9 de mar de 2011

Entre diálogos com Scarton

Aqui estamos novamente: um cômodo de paredes brancas, um lustre com entalhes de cristal, uma réplica da Vênus de Miló em óleo sobre a tela e uma e estante tomada por livros que continham as verdades. Novamente, ainda não sei onde essa conversa irá me levar. O salário já era o que menos preocupava.

Uma garrafa de uísque vazia pesava mais do que um mês de discussões com minha esposa. Parecia tudo mais claro antes de começar a ler Proust, Nietsche, Baudrillard, e seus companheiros em desgraça, em questionamentos existencialistas, afogados em seu pessimismo empírico. E eu ainda não sabia onde essa conversa iria me levar.

Scarton sempre foi muito compreensivo. Aguardava sempre os quinze, não mais que vinte minutos que eu passava olhando fixamente para os cristais do lustre filtrando o raio de sol que penetravam a sala como uma lâmina. Minha vontade de escrever e falar eram constantes, mas quando devia mergulhar nas palavras me faltava ao menos uma gota.

Podia ouvir a correnteza chegando. Era como se me aproximasse da cascata de idéias que estavam por desaguar dentro de mim. "Quatro, três, dois, um"... Contava mentalmente até sair do rio de águas mansas e dar vazão àquela cachoeira de falas-tortas dentro de um barquinho de papel, onde um dia escrevi uma carta de amor, frágil, que acompanhava o declive das águas violentas em um ritmo alucinante. As palavras duras e cortantes saltavam de dentro das águas, vinham com dentes e asas vorazes, como serpentes aladas, desejando me vitimar por um dia ter as libertado de minha mente. Antes fazia isso ao escrever, hoje faço isso na sala de Scarton. Mas ele nunca vai entender.

O cenário modifica-se como um lampejo: estou agora em uma arena de combate. Lembrava-me um filme que um dia assisti sozinho, enquanto chovia. Os portões então se abrem. Leões ronronam como gatinhos. O que está acontecendo? Por que feras estão sendo tão dóceis? Viro-me e vejo a silhueta de um ser aterrorizante. Era a Liberdade: cabeça de serpente, corpo de mulher, asas angelicais e braços rijos de metal. Ela vinha em minha direção e me cobrava a minha conquista. Dizia-me que eu agora era seu escravo, e não o contrário. Bradava aos quatro ventos que ela nunca seria de ninguém, mas todos um dia seriam dela. Sintetizava assim a ordem natural da vida: caminhamos todos para uma liberdade individual que tende a nos aprisionar em nossas culpas e apelos.

Essa poderia ser a última vez que eu iria ver aquele rosto pálido, de olhos fundos, barba longa e grisalha. Ao fim, o relatório da última visita aponta o parecer: tratamento químico imediato ou lobotomia. A caneta dourada discriminou com letras legíveis o meu fim. Saltar a janela ou aceitar sobreviver como um ser rastejante? A escolha não me deixava saída: ambas eram caminhos de pedras para a morte. Mas finalmente encerramos as sessões psiquiátricas...

Toni Caldas

5 comentários:

  1. Queria falar, talvez mas do que o que me vem a cabeça agora, queria muito elogiar e dizer o quanto sonho a chegar perto do talento do meu veterano, mas por hora na minha cabeça passa um verso d'uma música de Jota Quest: "A nossa liberdade é o que nos prende". Cmo isso é tão complexo quanto nossa capacidade de auto-analise, fico feliz por ter conseguido ler de uma forma simplesmente minuciosa! :D

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  2. Como descrever tal Liberdade, outrora tão desejada se no presente já se apresenta muito distante do amanhã...simbolizando a essencia da alma a busca constante da Felicidade que vem junto com essa dita Liberdade, vasculahndo nosso Eu, preenchendo nosso todo. Vc capitou essa aurea no mais intino do seu ser.Privilegiado és tu Tony, que nos transporta a tamanho sonho balsâmico de Paz e Loucuras.

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  3. Só me veio a música de Alma D'jem na cabeça, sabe? Sem mais delongas, eu nem sei o que dizer. Deixarei a música falar por mim:

    "tudo que aprendo com você devia bastar
    mas não sei porque essa necessidade de andar assim tão só
    não pense que meus sentimentos sejam banais
    nem pense que deixei nosso amor
    pra trás mas é tanta coisa acontecendo que eu não sei parar
    quando mais se
    prende mais pra longe vai quanto mais se solta mais a gente atrái
    quando já se tem às vezes nem se olha mais"

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  4. muito bom toinho
    esse texto me leva a uma realidade minha distante
    não adianta ler Nietsche se vc não assumi a sua loucura
    "tentar ser normal é um prato cheio para a anormalidade"
    forte abraço!!!

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  5. Grato pelas avaliações. Particularmente, esse texto me lembra o grande Dylan, em sua canção 'Ballad Of A Thin Man'. Vale a pena reler o texto pausadamente, acompanhado o ritmo alucinante da música. É esteticamente dramático, mas não teve nenhuma influência sob a construção desse texto (não que eu me lembre...)

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