12 de dez de 2011

Ficha 110

Um homem barbado espera à porta, ajeitando os óculos na face pálida, enquanto uma mulher insistentemente mostra sua impaciência batendo o salto contra o assoalho antigo e sujo. O som constante das impressoras emperradas, uma grande gaveta de metal sempre a bater e novamente se abrir, uma caixa-registradora e suas moedas sempre a trincar. Abre e fecha, segue assim a porta de entrada, sem cessar.

– Quarenta e dois. Qual é o seu número? – pergunta o atendente de voz fanha.

– Trinta e seis – respondeu com tristeza o homem gordo transpirando e ofegante.

– Saiu, perdeu – respondeu a voz sem rosto no meio da longa fila que se formava; os olhares sobre ele o apressavam a retornar, cabisbaixo, para o final e pegar uma nova senha.

O guichê número cinco era o mais demorado. Não sei ao certo se por que a atendente era uma loira-burra ou se era por que todos os homens eram sempre corteses demais com ela por seus atributos guardados por um decote que gerava um burburinho constante entre os que esperavam na fila – em especial um motoboy bem magro, deu pra vê-lo se excitar enquanto entregava o envelope pardo como ele.

O cheiro úmido da burocracia pairava nas resmas, misturando-se ao suor apressado e a ansiedade de tantos ali. Lâmpadas a falhar incomodam os olhos. O ar do refrigerador em potência máxima de fungos e ácaros. Pessoas inalando nomes, documentos, cópias, autenticações, sem nenhuma autenticidade.

Retratos em 3x4, impressões digitais e registros analógicos, geralmente gerados em outros daqueles antros de papéis timbrados, tinteiros e carimbos.

Um lê o jornal de ontem, outro dorme debruçado, uns de pé, outros sentados, alguns quase desistem, quase todos trazem um pequeno envelope nas mãos, pouca paciência e ansiedade por mais um soar do painel informando o próximo atendimento.

As placas informavam. Escrituras e Procurações ficavam à direita. À esquerda, Firmas e Autenticações.

A senha 46 foi chamada. Aqui todos são assim. Histórias de vida, o tempo que levou para chegar até ali, se deixou filhos em casa ou com a avó, se pegou ônibus lotado ou o que tomou no café da manhã servia apenas como comentários enquanto o tempo se arrastava – e nem era preciso olhar para o relógio para notar; aliás, nem mesmo havia um relógio de parede, vai ver para evitar ainda mais reclamação de quem esperava as intermináveis horas passarem.

Ao fundo persianas revelavam os prédios vizinhos. Apesar de tudo, ali dentro era mais cômodo. Sem risco de ser assaltado, atropelado, molhado por goteiras de arcondicionado, sem menino de rua te pedindo uma moeda quando você tanto precisa.

O letreiro luminoso e vermelho anuncia novamente: senha cinquenta e cinco, guichê cinco – novamente a loira.

– Até que tá andando rápido. Já passei uma tarde toda aqui nesse troço – dizia a perua alinhada ao lado da jovem; essa não carregava pasta nenhuma, apenas uma Declaração em nome de Maria de Souza Evangelista e um documento com foto – não pude ver muito mais, pois ela se levantou ao chamado da ficha cinquenta e sete.

Entre as fichas sessenta e sessenta e oito nenhumas das pessoas chamadas estavam presentes e o atendimento seguiu. Dava apenas pra ler a torcida de quem a chamada se aproximava.

Lembro do homem alto e magro que subiu o elevador ao lado. Apressado e avarento, tratou logo de correr e entrar antes pedindo seu andar. Passou na frente ao sair também. Mas esqueceu de algo e teve que correr de volta – acabou ficando com quinze senhas depois da minha; vai ver é aquela coisa de pressa e perfeição.

Deu pra notar uma senhora de cabelos totalmente brancos que fitava a todo tempo o que eu escrevia pondo os óculos fundo-de-garrafa para ler – acho que desistiu quando viu que não entenderia os garranchos apinhados.

Restam agora quarenta e um atendimentos até chegar a minha vez. As gavetas e portas continuam batendo, abrindo e fechando, as moedas trincando. E ninguém sabe ao certo onde estão agora os donos das fichas que não estavam lá para ouvir a impressora que seguia emperrada...

Toni Caldas