1 de nov de 2011

Um romance qualquer enlatado

Três e meia da manhã: marcava imponente o Relógio de São Pedro. Os vitrais sujos de apartamentos e escritórios da Rua Chile lembravam o tom escuro da pele de um moleque que passava na rua. A fina chuva ainda insistia em lavar a Ladeira dos Barris, trazendo com ele bitucas de cigarros lançadas na calçada do Xisto Bahia. À porta do Gabinete Português, dorme sobre a lona imunda um cavaleiro fora do seu tempo, enquanto em uma edição capa dura, aquecido do lado de dentro, Pessoa nada disse a respeito e dormiu sossegado em seus versos.

Sua capa era um saco de lixo preto recolhido em uma rua escura do Garcia; sua espada era feita de papelão, sempre escondida, encoberta por suas roupas, rasgadas nas batalhas diárias. Ao lado, o imponente prédio da Secretaria de Segurança, onde dormiam policiais cegos aos meninos fumando crack sob a fachada da Catedral de São Pedro.

Com tantos absurdos, uma das raras certezas do herói sem-nome em estar em um mundo real era o respirar ofegante e quente de seu cão, com que dormia sempre abraçado. O fiel escudeiro não o abandonava mesmo no frio, como fazia aquela noite. Conheceram-se no Politeama, em uma noite de 1997. Ele latia, enquanto o cavaleiro buscava no lixo sua primeira refeição do dia. Depois disso jamais se separaram.

Com o véu de estrelas, caiam sob a terra os titãs. Armados com canivetes e navalhas afiadas em busca da tão disputada pedra filosofal, seus olhos eram secos e sem brilho, corpos magros e de movimentos deficientes no caminhar. Mas estes não representavam grande perigo ao cavaleiro e seu cão. Tinham mais medo do jeito como os olhavam as senhoras que esperavam os ônibus no Porto da Barra, agarrando suas bolsas, alvos dos titãs.

Há tempos divagava naquela época. Não lembra bem quando aconteceu, nem ao certo porque, mas uma porta no tempo o levou para aquele inferno. Dominava com destreza a esgrima e a montaria, nobre e cortês, era bem visto por todos em seu tempo. Mas não havia mais cavalos nem espadas, tampouco outros cordiais como ele para quem mostrar sua nobreza. Restava apenas o valor de um homem.

Desde que caiu naquele tempo, como uma pedra que salta a mão no último andar, muito se machucou e com a pancada, até mesmo esqueceu. Em sua mais forte memória ficou um amor campônio deixado em seu tempo. Sempre que tinha tempo de pensar, chorava sua tristeza como varia a chuva fina na Ladeira dos Barris.

Certo dia, em busca de esmolas pelas ruas do Carmo, conheceu uma princesa, também perdida. Suas vestes mostravam que o tempo já definhava sua nobreza de linhos e bordados, mas um cavaleiro jamais esqueceria os traços finos de uma dama como aquela. A cumprimentou estendendo a mão debruçando seus joelhos sob a calçada. Ela nada entendeu, e espantada, deixou cair das mãos o saco de latas que catava. Talvez a vida dura naquele tempo a tivesse levado ao esquecimento, ou quem sabe pensasse que aquele fosse apenas mais um louco pelas ruas de Salvador. Ele nunca soube, ela não disse uma palavra, apenas catou as latas que caíram e se foi seguindo em direção ao Barbalho.

Guardou na gaveta de memória aqueles verdes olhos saltados que brilhavam como suas latas ao sol. Nunca os esqueceu. Esqueceu dos filhos, dos amigos, da batalhas e cavalarias, até do antigo amor, mas nunca dos olhos de lata.

Anos passavam. Noites que pareciam envelhecê-lo semanas, até que um dia, caminhando com seu companheiro pelo Taboão, ele a reencontrou. Era a mesma, suas vestes e seus olhos de lata surgiam na esquina da Barroquinha. A cidade parou, nada mais tinha cor, apenas os olhos verdes.

Procurou com os olhos um jardim, uma flor, um presente a sua musa. Mas encontrou apenas uma loja de arranjos. Não teria outra chance. Veloz, apanhou uma flor de plástico e caminhou apreensivo em sua direção. Não sabia se agradariam a ela suas vestes, nem a cor daquela flor roubada. Passo a passo se aproximava. Não sabia o que dizer, as palavras certas, esqueceu dos seus versos. Balbuciava agora palavras como um ogro, e se aproximava mais, e mais, quando a alcançou. Estendendo a mão, atônito, lhe ofereceu a pequena flor. Mais uma vez, severa, ela nada disse, e apenas seguiu. Preferia mesmo ganhar dele uma lata.

Toni Caldas

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