29 de nov de 2011

Temporais

Depois de alguns cigarros frios, resolveu lavar a alma num banho quente. O corredor nunca se estendeu tanto. Faltava o ar e a barba por fazer não o incomodava. Passou o dia em casa. Não precisava trabalhar.

O giro do registro nunca foi tão penoso, mas sabia, em algum canto da mente cheia de remorsos, que a água quente e lenta lhe recompensaria. Nada como a sensação das mãos dela, com todo cuidado a lhe banhar e o prumo firme de sua virilidade.

O tempo ali passou, pesou e pensou enrustido na leve fumaça do banheiro. Ele se mantinha em seu estado pleno, conjugando sua felicidade sempre no pretérito, mais que perfeito. Por um momento, nada mais lhe passava à mente além das carícias sobre a nuca, passando pela barriga e lhe alisando as pernas esguias.

Já com ares como não lhe cabiam, olhos que murmuravam a tortura das cores que já tinham a mesma sombra, percebeu nos dedos enrugados o homem que agora era. Enxugou o corpo. Estendeu a toalha encharcada. O homem velho era imortal.

Toni Caldas

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