17 de jun de 2012

Da tarde em diante

Àquela hora já estava atrasado. Mesmo com os ponteiros de pulso adiantados, a demora era notável nos seus olhos baixos a procura de uma explicação. No canto do bar no Barbalho, esperava entre cigarros e cervejas, volta e meia observada pelo homem por trás do jornal da semana passada.

As lágrimas retidas nos olhos se omitiam nas mãos tremulas, que quase gritavam sua ansiedade e dor.
Os sapatos desbotados nada diziam sobre os caminhos por onde andou, mas os cabelos desgrenhados e a alça caída do vestido acusavam o desprezo.

De certo que ele costumava demorar, nunca telefonava e nem sequer pedia desculpas. Seus ouvidos eram sedentos de qualquer aviso, um alerta, mesmo uma mentira. Eram assim todas as tardes, antes de Ana decidir nunca mais chorar por homem algum...

Toni Caldas

3 de jun de 2012

Uma pedra no caminho


Aos 32 anos sentia-se cansado de lutar contra a droga. Antes era leitor compulsivo de literatura francesa; agora deixava de lado qualquer Rimbaud original, por uma pedra de cinco. César era viciado em crack. Catava migalhas pela casa como se fossem poemas raros, nunca publicados por Mallarmé.
A neurose tomava sempre conta da sua mente. Trabalhava em uma subestação da Coelba na Lapinha, pelo curso técnico que tirou na juventude. Sempre quis mesmo escrever, apenas isso. Viver mamando nos seios fartos dos conflitos do mundo, poetizando o ar das pessoas, despoluindo assim um pouco menos os pulmões dos filhos da modernidade não concretizada.
Nos dias em que fazia hora-extra quase não trabalhava, pois era domingo e o chefe do setor não perdia o Vitória no Barradão por nada. Passava a maior parte desse tempo pensando que sua maior sorte foi nunca ter casado, nem mesmo tido filhos. Era um solteiro de vida estável, tipo pouco comum que se buscava um refúgio na sombra do crack.
Queria adotar um garoto. Sempre gostou da ideia de entrecruzar o caminho de uma vida em fundamento no seio da terra e ajudar aquela semente a ser uma nova árvore híbrida, mais resistente e frutífera. Pensava em como seria ler Saint-Exupéry para nos seus sonhos plantar imagens de um ser que descobriu outros planetas.
César sentia-se como Sartre, como se sua carência enquanto ser humano fosse amalgamada ao seu prazer pessoal apenas quando o gesto de expressar mundo em um verso – pouco ou nada parnasiano – se concluía.
Cada poema escrito era para ele como apertar o botão verde na mesa de controles, levando a luz a milhões de casas. O grande dilema de César era não ter ninguém para socorrer quando a subestação de energia falhava e ele se rendia mais uma vez ao cachimbo em uma boca na Avenida Peixe, no caminho de volta do trabalho.
Toni Caldas

1 de jun de 2012

Coração na bola

Joca vendia balas no sinal. Na Fonte Nova, em dias de partida, conseguia vender até uma caixa inteira para garotada. Seus olhos desejavam estar no lugar deles, não precisar trabalhar, ter no ombro do pai o ponto mais alto para ver o jogo, ter aquele lenço tricolor na cabeça, quase imitando os pais no Carnaval atrás do Camaleão.

O Bahia era sua grande alegria. Joca nunca se esqueceu do dia que apanhou da arquibancada a bola chutada por Bobô enquanto os jogadores comemoravam a final do Baiano de 1988, pendurados no alambrado junto à torcida.

Era tricolor de berço. Lamentava apenas não ter conhecido seu pai, mas assumiu torcer pelo Bahia porque era a camisa que ele vestia na única foto que Joca encontrou um dia, escondida, dentro de uma antiga caixa da mãe.

Sinal vermelho. Sinal verde. Boa tarde, tio. Boa tarde, tia. Uva, hortelã, morango e tutti frutti. Uma é dez, três é vinte – trabalhar no sinal exigia esperteza, não podia falhar.

Passava a pensar cada vez menos no sonho antigo de ser artilheiro do Bahia. Enquanto os colegas cheiravam cola na Praça de Nazaré ou fumavam maconha atrás do Salesiano, Joca trabalhava pra conseguir juntar os trocados comprar no fim de semana o novo álbum de figurinhas.

Lembrava como ontem do dia em que Seu Ezequias lhe deu o primeiro álbum do Bahia. Era o único adulto que Joca respeitava a opinião sobre o Bahia sem discutir, mesmo quando falava mal.

Era apaixonado por Fabiana. Joca era a nova bola do jogo. Seria um romance perfeito se a comemoração do primeiro aniversário de namoro não fosse marcada para um domingo de BA-VI de volta no Barradão. A menina mais linda do mundo ou a revanche pelo último empate?

Depois de uma noite, aturdido, pensando no que fazer, Joca escolheu na última hora ir ao estádio. Casa cheia. Neste dia João Marcelo não jogava e Zé Carlos estava pendurado com um amarelo. Com o time desfalcado, esquema nenhum viraria aquele placar.

Com o apito final, o resultado: uma virada de dois a um, e um pênalti roubado. Uma derrota para o Bahia e duas para Joca, que descobriu naquele dia que mandinga de mulher era zebra na tabela.

Toni Caldas