29 de nov de 2011

Temporais

Depois de alguns cigarros frios, resolveu lavar a alma num banho quente. O corredor nunca se estendeu tanto. Faltava o ar e a barba por fazer não o incomodava. Passou o dia em casa. Não precisava trabalhar.

O giro do registro nunca foi tão penoso, mas sabia, em algum canto da mente cheia de remorsos, que a água quente e lenta lhe recompensaria. Nada como a sensação das mãos dela, com todo cuidado a lhe banhar e o prumo firme de sua virilidade.

O tempo ali passou, pesou e pensou enrustido na leve fumaça do banheiro. Ele se mantinha em seu estado pleno, conjugando sua felicidade sempre no pretérito, mais que perfeito. Por um momento, nada mais lhe passava à mente além das carícias sobre a nuca, passando pela barriga e lhe alisando as pernas esguias.

Já com ares como não lhe cabiam, olhos que murmuravam a tortura das cores que já tinham a mesma sombra, percebeu nos dedos enrugados o homem que agora era. Enxugou o corpo. Estendeu a toalha encharcada. O homem velho era imortal.

Toni Caldas

21 de nov de 2011

Ao meu ver

Oblíquo no ato de olhar
Olhos são apenas agudos

Ângulos rasos

Olhares côncavos
Egoísmo é uma questão ótica

Toni Caldas

20 de nov de 2011

Olhos coloridos

"Não são os prédios que estão caindo, são as nuvens caminhando". Tinha apenas oito anos quando a impressão que já me intrigava foi desvendada sob a voz de Amanda, segurando minha mão. Permanecemos observando a vida das nuvens por horas. Era um dia nublado, muitas delas transitavam, circulares, e imaginávamos o que seriam, porque tinham suas formas, como o que pareciam, para onde iriam... "Elas voltam amanhã?". Amanda era mais velha, tinha 10 anos, e sempre ria do que eu questionava – ela acabara de perder os pré-molares de leite e eu tinha meu primeiro dente amolecendo tardio.

Naquele dia desenhamos um imenso Sol por toda calçada em frente ao antigo sobrado abandonado e ali ficamos, deitados no chão, no centro do nosso astro-rei. Era o maior que eu já havia desenhado, maior até que o real, que naquela época castigava menos nossos olhos voltados para o céu. Lembro dos cabelos louros de Amanda. Brilhavam quando a luz irradiava entre as nuvens e ela sempre me dizia que meus olhos mudavam de cor olhando para o céu – porém apenas ela me disse isso em toda minha vida. A chuva não veio. Nosso Sol permanece lá ainda hoje. Mas as nuvens já não caminham para lugar algum. É apenas disso que lembro...

Toni Caldas

8 de nov de 2011

Belinha

Quando roubaram a bicicleta de Belinha
Belinha não falava nem direito ainda

Não sabia da existência de guerras
Nem quanto custavam um quilo de feijão

No dia em que roubaram a bicicleta de Belinha
A roupa que Belinha usava era da mesma cor da sua bicicleta

Sem entender nada, Belinha caminhou a esmo pro mar
E em silêncio, já que não falava direito
Pediu a Deus que não precisava nem prender o ladrão
E também em silêncio pediu a Papai Noel que no próximo Natal

Lhe desse um computador
Pois hoje Belinha já fala

Miró

3 de nov de 2011

Aos sonhos de Emanuella

Quando adulta gostava de escrever, mas tinha em si um receio que não sabia explicar. Quando deixava fluir os dedos tímidos sobre o papel e manchá-lo com sua memória, quase sempre estava ao som de alguma música em volume ambiente, tomando o cuidado de não falar mais alto que seu pensamento. Gostava da rouquidão que tomava levemente sua voz nas manhãs frias e ficava pensando alto, a fim de ouvir a ela mesma.

Saiu cedo, como era de costume. Em seu caminho de sonhos e sono, vagarosa, seguia pelas ruas do bairro onde morava, quase sempre trajando um casaco vermelho, aveludado, combinando com o tom da pele e da voz mansa.

No caminho, apanhou na bolsa um pequeno livro de poemas que comprou no dia anterior, em um antigo sebo. Chegando ao ponto de ônibus, tomou um coletivo vazio, rumo a lugar nenhum. Sentada no fundo, abriu o exemplar amarelado sobre o colo e percebeu que suas páginas estavam em branco. Não lhe passou pela cabeça que o velho livreiro pudesse a ter enganado vendendo um livro em branco, gostava de confiar nas pessoas – principalmente nas mais velhas.

Ainda atônita com a ausência dos versos, erguendo o olhar se deparou com os olhos do motorista a lhe observar atentamente pelo retrovisor. “Será que foi ele que os roubou?”, questionou a si mesma com um semblante de quem só agora percebia que estava em um ônibus vazio, com um livro vazio seguindo para um destino sem mapas. Resistiu em caminhar até o motorista e perguntar para onde aquele ônibus seguia.

O tempo passava. Entreolhares ela percebia nas rugas algo familiar naquele senhor. Um temor agora tomava sua mente. “Foi alguém a quem ofendi? Fazer mal a um senhor como ele seria a ultima coisa que faria na vida”.

Ao flagrar o olhar pela janela, teve a impressão de passar por um sobrado conhecido, não lembrava ao certo de onde. Aos poucos, a velocidade diminuía e as ruas já não eram mais as da Salvador que conhecia – eram como a cidade interiorana que viveu quando criança.

“Como pode? Faz vinte anos, muita coisa mudou. E como cheguei aqui tão depressa?”. Até que em um cruzamento, a jovem despontou do seu assento quando viu em uma esquina seu irmão ainda garoto empinando uma pipa verde, descalço, com a camisa sobre os ombros a enxugar o suor pelo rosto.

Num rompante o céu não se conteve. Naquele céu, fechou os olhos e pode ver a si mesma, ali, ao lado do irmão mais velho. “Pode descer chegamos ao seu destino”, disse com a voz branda o senhor por trás dos olhos no espelho. Esqueceu de tudo, levou apenas o casaco, e correu até o garoto.

– O que está fazendo aqui, e assim? Devia ser um adulto! – exclamou.

Ele não disse nada, apenas sorriu, como costumava fazer.

– Tome, empina essa. Você ainda sabe não é? Ainda joga bola também?

Teve então a certeza. Voltou ao seu passado e ele a reconhecia. Não teve palavras embora a curiosidade em questioná-lo lhe saltasse a vontade. “Onde estão os outros? Meus primos, mãe, pai, tios. E meu avô? Será que está vivo?”, pensou silenciosamente vendo a mão de seu irmão estendida com a pipa.

A neblina da manhã se resumia e o horizonte da memória surgiu em sua frente como uma miragem a um viajante. Viu então a casa rural de seu avô onde viveu toda infância surgindo – o grande portão, o balanço, as árvores e não hesitou em correr até lá. Ofegante, chegou à porta enquanto um misto de paúra e alegria lhe tomavam por inteiro. A porta estava entreaberta. “Vô? Alguém em casa?”, seguiu adentrando os cômodos ainda em sombras como era no amanhecer.

A passos lentos e garganta seca, seguiu até os fundos, na ampla cozinha. A escuridão quase total deixava apenas enxergar os canecos de seu avô pendurados perto do armário. Ainda admirada, apanhou um deles bebeu um gole d’água – até mesmo a água parecia ter um sabor especial.

Varreu com o olhar toda cozinha, cada canto, e fechando os olhos lembrou-se de cada cena que viveu ali. O cuscuz de sua avó, o sermão severo do pai, o olhar quieto da mãe, as brincadeiras do irmão, e o carinho do avô. Mas onde estavam todos?

– Estão todos aqui – respondeu a menina de cabelos escuros sentada na janela, surpreendendo a ela por sua semelhança em comum.

– Você... Eu... Somos a mesma pessoa? – questionou confusa a jovem.

– Percebe? Estamos em você, somos suas melhores lembranças, somos tão reais quanto o passado e tão presentes quanto o futuro. Mas não entendemos ainda por que insiste em não nos deixar livres.

– Livres? Mas eu nem mesmo sabia da existência de vocês! – exclamou com incerteza.

A menina sorriu e nada mais disse. Seguiu pelo corredor, e sem esperar pela jovem, desapareceu nas sombras deixando no ar a dúvida. Ela então vasculhou todos os cômodos, viu a imagem da santa protetora de sua avó, o móvel escuro e pesado na sala do avô e os retratos antigos da família na parede do quarto, mas não mais a menina. Seu irmão também não estava mais lá, mas a pipa verde continuava no ar. Divagou, chamando por eles em incontáveis esquinas da cidade vazia, mas nada além do longo e contínuo eco de sua voz foi ouvido.

Desistente, resolveu voltar ao ônibus com seu casaco vermelho sob os ombros, mesmo sem saber o que agora lhe reservaria o condutor sem-nome. A porta se abre e no volante o mesmo olhar se volta para a jovem.

– Vô, onde o senhor estava! Procurei por toda casa! – exclamou a felicidade estampada em um longo e saudoso abraço.

– Fui eu o motorista o tempo inteiro. Fui eu quem lhe trouxe até aqui, não é assim que costuma dizer em seus poemas? Agora toma teu livro de volta, continua em branco. Cabe a você agora nos deixar livres. Não deixe de nos escrever seus versos, sentimos saudades quando não manda notícias.

Toni Caldas

1 de nov de 2011

Um romance qualquer enlatado

Três e meia da manhã: marcava imponente o Relógio de São Pedro. Os vitrais sujos de apartamentos e escritórios da Rua Chile lembravam o tom escuro da pele de um moleque que passava na rua. A fina chuva ainda insistia em lavar a Ladeira dos Barris, trazendo com ele bitucas de cigarros lançadas na calçada do Xisto Bahia. À porta do Gabinete Português, dorme sobre a lona imunda um cavaleiro fora do seu tempo, enquanto em uma edição capa dura, aquecido do lado de dentro, Pessoa nada disse a respeito e dormiu sossegado em seus versos.

Sua capa era um saco de lixo preto recolhido em uma rua escura do Garcia; sua espada era feita de papelão, sempre escondida, encoberta por suas roupas, rasgadas nas batalhas diárias. Ao lado, o imponente prédio da Secretaria de Segurança, onde dormiam policiais cegos aos meninos fumando crack sob a fachada da Catedral de São Pedro.

Com tantos absurdos, uma das raras certezas do herói sem-nome em estar em um mundo real era o respirar ofegante e quente de seu cão, com que dormia sempre abraçado. O fiel escudeiro não o abandonava mesmo no frio, como fazia aquela noite. Conheceram-se no Politeama, em uma noite de 1997. Ele latia, enquanto o cavaleiro buscava no lixo sua primeira refeição do dia. Depois disso jamais se separaram.

Com o véu de estrelas, caiam sob a terra os titãs. Armados com canivetes e navalhas afiadas em busca da tão disputada pedra filosofal, seus olhos eram secos e sem brilho, corpos magros e de movimentos deficientes no caminhar. Mas estes não representavam grande perigo ao cavaleiro e seu cão. Tinham mais medo do jeito como os olhavam as senhoras que esperavam os ônibus no Porto da Barra, agarrando suas bolsas, alvos dos titãs.

Há tempos divagava naquela época. Não lembra bem quando aconteceu, nem ao certo porque, mas uma porta no tempo o levou para aquele inferno. Dominava com destreza a esgrima e a montaria, nobre e cortês, era bem visto por todos em seu tempo. Mas não havia mais cavalos nem espadas, tampouco outros cordiais como ele para quem mostrar sua nobreza. Restava apenas o valor de um homem.

Desde que caiu naquele tempo, como uma pedra que salta a mão no último andar, muito se machucou e com a pancada, até mesmo esqueceu. Em sua mais forte memória ficou um amor campônio deixado em seu tempo. Sempre que tinha tempo de pensar, chorava sua tristeza como varia a chuva fina na Ladeira dos Barris.

Certo dia, em busca de esmolas pelas ruas do Carmo, conheceu uma princesa, também perdida. Suas vestes mostravam que o tempo já definhava sua nobreza de linhos e bordados, mas um cavaleiro jamais esqueceria os traços finos de uma dama como aquela. A cumprimentou estendendo a mão debruçando seus joelhos sob a calçada. Ela nada entendeu, e espantada, deixou cair das mãos o saco de latas que catava. Talvez a vida dura naquele tempo a tivesse levado ao esquecimento, ou quem sabe pensasse que aquele fosse apenas mais um louco pelas ruas de Salvador. Ele nunca soube, ela não disse uma palavra, apenas catou as latas que caíram e se foi seguindo em direção ao Barbalho.

Guardou na gaveta de memória aqueles verdes olhos saltados que brilhavam como suas latas ao sol. Nunca os esqueceu. Esqueceu dos filhos, dos amigos, da batalhas e cavalarias, até do antigo amor, mas nunca dos olhos de lata.

Anos passavam. Noites que pareciam envelhecê-lo semanas, até que um dia, caminhando com seu companheiro pelo Taboão, ele a reencontrou. Era a mesma, suas vestes e seus olhos de lata surgiam na esquina da Barroquinha. A cidade parou, nada mais tinha cor, apenas os olhos verdes.

Procurou com os olhos um jardim, uma flor, um presente a sua musa. Mas encontrou apenas uma loja de arranjos. Não teria outra chance. Veloz, apanhou uma flor de plástico e caminhou apreensivo em sua direção. Não sabia se agradariam a ela suas vestes, nem a cor daquela flor roubada. Passo a passo se aproximava. Não sabia o que dizer, as palavras certas, esqueceu dos seus versos. Balbuciava agora palavras como um ogro, e se aproximava mais, e mais, quando a alcançou. Estendendo a mão, atônito, lhe ofereceu a pequena flor. Mais uma vez, severa, ela nada disse, e apenas seguiu. Preferia mesmo ganhar dele uma lata.

Toni Caldas