10 de abr de 2011

Águas de imaginação

Marcos veste-se, Das Dores prepara o café sob a luz amarelada da pequena sala, os filhos ainda dormem. São dois, mulatos como os pais, Adriel e Natiele, deitados na cama larga, em diferentes direções. A vida de pescador não era nada fácil. As redes já não rendiam tanto quanto antes e era preciso cada vez mais tempo no mar. Marcos mal tinha olhos para o seu canário.

Adriel sempre queria acompanhar o pai na jornada árdua. Quando Marcos levantava lá estava ele, pronto para entrar no mar em busca da vida que nascia naquela que morria. Sempre acompanhado do seu pequeno remo, o pequeno insistia todos os dias. Mas ele tinha apenas cinco anos, cedo demais para uma criança enfrentar a dureza daquela labuta.

O pai então seguia para o cais onde encontraria outros homens que, quase sempre, também deixavam suas famílias em casa. Mas a vontade infante ia além. Quando lhe perguntavam sobre aquele pequeno remo de madeira sob um dos ombros, Adriel respondia com sua voz inocente: “Esse é o brinquedo que eu mais gosto...”.

O brinquedo favorito... O que isso representa em pleno século em que vivemos, uma era tomada pelas inovações, onde adultos e, de modo preocupante, crianças são alvejadas intensivamente pelo apego ao consumo?

Seria aquele pequeno objeto de madeira capaz de conduzir aquela criança ao inimaginável e mais profundo fluxo da sua fantasia, tal qual os remos transportam os navegantes ao desconhecido?

Teriam as crianças das grandes cidades, perdido completamente aquele poder fascinante que ali se demonstrava? A guardiã dos segredos do mundo, dos sonhos mais incríveis, das maiores aventuras, das palavras intraduzíveis, dos medos incompreensíveis... Teriam elas perdido a essência da infância?

O que de certeza existia naquelas indagações, era que Adriel jamais negava a sua alma infantil e assanhada a felicidade de se deparar com o mar. Ele ainda não sabia exatamente como, nem mesmo por que, mas o elo dele com o mar era a chave para se desvendar a sua verdadeira face. Uma passagem para um novo plano de tempo, espaço, ritmo, formas e cores.

Os momentos a beira-mar em meio a mergulhos, gargalhadas, brincadeiras e um sal que temperava o olor das manhãs, eram para aquele garoto, ao mesmo tempo, uma nesga do mundo que encontraria indo para alto-mar e um universo que não poderia ser baldeado, tal como a imensidão azul.

Mas o tempo é indomável e folia insiste em se esgotar. Voltando da pescaria, exausto e sem peixes em sua rede, Marcos, estampando o desânimo, apanha o filho pela mão e o pergunta: Conseguiu encontrar os peixes com seu remo mágico?

Adriel acena com a cabeça e um sorriso rasgado que não deixam dúvidas do quanto sua manhã foi faceira. “Amanhã você pega ele pai. É que hoje o mar não tava pra gente grande”.

Toni Caldas

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