19 de set de 2011

A puta

"Que coisa doida", tomado pelos seios loiros dizia a voz sussurrante, coberta apenas por um verde olhar descansado sob os lençóis. Há tempos não escrevia seus poemas, estava cansado da mulher, das contas a pagar, de tanto peso em suas asas.

Queria voar. Gritava como pássaro sem-nome enjaulado entre o trabalho como gari, os filhos pequenos e o ciúme possessivo da mulher. Não, não essa agora deitada ao seu lado. Com ela não havia nenhum problema, nem com ela, nem com ele, tudo era como quando começou a tocar violão na praçinha do Barbalho, ainda na juventude.

No canto do pequeno apartamento da Avenida Sete, Nº 3022, era apenas ele, duas garrafas de Brahma vazias, um cinzeiro com alguns cigarros, o sol pelas frestas num fim de tarde, um pequeno vaso com flores de plástico, o cheiro da fumaça dos ônibus, e a nudez perfeita compondo o sono depois do gozo longo.

Apanhou a farda laranja e calçou as botas, a vassoura deixou atrás da porta. De pau mole, fechando a porta, voltou para casa com um verso no bolso direito, e o vazio deixado por vinte reais.

Toni Caldas

Um comentário: