28 de jun de 2011

Mulher-macho, sim senhor...

A famosa canção de Luiz Gonzaga sempre me intrigou em saber o motivo da expressão “Paraíba masculina, mulher-macho sim senhor”. Caminhei pelas ruas de João Pessoa, subindo e descendo de ônibus em busca de uma resposta. A primeira me foi dada por um historiador que me relatou a vida da personagem Anayde Beiriz, mulher que escandalizou a sociedade paraibana com seu vanguardismo nas décadas de 1920 e 1930.

De certo que essa explicação saciaria a curiosidade de muitos, mas não me conformei e fui além. Quase desistindo retornei para a pousada onde estávamos hospedados, acreditando ser somente aquele o motivo da expressão.

Mas o acaso estava do meu lado: dobrando uma esquina no Bairro de Tambaú, me deparei com a figura nada comum de uma mulher trajando uma velha bermuda jeans, com o pé direito enfaixado por um curativo e ainda assim pedalando uma bicicleta carregada com dois galões de água em meio ao trânsito de fim de tarde.

Em uma conversa rápida, enquanto aguardávamos o sinal de trânsito abrir, ela me contou brevemente sua vida. Rosana da Silva é paraibana ‘arretada’, como ela mesma se apelida, flamenguista e deficiente visual de um olhos. Ela me conta que está trabalhando com as entregas de galões água e gás de cozinha a uma semana, mas que já vem gostando do seu novo emprego.

Rosana não concluiu os estudos quando jovem e hoje, aos 29 anos, estuda à noite para recuperar o tempo perdido cursando o ensino médio. Ela conta que antes trabalhava como empregada doméstica, mas deixou por ganhar muito pouco. “Perdi minha mãe faz uns meses e preciso ajudar meus dois irmãos, sou a mais velha. Se os homens não querem o trabalho eu vou lá e agarro!”, conta com entusiasmo.

O mesmo ânimo desaparece na forma de um olhar cansado quando me conta que faz cerca de 40 entregas por dia e ainda enfrenta certo preconceito por ser mulher e trabalhar desse modo. “Às vezes os porteiros estranham em ver uma mulher fazendo isso. É duro, mas se a vida me ofereceu isso eu sigo feliz, fazendo minhas entregas e sorrindo quando dá tempo. E por falar nele, me deixa ir que estou atrasada”.

Toni Caldas

3 de jun de 2011

Um capitão e seu navio pirata de boas piadas

Desde os primórdios, os nobres navegantes temiam a ação de bandos de saqueadores armados que tomavam as riquezas de seus navios. Você já deve saber que estamos falando da Pirataria. De lá pra cá, as ondas e as armas mudaram: a frequência agora é sonora, mas a linha nobre ainda continua vendo a Pirataria com maus olhos – prova disso é o título que a prática recebe.

As feiras populares, esquinas e camelôs estão tomados por estes vendedores, tidos como foras-da-lei modernos. Em Aracaju, um desses sujeitos resolveu então içar velas e levar seu navio pirata pelas ruas, anunciando sua chegada em alto e bom som.

Carlos Alberto é um vendedor de CDs que há seis anos atua no mercado dos discos piratas de piadas nordestinas. Mas sua atividade não se limita a capital sergipana. “Recife, Natal, Salvador, Fortaleza e outras cidades também do interior. Todas essas eu já passei vendendo esses CDs”.

Vestido à vontade – de bermudão, regada e chinelo – e munido de dezenas cópias, uma caixa de som amplificada, um carro de mão, ele transita pelas principais vias das cidades onde passa e conta que tem sucesso em suas vendas – o que, ironicamente, lembra um navio pirata com seu canhão, artilharia e capitão no comando do curso.

Segundo ele, a média de vendas fica em torno dos 120 e 150 discos nos dias de bom movimento. O preço de cada um? “Dois mirêis”, ele responde. O repertório é escolhido por ele mesmo, que tem inclusive uma lista dos mais pedidos. “Trabalho principalmente com Belo Beleza, Zé Lezin, Mução, Tonho dos Couros, Caju e Castanha, Caçarola. Todos esses já famosos até na televisão”.

Carlos Alberto conta com humor que lida com a ilegalidade há tempos. Antes de vender CDs piratas era supervisor do Jogo do Bicho, mas deixou de lado quando descobriu seu atual ofício. “Não tenho dúvidas que esse é o melhor trabalho do mundo. Sou feliz assim, rindo e fazendo o povo rir com os discos de piadas da nossa terra”.

Toni Caldas

Na gandaia das ondas onde descansa a alma

A alameda de amendoeiras de Tambaú revela o deslumbrante cenário de uma das mais belas praias de João Pessoa. Caminhando entre ela era possível se avistar o cansaço da chegada e a esperança na partida dos pequenos barcos que atracavam ali. A força nas mãos que arrastavam as redes para os galpões, o som das pequenas ondas da praia e o cheiro misto de sal e areia que vinha dos galpões, revelavam sinais de um cenário de trabalho árduo e beleza.

Entre aquele espetáculo, a pele queimada de sol, as mãos marcadas por cicatrizes e a habilidade ao desembaraçar as redes, não negavam a experiência daquela figura que me chamou atenção.

Sem querer atrapalhar seu trabalho, começamos uma conversa ali mesmo, na sombra de um arvoredo. José Gomes de Menezes é pescador – como sua sintonia com as redes já sugeria a primeira vista – mas ali é conhecido como Baixinho, nada mais justo para um homem de um metro e meio de altura.

A água salgada corre nas veias dele desde criança. Seu avô, assim como ele, começou a pescar ainda na adolescência, se aventurando pelo mar paraibano, onde deixou a vida em um naufrágio quando ele tinha 8 anos. Cheio de simpatia Baixinho revela que nem por isso teve medo do mar. “Minha mãe recomendava os estudos, mas éramos eu, ela e minha avó pra sustentar. Não deu outra: eu tinha que ir pro mar”.

Baixinho lembra os tempos de juventude, as brincadeiras e noites junto aos outros pescadores na colônia. Conta que sente falta de alguns deles, mas que as farras regadas a bebidas em nada lhe despertam nostalgia. Isso, pois Baixinho deixou de beber a 20 anos, quando começou a perceber que aquele era um caminho sem volta. “Aí foi que me casei, tomei tento na vida. Antes disso não queria conta com mulher! Não tomava conta de mim e também não queria deixa filho nenhum abandonado”, conta.

Devoto de São Pedro, ele diz que sua vida é “uma maravilha”, apesar de não possuir tudo que sempre sonhou, mas ainda ter saúde para trabalhar. Baixinho se revela um homem esforçado; aos 58 anos, trabalha todos os dias, e quando não está no mar, atua em terra nos preparativos para uma nova jornada, tralhando redes e reparando os cascos.

Ele conta que já viveu mais do que ouviu histórias sobre o mar. Muito do que aprendeu foi com suas vivências, que hoje ele relata aos mais jovens no ofício. “É tanta coisa que se a gente chega em terra e vai dizer, os cabra diz que é mentira nossa”, relata sorridente. Acidentes no mar também já aconteceram com Baixinho, como o caso onde o pequeno barco onde ele e os amigos navegavam foi atingido por um navio de pesca em uma noite de chuvas e eles tiveram de ser resgatados pelas redes do pesqueiro. “Mas nada que espantasse a gente. A vida é essa, é pra ir mesmo e acabou-se”, explica.

Quando questionado sobre como ele se sente quando está no mar, Baixinho relata emocionado. “Eu me sinto mais seguro do que aqui em terra. Aqui é muita violência, e lá não. Somos três ou quatro companheiros, todo mundo amigo de verdade, só fazendo medo os castigos do céu. O resto à gente resolve trabalhando pra voltar pra casa”.

No momento de nossa conversa, o barco onde ele navega tinha saído para alto-mar há dias. Pergunto-lhe então quando os companheiros retornam, e ele responde sorrindo: “Nessa vida a gente só tem certeza da ida, mas a volta não dá pra ter data marcada...”, encerra olhando fixamente o horizonte azul de Tambaú.

Toni Caldas