30 de abr de 2011

Barba, cabelo, bigode e um dedo de prosa com Bezerra

Em um canto do salão, ao lado da banca de Jogo do Bicho, Seu Josué lê atentamente o jornal, quando Mastigado, a figura lendária que perdeu a dentadura no Rio Paraguaçu, desponta na porta chamando atenção de todos. “Cheguei, viu! Hoje eu vim pra sair daqui bonito, tá ouvindo?”.

Sem demora, uma voz que vem do fundo responde o estardalhaço. “Pois dê meia volta que o terreiro é lá do outro lado. Vá chorar no pé do Caboclo pra ver se dá jeito nessa sua cara de sapo com epilepsia!”, retrucou Bezerra, proprietário do Salão Glória, a mais antiga barbearia da cidade.

Localizado na esquina da Travessa Adrião com a Rua Prisco Paraíso, no centro de Cachoeira, o local é um dos mais tradicionais pontos de encontros dos moradores. Um lugar tomado por entalhes curiosos que vão desde as plantas que dão vida ao espaço, aos calendários de anos passados com mulheres nuas. “As plantas são porque eu queria fazer disso aqui um lugar mais verde. Os calendários ficam aqui porque a modelo não merece ir pro lixo. Sabe como é, né?”, descontraí Bezerra enquanto faz a barba de um cliente, que se envolve com a entrevista: “Depois de mulher só mão de barbeiro que alisa cara de macho”.

O entra-e-sai de pessoas é constante. Mas quem pensa que todos querem cuidar do visual, se engana. Todas as manhãs, Bezerra compra pelo menos dois jornais diferentes. O revezamento da leitura das notícias é constante. “Não sei se eu fico sabendo mais coisas pelo jornal ou se é pela boca de quem passa por aqui”, confessa um dos assumidos frequentadores do espaço.

A direção do Salão Glória foi assumida por Bezerra em julho de 1984. De lá pra cá, muita coisa mudou, mas a barbearia continua renomada e conhecida como a mais antiga da cidade. “O antigo proprietário, Ananias Barbeiro, assumiu esse espaço bem antes de mim. Sem exagerar, com ele foram 60 anos de barbearia. Com mais esses meus quase trinta anos, o Salão Glória já é quase secular!”, relata calculando nos dedos a soma imprecisa.

Quando questionado sobre figuras mais ilustres que já passaram por ali, seja para fazer uma aposta no Jogo do Bicho, cuidar do visual ou mesmo folhear um de seus jornais, Bezerra tenta enumerar, mas desiste. “É muita gente pra uma memória só! É melhor nem comentar pra não esquecer de alguém que mereça ser citado. Tem aqueles que já vieram aqui apenas uma vez, mas tem os diários que tem seu valor de ilustre”, pondera.

Sua simpatia e bom humor são constantes. No meio da entrevista, por vezes Bezerra fazia um trocadilho daqui, um provérbio dali. “Ô cara de cobra, não fique olhando no espelho não! Se você quebrar com essa sua cara-feia vai me dar um novo, ouviu?”.

Nascido em Conceição da Feira, em 1984, Bezerra recebeu o título de Cidadão Cachoeirano, por sua popularidade. Devoto do misticismo religioso, em seu salão possui emolduradas diversas imagens de santos católicos e também entidades do culto afro. Assim como estas, estão expostas também fotografias e pôsteres antigos de times de futebol, sua grande paixão.

Há 32 anos, Bezerra é o presidente do Clube da Amizade, grupo de amigos cachoeiranos que se reúnem em torno do futebol. Com mais 20 troféus de campeonatos locais e regionais expostos em prateleiras por todo espaço, ele conta que todos ficaram com ele, pois a associação nunca teve uma sede.

Mas há algo instiga nessa combinação curiosa: os rivais cariocas, Vasco e Flamengo, dividem a mesma parede. “É que eu sou Vasco, sabe? O problema é que Budião, esse camarada que corta cabelo aqui comigo, é rubro-negro. Fazer o que se ele quer sofrer?”, responde lamentando a preferência, cheio de humor.

Toni Caldas

17 de abr de 2011

Cinco de outubro

Rodopiava dançando, cantava as nuances do seu vestido colorido. Assumia à sua alma o que ela tinha de infantil, liberta e capaz de desatar o nó sufocante no qual, de quando em quando, se via embaraçada.

Nada mais era que um simples pedaço de tecido em cores diferentes, costuradas com afeto, como se tivesse sido feito na medida para seu corpo, um caimento perfeito, um traço que negava qualquer outra textura que não fosse a da sua pele morena.

O peso das sandálias, do cuidado quase excessivo – ou seria mesmo excessivo? – e de toda aquela atenção necessária para sua sobrevivência em família nunca anunciaram, mas um dia lhes faria falta.

Certa feita ela lembrou. Quando se viu estava longe demais, seu peso já havia sido dispersado, queria poder desejar de volta o que sempre se negou a ter prazer.

Mas o vestido colorido lhe tomou corpo, a liberdade agora era ela, sua pele agora eram as listras coloridas. Agora era hora de voar. Seu ninho teria que ser construído na viagem, e quem sabe levado em alguma sacola.

Toni Caldas

10 de abr de 2011

Águas de imaginação

Marcos veste-se, Das Dores prepara o café sob a luz amarelada da pequena sala, os filhos ainda dormem. São dois, mulatos como os pais, Adriel e Natiele, deitados na cama larga, em diferentes direções. A vida de pescador não era nada fácil. As redes já não rendiam tanto quanto antes e era preciso cada vez mais tempo no mar. Marcos mal tinha olhos para o seu canário.

Adriel sempre queria acompanhar o pai na jornada árdua. Quando Marcos levantava lá estava ele, pronto para entrar no mar em busca da vida que nascia naquela que morria. Sempre acompanhado do seu pequeno remo, o pequeno insistia todos os dias. Mas ele tinha apenas cinco anos, cedo demais para uma criança enfrentar a dureza daquela labuta.

O pai então seguia para o cais onde encontraria outros homens que, quase sempre, também deixavam suas famílias em casa. Mas a vontade infante ia além. Quando lhe perguntavam sobre aquele pequeno remo de madeira sob um dos ombros, Adriel respondia com sua voz inocente: “Esse é o brinquedo que eu mais gosto...”.

O brinquedo favorito... O que isso representa em pleno século em que vivemos, uma era tomada pelas inovações, onde adultos e, de modo preocupante, crianças são alvejadas intensivamente pelo apego ao consumo?

Seria aquele pequeno objeto de madeira capaz de conduzir aquela criança ao inimaginável e mais profundo fluxo da sua fantasia, tal qual os remos transportam os navegantes ao desconhecido?

Teriam as crianças das grandes cidades, perdido completamente aquele poder fascinante que ali se demonstrava? A guardiã dos segredos do mundo, dos sonhos mais incríveis, das maiores aventuras, das palavras intraduzíveis, dos medos incompreensíveis... Teriam elas perdido a essência da infância?

O que de certeza existia naquelas indagações, era que Adriel jamais negava a sua alma infantil e assanhada a felicidade de se deparar com o mar. Ele ainda não sabia exatamente como, nem mesmo por que, mas o elo dele com o mar era a chave para se desvendar a sua verdadeira face. Uma passagem para um novo plano de tempo, espaço, ritmo, formas e cores.

Os momentos a beira-mar em meio a mergulhos, gargalhadas, brincadeiras e um sal que temperava o olor das manhãs, eram para aquele garoto, ao mesmo tempo, uma nesga do mundo que encontraria indo para alto-mar e um universo que não poderia ser baldeado, tal como a imensidão azul.

Mas o tempo é indomável e folia insiste em se esgotar. Voltando da pescaria, exausto e sem peixes em sua rede, Marcos, estampando o desânimo, apanha o filho pela mão e o pergunta: Conseguiu encontrar os peixes com seu remo mágico?

Adriel acena com a cabeça e um sorriso rasgado que não deixam dúvidas do quanto sua manhã foi faceira. “Amanhã você pega ele pai. É que hoje o mar não tava pra gente grande”.

Toni Caldas