17 de mai de 2012

Sangue azul suburbano

Acordar cedo sempre foi um sacrifício para Alex. Seu maior desejo era ficar na cama, sonhar no lugar de ter que encarar a dura realidade suburbana de Paripe. Não costumava sair, nem tinha dinheiro para isso. Também, pouco ligava. Salvador não era mesmo mais a cidade que conheceu um dia em uma biblioteca pública, quando leu um trecho de Jorge Amado, aos doze anos.

Preferia ficar em casa e escrever seus poemas, um comportamento nada convencional em um meio de amigos onde futebol e mulher eram os assuntos principais. Desempregado, cansado, e sempre pensativo, era como vivia. Vinte e poucos anos e uma fotografia em três por quatro que não valia nem mesmo para se reconhecer. Roupas velhas e nem mesmo um tênis Adidas para se dizer um sujeito normal.

Desde criança sonhava com aquele modelo: azul anil, detalhes brancos, bordado em amarelo-ouro, lançado na Copa de 94. Ainda sonhava com a vendedora e sua vitrine luminosa na Praça da Piedade. Quando passava de ônibus, acompanhava com os olhos a fachada da mesma loja, atento sempre ao modelo em couro e detalhes de camurça. Não o importavam as roupas vindas do Paraguai, bastava ter todo o charme dos norte-americanos nos pés.

Pensava todos os dias em se tornar bandido. Um simples assalto e poderia ter o seu sonho realizado. Mas sempre acreditou que para ser bandido teria que acordar cedo, perder o medo da morte, mas, antes de tudo, deixar de ser poeta. Um dia, por indicação da amiga de uma tia, conseguiu um emprego, e conseguiu. Era agora vendedor daquela mesma loja onde sempre sonhou comprar seus Adidas azuis.

Com seu primeiro salário, realizou seu sonho de consumo. Saiu da loja pensando no quanto desejou aquele sentimento de completude. Era sexta-feira, e os amigos o convidavam para um final de semana em Amoreira. Insistentes, a todo tempo o ligavam. Depois de voltas dentro de casa, indeciso, resolveu atender o convite.

Na manhã seguinte, enquanto fazia uma pequena mala, apanhou duas ou três camisas dentro do armário, uma toalha ainda molhada no varal dos fundos, uma bermuda jeans, e a velha carteira de identidade desbotada – que tanto lhe lembrava das violências policiais que sofreu na adolescência.

Alex girou a chave no trinco e desceu as escadas da rua pobre onde morava para encontrar os amigos no Bom Despacho. No ponto de ônibus onde estava, outro jovem usava o mesmo adidas azul que ele. Sequer se falaram, mas trocaram olhares pelos pés.

Após a espera, o ônibus de Alex chegou. O jovem-sem-nome permaneceu sentado. No exato momento em que subiu no coletivo, ouviu o som de uma motocicleta e em seguida os gritos.

– Devolve meu tênis! – dizia o jovem sendo assaltado.

– Solta porra! – gritou o piloto.

– Eu vou atirar! Solta você, se não eu atiro! – alarmou o homem armado na garupa, enquanto puxava o tênis da mão do jovem a insistir, puxando pelos cadarços.

– Ladrão! Filho da... – o estopim seco calou as três vozes e ligou o motor da moto, que partiu em velocidade.

Alex viu tudo, enquanto o motorista arrastava o coletivo, distanciando-se pouco a pouco da cena. Naquela sexta-feira, um jovem de vinte e poucos anos deixava sua vida sob o asfalto, com um sangramento intenso na cabeça, e apenas um dos pares do Adidas azul que calçava na mão direita.

Toni Caldas

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