8 de mai de 2011

Tinta fresca em quadros de manhãs

Certa manhã acordei sem sonhos púrpuras. Naquele dia um sol azul embebedou minha alma sem receios, com bocejos de amor e rascunhos de saudades que queria enviar para ela, do outro daquela ponte nublada. Guardadas dentro de coleções de livros em capa dura, em um jardim de folhas cor de açai, algumas flores murchas ainda sorriam e dançando deixavam correr pelo corpo o seu orvalho.

Era uma paura sem-cor. Despertar com o amarelo não era o que esperava, quando vinha tendo dias em tons pastéis. Como um sussurro, um pé-de-vento lilás invadiu a cozinha, rodeou o fogão à lenha, circulou pelo estreito corredor, adentrou o meu quarto levando da escrivaninha cor de acaju uma carta vermelha ainda não selada. Desceu as escadas levando consigo o envelope para o outro lado da ponte, por entre uma neblina rosada.

Agora voltei a dormir, afim de reencontrar o caminho secreto das lindas cores carregadas para as mãos perfumadas daquela mulher. Enquanto isso seca o guache em minhas telas e o nanquim nos lençóis dela, impreguinados com o perfume das flores noturnas, antes amordaçadas nas capas duras da minha velha coleção de livros...

Toni Caldas

4 de mai de 2011

Obsceno no agir, no falar e no pensar

Minha primeira impressão era de que a entrevista marcada para aquele domingo à tarde tinha tudo para transcorrer bem. Cheguei atrasado – cerca de três horas depois do combinado – e acabei encontrando Zé Inagcio de ressaca e acabando de acordar. “Porra, não você disse que vinha meio-dia, cara?”, questionou a figura tatuada no rosto com a imagem de um dragão e um símbolo japonês. Sem rodeios, resolvemos tudo e marcamos na tarde do dia seguinte. Dessa vez o encontro foi pontual.

José Ignacio Souza de Oliveira, não sabe ao certo porque seu nome é de grafia hispânica. Filho único e nascido em Cachoeira, Zé Ignacio, como é popularmente conhecido, inicia a entrevista comentando sem receios a sua idade. “Não tenho síndrome de Peter Pan pra negar a lógica natural da vida. Tenho 57 anos e em outubro fico mais velho, isso é fato!”.

Da timidez à liberdade

No início da juventude, Ignacio se mostrava introvertido, sendo alvo de brincadeiras entre os amigos. Costumava andar sozinho, mas também não nega que aprontava das suas quando se via desacompanhado.

Ele viveu em Cachoeira até 1973, quando foi para Salvador por conta de sua aprovação na antiga Escola Técnica Federal da Bahia: esse é o momento em que sua timidez se perde e nunca mais é encontrada, nem por ele mesmo.

Em 1976, passou a trabalhar no Pólo Petroquímico de Camaçari, como operador de processos petroquímicos. Amante da noite, costumava aproveitar os bares da capital ao lado de alguns amigos, com os quais dividia um pensionato no bairro do Rio Vermelho e a conta das cervejas ao final da noite.

Passando por cinco casamentos e com quatro filhos, olhando para trás Zé Ignacio conta que não houveram “as melhores lembranças”, a juventude por inteiro é a sua melhor lembrança.

Ainda tentando ir mais fundo, pergunto “se você pudesse voltar atrás o que faria de no...” e ele responde, presumindo o fim da frase: “Eu fazia tudo aquilo que eu não fiz, e acabou! Arrependimento só das coisas que eu não fiz, e o que eu fiz eu faria dobrado”, responde sem receios.

Juventude sem rédeas

A maturidade precoce é para ele um marco na sua formação. Seu avô, que como ele, se tornou independente ainda muito jovem, foi quem o criou apesar de morar com seus pais. “Era conhecido em Cachoeira como ‘homem do menino’, eu convivia muito com ele”, conta mascando seu chiclete de canela.

Zé Ignacio sempre ouviu muita música, mas foi o Rock’n Roll que lhe fez refletir a vida de uma forma ainda mais profunda. “Rock não deixa lição, ou você nasce ou não nasce. Você ouve e vive, é uma atitude”. Em 1975, os amigos Cacau Nascimento (bateria); Nengo Vieira (guitarra), Caveira (contrabaixo), Vicente, Enéas e Zé Ignacio (vocais) resolvem formar a polêmica banda, Barquinha do Rock & Frevo. “A gente pegava a música que fosse a transformava em Rock, bicho. Era uma loucura, a gente botava pra quebrar mesmo”, enfatiza acendendo seu Hollywood.

Além da música, o Cinema e a Literatura são seus outros apegos. “Gosto do suspense, tem que ter adrenalina na obra, seja na música, na literatura ou no cinema. Hitchcock, Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft, Alan Parker, Stephen King...”, relata, enumerando também os filmes e livros preferidos.

Tudo sob controle

Quando o tema é a juventude atual, Zé Ignacio não tem freios em criticar: “Um bando de pau-no-cú! Pau-no-cú mesmo, velho! Gente que caiu na pior escravidão que existe: a intelectual. Porra, ninguém quer nada com a educação, vai querer com mais o que? Eu voltei a estudar faz três anos, me formei ano passado. A escola tá aí, com erros pra caralho, mas quem quer mesmo vai em frente! Mas o golpe militar de 64 também ajudou pra essa miséria toda. Eles foram mais uns covardes, fizeram isso por que gente pensando é um perigo, bicho!”, relata com tom de revolta, arqueando as sobrancelhas por trás dos óculos escuros.

Entre alguns cigarros e muita conversa, Zé Ignacio se revelou um homem cético e lúcido. Provoco então, questionando se ele acredita no segredo do universo e ele faz sua consideração: “Deus, você quer dizer? O materialismo dialético nunca me brecou em nada. Eu não acredito nesse deus que tentam vender por aí. Mas que tem uma partícula muito grande no cosmo, criadora, isso existe”.

Reforço então, buscando saber o que ele acha das verdades absolutas: “Esse conceito hoje é vendido de um jeito tão canalha, sabe? Em minha opinião, a convenção é uma verdade absoluta, mas produzidas por discursos dominantes, sem espaços pra discordar. Então a verdade absoluta não anda morta, como alguns dizem. É preciso enxergar que tem muita coisa velha com cara de nova em nossa volta".

Toni Caldas