8 de mai de 2011

Tinta fresca em quadros de manhãs

Certa manhã acordei sem sonhos púrpuras. Naquele dia um sol azul embebedou minha alma sem receios, com bocejos de amor e rascunhos de saudades que queria enviar para ela, do outro daquela ponte nublada. Guardadas dentro de coleções de livros em capa dura, em um jardim de folhas cor de açai, algumas flores murchas ainda sorriam e dançando deixavam correr pelo corpo o seu orvalho.

Era uma paura sem-cor. Despertar com o amarelo não era o que esperava, quando vinha tendo dias em tons pastéis. Como um sussurro, um pé-de-vento lilás invadiu a cozinha, rodeou o fogão à lenha, circulou pelo estreito corredor, adentrou o meu quarto levando da escrivaninha cor de acaju uma carta vermelha ainda não selada. Desceu as escadas levando consigo o envelope para o outro lado da ponte, por entre uma neblina rosada.

Agora voltei a dormir, afim de reencontrar o caminho secreto das lindas cores carregadas para as mãos perfumadas daquela mulher. Enquanto isso seca o guache em minhas telas e o nanquim nos lençóis dela, impreguinados com o perfume das flores noturnas, antes amordaçadas nas capas duras da minha velha coleção de livros...

Toni Caldas

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