22 de fev de 2012

Cores chocalheiras em uma festa de sons

A princípio nada convence um brasileiro de que o Carnaval poderia sobreviver sem samba, suor e cerveja. Estando nas baixas temperaturas do Inverno de Portugal então, as chances de folia carnal são ainda mais distantes da festa dos trópicos. Por via das dúvidas o melhor seria confirmar o que os brigantinos diziam, afinal é das diferenças que se fazem as melhores viagens, e essa seria a minha primeira desde que havia chegado a terras lusitanas há uma semana. A aldeia de Podence fica a cerca de trinta minutos seguindo a estrada que liga Bragança a Porto. Lá, nada de autocarros – como chamam aqui os ônibus. O meio de chegar seria através de um veículo próprio ou apelando à velha regra da carona – aqui chamada boleia. Acabei descobrindo que no quarto 105 do hostel, onde agora estou alojado, estavam duas portuguesas de Lisboa, que também estavam interessadas em conhecer a tradição carnavalesca do interior do nordeste.

Confirmada minha vaga tratei de dormir cedo. Ainda assim, o efeito do fuso-horário brasileiro mostrou seus efeitos. As dez a sonolência ainda vagava em meu quarto. Na cozinha um café meio frio, mochila nas costas e logo partimos a bordo do antigo Mercedes. A estrada sinuosa nada acusava sobre o festejo, sem engarrafamentos ou grande fluxo de veículos. Frio e paisagens silenciosas eram a composição da dureza do fim de inverno europeu. Adiante, em uma curva, estacionamos na beira da estrada e seguimos por um pequeno trecho até a aldeia de Podence. As ruas de pedra apresentavam os primeiros sinais da antiga localidade. Logo adiante um pequeno aglomerado de turistas contornava as barracas de uma feira de alimentos regionais. Vinhos a gosto, azeites de oliva de qualidade transmontana, queijos e carnes frescas, licores exóticos, além de vestimentas feitas de couro e lã de ovelhas eram os itens mais comuns.

As paredes úmidas, com texturas e cores que apenas séculos podem agrupar com aquela devida harmonia, me atraiam cada vez mais. Uma arquitetura de uma vila medieval que conduzia o olhar como um passeio ao passado. Logo mais, a surpresa: que brasileiro acreditaria que pudesse haver tantos católicos assistindo o sermão em pleno entrudo do Carnaval? Cheguei à porta ao fim da missa, mas ainda pude acompanhar o longo grupo deixando a igreja. A pequena capela saltava os olhos em imagens sacras, belíssimos afrescos e detalhes em ouro – qualquer brasilidade dourada não é mera coincidência, vale à pena lembrar.

Além de alguns cordões coloridos que cruzavam a vila pendurados nas sacadas e balaustradas em pedras e mármore, àquela hora da manhã, nada apontava para um festejo carnavalesco. Nenhum sinal de músicas, bebedeiras, alegria ou qualquer outra coisa que lembrasse a festa. Muito pelo contrário. O ar pedregoso do lugar era mesmo de uma aldeia da idade média esquecida no tempo, uma cadeia de almas tristonhas. Poucas eram as pessoas nas ruas e algumas nas varandas que olhavam curiosamente a mim, mais um estrangeiro na vila. Cruzei com fontes romanas, muitos casebres abandonados, ruínas de tempos distantes, até que em uma esquina, o primeiro sinal de existência dos Caretos.

Embora não fosse nenhum ser mascarado, suas roupas penduradas em um varal, diferente do que havia visto até então, abria alas para as cores da festa e começava acreditar que logo mais poderia de fato vê-los. E não custou caminhar muito. Ao tomar outro caminho por entre as antigas casas, logo pude ouvir o longo e contínuo som de pequenos sinos a badalar que invadiam as ruas acústicas e cresciam a cada passo. Ao cruzar a esquina me deparei com a figura com máscara de ferro, roupas de lã em vermelho, amarelo e verde de teares caseiros, com um cajado de madeira em mãos correndo freneticamente pelo meio da rua e chamando atenção de todos ali.

Não restavam dúvidas, os Caretos estavam à solta anunciando a alegria à pacata Podence. Foram instantes que mudaram completamente as primeiras impressões que tomei do local. Agora uma multidão se aglomerava a brincar com os Caretos que começavam a surgir saindo das ruas estreitas, geralmente em grupos. Adultos e, de modo marcante, crianças de pouca idade, sacolejavam sinos rústicos com suas máscaras vermelhas e vestes grossas em lã, mantas coloridas que contrastavam e os tons das ruas. Logo surgiram também pequenas bandas com um som estonteante, grave e vibrante, chamados de Bambar, naturalmente medieval. Muito diferente das fanfarras do Brasil, as bandas não tinham instrumento algum de sopro além das rústicas gaitas de fole e assim o percussivo se fazia como essência da música carnavalesca de Podence. Como se não houvesse mais surpresas, no meio da multidão, diversos burros enfeitados com fitas coloridas passaram a desfilar como cavalos imponentes de puro-sangue. Uma sátira cabível ao festejo de fevereiro e que despertava os risos de todos os presentes.

Os mais velhos contam que a festa de Podence surgiu no domínio dos tempos até as antigas as Saturnais romanas, em honra a Saturno, deus da lavoura, e as Lupercais celebradas em honra de Pan, o deus dos rebanhos. Em Podence a agricultura ainda é a principal atividade da população, com culturas como a de cereais e castanhas, embora nos últimos anos, tenha aumentado a produção de azeite. Após 1970 a tradição perdeu sua intensidade, como dizem os moradores mais velhos de Podence. Isso por conta de inferências políticas, já que estes eram os últimos anos de ditadura e do fenômeno da emigração, sendo recuperada uma década mais tarde, quando a região passou a respirar alguma prosperidade. Diferente da antiguidade, quando apenas os homens adultos iam as ruas como Caretos, hoje os muitos Facanitos, como chamam as crianças mascaradas, tomam a forma da alegria mantendo viva a tradição de cores e chocalhos.

O festejo chamado Entrudo Chocalheiro leva este nome justamente pelo modo como os mascarados se comportam. Os Caretos corriam atrás dos visitantes ou nativos não fantasiados e os abraçavam, sacolejando seus grandes sinos pendurados em cintos de couro fazendo com que assim batessem contra as costas e ancas destes – uma experiência dolorosa, digna de uma festa medieval. Segundo os mais antigos nativos de Podence os Caretos já foram ainda mais agressivos. Com suas varas de madeira em punho batiam principalmente nos judiados pelos moradores da aldeia, aproveitando a ocasião do Carnaval para manifestar suas injúrias. As mulheres solteiras aqui raparigas ainda são o principal alvo dos mascarados. O festejo é uma despedida do Inverno e saudação a Primavera, um ritual entre o pagão e o religioso, tão natural como a passagem do tempo e a renovação das estações.

Já passava das três da tarde e os porres de vinho faziam a alegria dos Caretos, chamado de malucos por muitos portugueses, quando ao longe um cortejo com uma grande banda desfilava na via principal da aldeia, criando um corredor percussivo de movimentos compassados seguidos de aplausos do público atento. Aos saltos e os Caretos tomavam ainda mais as ruas acompanhados de crianças amedrontadas, turistas risonhos e urros dos que por trás das máscaras de ferro que lhes permite mergulhar nos excessos embalados ao dobrar dos sinos.

Mais uma vez vale a lição de que a primeira impressão não deve ser a única: Podence, de fato, não é apenas uma aldeia isolada, de tristeza e clima frio. Minha visita durante seu entrudo carnavalesco foi uma experiência ímpar de cores, imagens, sons e sabores e um constante exercício de encontros e desencontros entre a cultura brasileira e lusitana. Sedutores e misteriosos, os Caretos guardam a magia dos tempos em que as histórias junto à lareira davam margem ao mundo dos sonhos. A eles tudo é permitido. O anonimato, sua máscara e chocalho, ainda garantem o seu poder único de encantar.

Toni Caldas

11 de fev de 2012

Viagem

Malas prontas
Caneta, papel e coração
Nas mãos
Despedidas

Olhos atentos
Ouvidos abertos
Sua história começa
Onde você dita

Em mar de saudade
Vida é só jangada
Passa lenta, arrasta
Desaparece logo ali

T
oni Caldas