3 de nov de 2011

Aos sonhos de Emanuella

Quando adulta gostava de escrever, mas tinha em si um receio que não sabia explicar. Quando deixava fluir os dedos tímidos sobre o papel e manchá-lo com sua memória, quase sempre estava ao som de alguma música em volume ambiente, tomando o cuidado de não falar mais alto que seu pensamento. Gostava da rouquidão que tomava levemente sua voz nas manhãs frias e ficava pensando alto, a fim de ouvir a ela mesma.

Saiu cedo, como era de costume. Em seu caminho de sonhos e sono, vagarosa, seguia pelas ruas do bairro onde morava, quase sempre trajando um casaco vermelho, aveludado, combinando com o tom da pele e da voz mansa.

No caminho, apanhou na bolsa um pequeno livro de poemas que comprou no dia anterior, em um antigo sebo. Chegando ao ponto de ônibus, tomou um coletivo vazio, rumo a lugar nenhum. Sentada no fundo, abriu o exemplar amarelado sobre o colo e percebeu que suas páginas estavam em branco. Não lhe passou pela cabeça que o velho livreiro pudesse a ter enganado vendendo um livro em branco, gostava de confiar nas pessoas – principalmente nas mais velhas.

Ainda atônita com a ausência dos versos, erguendo o olhar se deparou com os olhos do motorista a lhe observar atentamente pelo retrovisor. “Será que foi ele que os roubou?”, questionou a si mesma com um semblante de quem só agora percebia que estava em um ônibus vazio, com um livro vazio seguindo para um destino sem mapas. Resistiu em caminhar até o motorista e perguntar para onde aquele ônibus seguia.

O tempo passava. Entreolhares ela percebia nas rugas algo familiar naquele senhor. Um temor agora tomava sua mente. “Foi alguém a quem ofendi? Fazer mal a um senhor como ele seria a ultima coisa que faria na vida”.

Ao flagrar o olhar pela janela, teve a impressão de passar por um sobrado conhecido, não lembrava ao certo de onde. Aos poucos, a velocidade diminuía e as ruas já não eram mais as da Salvador que conhecia – eram como a cidade interiorana que viveu quando criança.

“Como pode? Faz vinte anos, muita coisa mudou. E como cheguei aqui tão depressa?”. Até que em um cruzamento, a jovem despontou do seu assento quando viu em uma esquina seu irmão ainda garoto empinando uma pipa verde, descalço, com a camisa sobre os ombros a enxugar o suor pelo rosto.

Num rompante o céu não se conteve. Naquele céu, fechou os olhos e pode ver a si mesma, ali, ao lado do irmão mais velho. “Pode descer chegamos ao seu destino”, disse com a voz branda o senhor por trás dos olhos no espelho. Esqueceu de tudo, levou apenas o casaco, e correu até o garoto.

– O que está fazendo aqui, e assim? Devia ser um adulto! – exclamou.

Ele não disse nada, apenas sorriu, como costumava fazer.

– Tome, empina essa. Você ainda sabe não é? Ainda joga bola também?

Teve então a certeza. Voltou ao seu passado e ele a reconhecia. Não teve palavras embora a curiosidade em questioná-lo lhe saltasse a vontade. “Onde estão os outros? Meus primos, mãe, pai, tios. E meu avô? Será que está vivo?”, pensou silenciosamente vendo a mão de seu irmão estendida com a pipa.

A neblina da manhã se resumia e o horizonte da memória surgiu em sua frente como uma miragem a um viajante. Viu então a casa rural de seu avô onde viveu toda infância surgindo – o grande portão, o balanço, as árvores e não hesitou em correr até lá. Ofegante, chegou à porta enquanto um misto de paúra e alegria lhe tomavam por inteiro. A porta estava entreaberta. “Vô? Alguém em casa?”, seguiu adentrando os cômodos ainda em sombras como era no amanhecer.

A passos lentos e garganta seca, seguiu até os fundos, na ampla cozinha. A escuridão quase total deixava apenas enxergar os canecos de seu avô pendurados perto do armário. Ainda admirada, apanhou um deles bebeu um gole d’água – até mesmo a água parecia ter um sabor especial.

Varreu com o olhar toda cozinha, cada canto, e fechando os olhos lembrou-se de cada cena que viveu ali. O cuscuz de sua avó, o sermão severo do pai, o olhar quieto da mãe, as brincadeiras do irmão, e o carinho do avô. Mas onde estavam todos?

– Estão todos aqui – respondeu a menina de cabelos escuros sentada na janela, surpreendendo a ela por sua semelhança em comum.

– Você... Eu... Somos a mesma pessoa? – questionou confusa a jovem.

– Percebe? Estamos em você, somos suas melhores lembranças, somos tão reais quanto o passado e tão presentes quanto o futuro. Mas não entendemos ainda por que insiste em não nos deixar livres.

– Livres? Mas eu nem mesmo sabia da existência de vocês! – exclamou com incerteza.

A menina sorriu e nada mais disse. Seguiu pelo corredor, e sem esperar pela jovem, desapareceu nas sombras deixando no ar a dúvida. Ela então vasculhou todos os cômodos, viu a imagem da santa protetora de sua avó, o móvel escuro e pesado na sala do avô e os retratos antigos da família na parede do quarto, mas não mais a menina. Seu irmão também não estava mais lá, mas a pipa verde continuava no ar. Divagou, chamando por eles em incontáveis esquinas da cidade vazia, mas nada além do longo e contínuo eco de sua voz foi ouvido.

Desistente, resolveu voltar ao ônibus com seu casaco vermelho sob os ombros, mesmo sem saber o que agora lhe reservaria o condutor sem-nome. A porta se abre e no volante o mesmo olhar se volta para a jovem.

– Vô, onde o senhor estava! Procurei por toda casa! – exclamou a felicidade estampada em um longo e saudoso abraço.

– Fui eu o motorista o tempo inteiro. Fui eu quem lhe trouxe até aqui, não é assim que costuma dizer em seus poemas? Agora toma teu livro de volta, continua em branco. Cabe a você agora nos deixar livres. Não deixe de nos escrever seus versos, sentimos saudades quando não manda notícias.

Toni Caldas

6 comentários:

  1. Gostei muito! Sobretudo da sofisticação do recurso temporal e do tom sinestésico que provocas com teu modo de descrever. Muito bom! =)

    ResponderExcluir
  2. Depois de um texto desse, é pecado não voltar mais vezes!

    ResponderExcluir
  3. Muito bom o texto...O fim com a ideia de paginas em branco a serem escritas, achei bem legal!!

    ResponderExcluir
  4. Amei seu espaço! Parabéns! Seus textos são otimos! Mais uma vez perabéns! Voltarei mais vezes.

    ResponderExcluir
  5. Realmente o melhor dos seus últimos exercícios.

    ResponderExcluir
  6. Parabéns baianos arretado...se continuar nessa caminho, tenho certeza que conquistará o mundo!!!sucessooo!!

    ResponderExcluir