9 de mai de 2012

Trilhões de estrelas entre grãos de areia

Aos trinta graus o dia começa em Marrakesh. Despertei com o som das motocicletas, barulhentas como sempre. Naquele dia era necessário acordar mais cedo que o habitual para partir rumo ao deserto do Saara, há horas dali, e chegar antes do pôr do sol nas tendas dos berberes, onde passaríamos a noite.

Nas portas do Amour d’Alberge, o guia Latif aguardava para a partida. Eram sete da manhã quando últimos souks abriam suas portas e expulsavam de debaixo das marquises os mendigos que ali dormiam.

Seguimos caminhando por estreitas ruas da Medina onde segundo Latif, encontraríamos a van que nos levaria até o destino. Pequenas barracas montadas na rua ofereciam o café da manhã marroquino, com pães e o tradicional chá de menta, mas não havia tempo para a primeira refeição.

Ao encontrarmos a van, minha tentativa de cumprimentar o motorista foi frustrada, pois Muhammad pelo visto não falava nenhum outro idioma além do árabe. Junto aos outros mochileiros que também seguiam para o Saara, deixei as ruas conturbadas de Marrakesh e apanhei a estrada.

Logo estávamos na zona metropolitana de Marrakesh, constituída de pequenos aglomerados de moradias precárias, construídas com barro, madeira e palha, onde era unanime a presença da Mesquita – avistada em qualquer de qualquer ponto pela sua imensa torre e autofalantes – e dos anúncios de Coca-Cola pintados nos muros de terra batida ressacados pelo sol.

A cerca de 2.200 metros de altitude, a paisagem árida dava lugar ao verde dos bosques de altas copas dos carvalhos e montanhas cobertas de neve. A viagem completava cerca de duas horas, e as estradas sinuosas se tornavam cada vez mais íngremes. Aos poucos, era possível sentir os efeitos provocados pelo ar rarefeito e o clima se tornava cada vez mais seco.

Para aliviar a tensão da longa viagem fizemos uma primeira parada em um pequeno bar na beira da estrada. Enquanto tomava um café no balcão, podia ouvir Je L’aime a Mourir, da latina Shakira, tocando no microssystem do adolescente marroquino que usava e uma jaqueta vermelha com o nome do seu país bordado em verde, sobrepondo à estrela verde da bandeira, e calçando uma falsificação chinesa da Nike.

Seguimos estrada. Mais alguns quilômetros e estávamos na região de Souss-Massa-Drâa. Era hora da parada para o almoço. Decidi então experimentar o cuscuz marroquino, uma excelente opção, tanto pelo preço quanto pelo sabor marcante. Ao fim da refeição, debaixo de uma tenda, o sol começava a perder a timidez entre o céu nublado, convidando para um passeio pela vila onde realizamos uma parada por cerca de duas horas – uma das únicas coisas que Muhammad soube nos avisar em inglês durante todo o trajeto.

Logo na saída da tenda fomos abordados por falantes vendedores de pashiminas com seus turbantes coloridos, que com todo seu jogo de negociação, seduzia, principalmente as mulheres, pela beleza das estampas e cores. Embora fosse claro pra mim que muitos daqueles tecidos nada mais eram que lenços de fabricação chinesa, resolvi comprar um e garantir minha proteção contra o sol forte – e com a dose certa de insistência, consegui pagar um preço abaixo do que normalmente era vendido pelos berberes.

Na beira da estrada para Quarzazate, as colunas do tempo se erguiam com Ait-Ben-Haddou, uma das povoações mais bem conservadas em toda a região. Sua preservação se deu em parte pelo interesse que a indústria cinematográfica lhe dedicou a partir do início dos anos sessenta, quando David Lean realizou ali algumas cenas de Lawrence da Arábia, e a Unesco deu ao povoado o título de Patrimônio Mundial, em 1987.

Outras produções mais recentes, como A Múmia, de Stephen Sommers; Gladiador, de Ridley Scott; Alexandre, de Oliver Stone; e Príncipe da Pérsia, de Mike Newell, também tiveram diversas cenas rodadas em Ait-Ben-Haddou – e esse sem dúvida era o principal comentário dos guias turísticos durante toda a visita.

Mas além das histórias modernas entorno do Cinema, há muito mais a ser desvendados em suas paredes de tijolos de terra. O sistema defensivo de muralhas, que fazem corpo com as casas servia contra os ataques dos nômades. Os ksar serviam assim tanto a possibilidade de abrigarem os habitantes, como também os animais, as colheitas e as caravanas que vinham do Tafilalet, zona do Saara, para o centro comercial em Marrakesh.

Tudo começou como a casa de uma única família que com o crescimento da população, ganhou novos espaços. O túmulo do seu fundador, Ben-Haddou, se mantém preservado na base da colina, por trás da povoação.

Morada do passado, suas ruas impressionavam pelos grupos de pequenas fortalezas, que chegavam a dez metros de altura cada construção. A cidade fortificada, chamada pelos berberes de ksar, foi fundada em 757, como um dos pontos da antiga rota de caravanas entre o Saara e Marrakesh.

Seguindo a história de todas as povoações da África, todo centro de conflitos é também um centro de riquezas. A localização das tribos Glaoui nesta área foi um dos fatores da sua fortuna construída ao longo dos anos.

Este ponto sempre foi uma encruzilhada estratégica, tendo em conta as rotas das caravanas que ligavam os mercados no norte de África com Tombuctu, nas margens do Níger, "três mil quilômetros a sul e a cinquenta e dois dias de viagem", como anunciam humorísticos cartazes em Agdz e Zagora, no Vale do Draa.

Atualmente a maioria dos habitantes da cidade vive na aldeia mais moderna, onde há água e energia elétrica, no outro lado do Rio Ounila – onde almoçamos – no entanto, dez famílias ainda vivem no ksar, como me contava o berbere Nadhir, enquanto tragava haxixe em um cachimbo dourado, recostado em uma muralha.

Luz, câmera e muita ação

Mas se filmes de aventura eram a atração local, minha experiência não poderia ser diferente. Imerso na atmosfera milenar, tudo era fascinante aos sentidos aguçados. Ainda nas margens do Rio Ounila, prestes a atravessar em direção as construções imponentes do ksar, me deparei com a figura de um berbere que acomodava dois dromedários deitados após beberem água. O homem de cabelos compridos sobre a túnica e trajes nômades, me instigou fotografar aquela cena, e mais uma vez a experiência com a fotografia de pessoas não foi bem vista.

Ao virar-se, percebendo minha presença, o marroquino apresentou um gesto peculiar da nossa cultura, e um semblante nada satisfeito. Enquanto o grupo seguia à frente, eu aproveitava o momento para mudar uma grande angular. Em um intervalo de alguns segundos, o grupo que seguia a passos ágeis havia avançado, e eu, agora sozinho, estava a poucos metros de um homem furioso atirando pedras contra mim.

Assustado, acreditava ter atravessado o caminho de um bárbaro, um
personagem que havia saído das telas do filmes épicos gravados ali. Enquanto eu fugia apressado saltando pedras sobre o rio, podia ouvir o homem berrando o que certamente eram insultos pelo meu ato. Naquele momento minha intuição me dizia que devia deixar de lado as experiências de risco, ou não chegaria ileso ao fim da viagem.

Do outro lado do rio, pude reencontrar o grupo, agora disperso entre os souks de artesanato, e os que quase paralisados apenas observavam ao seu redor. Ait-Ben-Haddou era o tipo de lugar onde nenhum mapa poderia ser claro o suficiente a ponto de guiar um estrangeiro sem desencontros.

A cada esquina era como se imensas torres de barro vermelho se erguessem, criando um universo místico a cada passo. Ali apenas os filhos da terra conheciam os caminhos de entrada e saída entre suas vielas empoeiradas, e até mesmo os pequenos pássaros não escapavam do tom avermelhado devido a poeira no ksar.

O tipo de arquitetura de terra do vilarejo é semelhante ao de outros ksar. Os edifícios são construídos com tijolos de terra secos ao sol, que podem ter quatro ou cinco andares, não mais que seis ou sete, e as torres são sempre decoradas com motivos geométricos, particularmente as dos tighremts, as casas mais nobres, por assim dizer. Um comerciante também me contou que pelo menos uma vez por ano, logo a seguir à estação das chuvas, é necessário inspecionar minuciosamente as fissuras e os canais de drenagem da água.

Dali por diante, tudo era fascinante. Entre as grandes escadarias, ainda mais cansativas devido ao ar rarefeito, muitos vendedores de artesanato estendiam suas pequenas tendas, apresentando os mais diversos itens aos visitantes. Enquanto caminhava, era possível ouvir o som de um alaúde arcaico vindo das mãos de um senhor que tocava o instrumento, pedindo em troca alguns dihans. Quando a viagem parecia perfeita, notei que era hora de voltar para a van se seguir.

No itinerário das areias

O cansaço do longo dia de viagem e da altitude atingia a todos. A estrada sinuosa prosseguia como se não houvesse fim, e poucos carros cruzavam nosso caminho. A ansiedade em deparar-me com o Saara era o que saciava o corpo sem muitas energias. Em cada curva a tensão devido à altura dos despenhadeiros e o pensamento que persistia em acreditar que embarquei em uma van com desconhecidos rumo ao nada.

Ainda restavam alguns quilômetros até o ponto em que encontraríamos o grupo de nômades que nos guiariam para o Saara. Neste percurso final de asfalto, percebia-se na paisagem comunidades que viviam em condições de extremas carências à beira da estrada. Nesta altura, o motorista teve uma atitude inesperada.

Reduzindo a velocidade, Muhammad apanhou debaixo do banco um galão de água potável e atirou pela janela. Em princípio aquele ato me revoltou, apenas de imaginar que poderíamos precisar daquela água desperdiçada. Mas foi olhando para trás pela janela que entendi que ele na verdade teve um gesto de solidariedade.

Aquele galão arremessado foi logo apanhado por duas crianças na beira da estrada, enquanto uma mulher com o rosto envolvido pelo seu véu acenava ao longe, em agradecimento. O Saara começa a revelar suas miragens, e era preciso olhos atentos para não haver equívocos.

A região desértica e de cadeias montanhosas anunciavam a chegada às portas do grande mar de areia. Finalmente chegamos a um dos pontos mais inusitados e esperados da viagem. Desembarcamos da van, nos despedindo de Muhammad, e então seguimos para o tão aguardado percurso a bordo dos dromedários.

O meio de transporte mais eficaz do Saara de certo era muito maior do que geralmente se pode imaginar. Montar o dromedário também não era tarefa confiável e a grande altura da sua corcova exigia habilidade. À primeira vista é impossível se imaginar estando a quase três metros do chão.

Enquanto eles estão deitados com uma das patas amarrada ao joelho – o que impede que se levantem – o desafio é apenas em se aproximar do animal de semblante sempre desconfiado. Mas ao desdobrar suas articuladas e longas pernas é que se pode notar a altura que eles realmente podem atingir.

Do alto da corcova, um berbere risonho gesticulava, me encorajando a segurar firme e levantar enquanto cobria o rosto com seu lenço. De modo desengonçado, com suas grandes patas, pescoço longo e uma postura tranquila, o animal começava a dar os primeiros passos enquanto outros se preparavam atrás em uma fila indiana.

Mas se a montaria era um passo incerto e desconfortável, o restante do percurso não foi diferente. Levamos cerca de meia hora em passos largos dos dromedários para avistar a tenda entre dunas onde passaríamos a noite. Tirar os sapatos e descansar um pouco era um pedido unanime entre os membros do grupo.

Àquela altura, o espetáculo da despedida do sol em meio às areias do Saara formava um cenário inesquecível por trás de palmeiras distantes, tendo sobre ele um céu tomado pelo imenso azul celeste e nuvens que derretiam nos tons magenta dos últimos e sedutores fachos de luz. Após jantar um saboroso tajine e chá de menta oferecido pelos nômades dentro de uma das nossas cinco tendas, resolvi contemplar a noite do Saara.

Minha visão ao por os pés fora da tenda merecia uma descrição de longas páginas. A experiência esotérica de não ter o chão sob os pés era tão aterradora quanto bela e instigante. Caminhar em meio às areais da noite no deserto era como mergulhar em uma dimensão onde as estrelas mantinham apenas o céu iluminado, e a vastidão composta por trilhões de grãos de areia era como o manto de escuridão do universo.

Estávamos longe da fronteira com a Argélia e do Egito, mas ali já era possível notar a presença de beduínos, como são chamados os povos que ainda vivem como nômades nas areias do maior deserto do mundo. Segundo Abdul, ele é uma exceção em sua família de nômades, pois veio para uma região turística trabalhar como guia ainda jovem, quando aprendeu a falar francês, pois antes teve apenas contato com a língua nativa, e ainda assim nunca frequentou a escola.

Outro beduíno explicava ainda que alguns deles hoje vivem com moradia fixa, mas grande maioria dos beduínos ainda permanece montando e desmontando suas tendas - feitas de pele de cabras, tecidos e fibras vegetais - em meio ao Saara. A maioria deles é integrante da religião islâmica, embora Abdul admitisse que não costumasse frequentar a Mesquita.

O sistema político dos grupos beduínos baseia-se na unidade familiar extensa, de ordem patriarcal. Além da atividade turística praticada por uma pequena parcela, Abdul me conta que o comércio e o pastoreio são as únicas fontes de renda das suas famílias, e que os dromedários são as suas pick-ups, compara com humor.

Todos cegos, como grãos os de areia em meio ao vasto deserto, guiados por um mapa de luz que nos encobria e o vento frio que dobrava a espinha, diante do grande grito do céu. Eis que em meio a escuridão um som se inicia. Os tambores se somam a palmas e movimentos de sobras próximas ao que parecia uma fogueira. Os berberes nos recebiam com sua música milenar em volta do fogo que aquecia os corpos.

Com suas grandes túnicas coloridas, os homens acompanhados das palmas dos estrangeiros giram entorno da fogueira e pouco a pouco convidam a todos para uma imensa dança que celebrava a noite e os novos visitantes. Finalmente, deitado sobre a areia, com olhos salpicados de luzes, pude então sintetizar a sensação de estar no Saara: uma grande ciranda de povos em comunhão universal, guiados apenas por ares ancestrais.

Toni Caldas

Galeria de fotografias: www.flickr.com/tonicaldas
Na fronteira entre a majestade e a miséria - Primeira Parte

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