall da sapiência. A aglomeração começou, e enquanto eles riem com Nelson Rodrigues e eu volto pra casa e ouço um velho disco de Tom Zé.

Toni Caldas

9 de mar de 2011

Entre diálogos com Scarton

Aqui estamos novamente: um cômodo de paredes brancas, um lustre com entalhes de cristal, uma réplica da Vênus de Miló em óleo sobre a tela e uma e estante tomada por livros que continham as verdades. Novamente, ainda não sei onde essa conversa irá me levar. O salário já era o que menos preocupava.

Uma garrafa de uísque vazia pesava mais do que um mês de discussões com minha esposa. Parecia tudo mais claro antes de começar a ler Proust, Nietsche, Baudrillard, e seus companheiros em desgraça, em questionamentos existencialistas, afogados em seu pessimismo empírico. E eu ainda não sabia onde essa conversa iria me levar.

Scarton sempre foi muito compreensivo. Aguardava sempre os quinze, não mais que vinte minutos que eu passava olhando fixamente para os cristais do lustre filtrando o raio de sol que penetravam a sala como uma lâmina. Minha vontade de escrever e falar eram constantes, mas quando devia mergulhar nas palavras me faltava ao menos uma gota.

Podia ouvir a correnteza chegando. Era como se me aproximasse da cascata de idéias que estavam por desaguar dentro de mim. "Quatro, três, dois, um"... Contava mentalmente até sair do rio de águas mansas e dar vazão àquela cachoeira de falas-tortas dentro de um barquinho de papel, onde um dia escrevi uma carta de amor, frágil, que acompanhava o declive das águas violentas em um ritmo alucinante. As palavras duras e cortantes saltavam de dentro das águas, vinham com dentes e asas vorazes, como serpentes aladas, desejando me vitimar por um dia ter as libertado de minha mente. Antes fazia isso ao escrever, hoje faço isso na sala de Scarton. Mas ele nunca vai entender.

O cenário modifica-se como um lampejo: estou agora em uma arena de combate. Lembrava-me um filme que um dia assisti sozinho, enquanto chovia. Os portões então se abrem. Leões ronronam como gatinhos. O que está acontecendo? Por que feras estão sendo tão dóceis? Viro-me e vejo a silhueta de um ser aterrorizante. Era a Liberdade: cabeça de serpente, corpo de mulher, asas angelicais e braços rijos de metal. Ela vinha em minha direção e me cobrava a minha conquista. Dizia-me que eu agora era seu escravo, e não o contrário. Bradava aos quatro ventos que ela nunca seria de ninguém, mas todos um dia seriam dela. Sintetizava assim a ordem natural da vida: caminhamos todos para uma liberdade individual que tende a nos aprisionar em nossas culpas e apelos.

Essa poderia ser a última vez que eu iria ver aquele rosto pálido, de olhos fundos, barba longa e grisalha. Ao fim, o relatório da última visita aponta o parecer: tratamento químico imediato ou lobotomia. A caneta dourada discriminou com letras legíveis o meu fim. Saltar a janela ou aceitar sobreviver como um ser rastejante? A escolha não me deixava saída: ambas eram caminhos de pedras para a morte. Mas finalmente encerramos as sessões psiquiátricas...

Toni Caldas