1 de jun de 2012

Coração na bola

Joca vendia balas no sinal. Na Fonte Nova, em dias de partida, conseguia vender até uma caixa inteira para garotada. Seus olhos desejavam estar no lugar deles, não precisar trabalhar, ter no ombro do pai o ponto mais alto para ver o jogo, ter aquele lenço tricolor na cabeça, quase imitando os pais no Carnaval atrás do Camaleão.

O Bahia era sua grande alegria. Joca nunca se esqueceu do dia que apanhou da arquibancada a bola chutada por Bobô enquanto os jogadores comemoravam a final do Baiano de 1988, pendurados no alambrado junto à torcida.

Era tricolor de berço. Lamentava apenas não ter conhecido seu pai, mas assumiu torcer pelo Bahia porque era a camisa que ele vestia na única foto que Joca encontrou um dia, escondida, dentro de uma antiga caixa da mãe.

Sinal vermelho. Sinal verde. Boa tarde, tio. Boa tarde, tia. Uva, hortelã, morango e tutti frutti. Uma é dez, três é vinte – trabalhar no sinal exigia esperteza, não podia falhar.

Passava a pensar cada vez menos no sonho antigo de ser artilheiro do Bahia. Enquanto os colegas cheiravam cola na Praça de Nazaré ou fumavam maconha atrás do Salesiano, Joca trabalhava pra conseguir juntar os trocados comprar no fim de semana o novo álbum de figurinhas.

Lembrava como ontem do dia em que Seu Ezequias lhe deu o primeiro álbum do Bahia. Era o único adulto que Joca respeitava a opinião sobre o Bahia sem discutir, mesmo quando falava mal.

Era apaixonado por Fabiana. Joca era a nova bola do jogo. Seria um romance perfeito se a comemoração do primeiro aniversário de namoro não fosse marcada para um domingo de BA-VI de volta no Barradão. A menina mais linda do mundo ou a revanche pelo último empate?

Depois de uma noite, aturdido, pensando no que fazer, Joca escolheu na última hora ir ao estádio. Casa cheia. Neste dia João Marcelo não jogava e Zé Carlos estava pendurado com um amarelo. Com o time desfalcado, esquema nenhum viraria aquele placar.

Com o apito final, o resultado: uma virada de dois a um, e um pênalti roubado. Uma derrota para o Bahia e duas para Joca, que descobriu naquele dia que mandinga de mulher era zebra na tabela.

Toni Caldas

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